Don Cheadle como Miles Davis

Robert Ito, The New York Times - O Estado de S.Paulo

Para se preparar para o papel, dominou o característico assobio de Davis e assistiu a muitos filmes sobre o músico trabalhando e tocando

Don Cheadle não esperava interpretar o papel de Miles Davis. Já havia interpretado papéis de outros astros anteriormente, como Sammy Davis Jr. em Os maiorais (1998), que lhe proporcionou um Globo de Ouro, e como o hoteleiro e membro acidental da força humanitária Paul Rusessabagina no filme de 2014, Hotel Ruanda, para o qual recebeu uma indicação ao Oscar. Cheadle já havia sido o ídolo do basquete Earl Manigault, a Cabra, em A Hora da Virada e o DJ de rádio Petey Greene em Talk to Me.

Estas biografias hollywoodianas, acabou percebendo, eram quando muito aproximações. "Sentei perto de Paul Rusesabagina durante as filmagens de Hotel Ruanda; olhei para ele e perguntei: 'E este?' contou Cheadle. "E ele respondeu: 'Não, não mesmo. Chegou perto".

Agora, Cheadle estreia em Miles Ahead, um filme que decididamente não é biográfico sobre o fabuloso trompetistas e compositor de jazz. Longe da típica narrativa cinematográfica linear, em que uma grande voz do jazz acaba inevitavelmente, em geral para sempre, por causa da bebida ou das drogas (como Bird, Round Midnight, Let's Get Lost ou O Ocaso de Uma Estrela), Miles Ahead focaliza o período do final dos anos 70 quando Davis não estava tocando. "Gostei muito da incongruência", disse Cheadle. "O Miles que tocava não estava lá, só a ideia dele".

Mr. Cheadle como Miles Davis em "Miles Ahead", que tem lugar no final de 1970

Mr. Cheadle como Miles Davis em "Miles Ahead", que tem lugar no final de 1970 Foto: Brian Douglas|Sony Pictures Classics

Desde sua estreia no Festival de Cinema de Nova York em outubro, o filme recebeu elogios por seu retrato nada convencional do grande músico. David Rooney de The Hollywood Reporter o chamou "um retrato extraordinário de um dos inquestionáveis gênios do gênero", enquanto A. O. Scott do New York Times escreveu: "Quem quiser ter uma prévia dos possíveis indicados para o Oscar para 2017" deve ver o filme.

No início deste mês, Cheadle, hospedado no Four Seasons, explicou como o pegaram para fazer não só o papel de Miles Davis, mas também para dirigir o filme e escrever o roteiro com Steven Baigelman. 

Cheadle chegou de moto e pediu uma tigela de aveia ("Sou pré­diabético," explicou). Durante a maior parte do tempo ele falou do trompetista em sua melhor voz raspada à la Miles Davis, falando dos grandes álbuns de jazz que ouvia quando criança (o clássico de Davis, Kind of Blue, Julian Cannonball Adderley and Strings) e cantando as letras do álbum Head Hunters de Herbie Hunter, de 1973, que ele amava.

O envolvimento de Cheadle no filme começou com uma única e ousada declaração de alguém que ele sequer conhecia. Depois que Davis, que morreu em 1991, foi incluído no Rock and Roll Hall of Fame em 2006, Cheadle lembrou, perguntaram a Vince Wilburn, o sobrinho de Davis "se fariam um filme sobre sua vida. E ele respondeu: "Sim. E Don Cheadle vai interpretá­lo".

Tudo isto era novidade para Cheadle, mas os dois conversaram por telefone e logo ele entrou no projeto. Leu alguns roteiros e detestou todos eles. E então tentou imaginar em que tipo de filme Davis gostaria de estar. Aí estava alguém cujo amor desmedido por automóveis caros, armas, mulheres e cocaína fazia parte do folclore musical americano, um homem que alcançou o status de grande astro tocando jazz com o trompete. "Se você faz um filme sobre Miles Davis, vai ter de ser um gângster, um filme sobre assaltos, tem de ser uma coisa tresloucada", disse Cheadle. "Tem de ser tão criativo, variado, visceral como toda a sua música".

Não havia um roteiro desse tipo; então Cheadle decidiu escrevê­lo com Baigelman. Para se preparar para o papel, dominou o característico assobio de Davis e assistiu a muitos filmes sobre o músico trabalhando e tocando. Embora Cheadle nunca tivesse dirigido um longa antes, tinha uma clara concepção do que queria.

"Mas quando chega a hora de trabalhar, ele deixa que você voe por conta própria, e isto deu uma enorme liberdade", disse Emayatzy Corinealdi, que interpreta a primeira mulher de Miles, Frances Taylor. "Foi algo bastante próximo de como Miles estava com os outros integrantes da banda. Ele não gostava que a gente ensaiasse: ele queria as coisas puras e no momento. E foi assim que Don trabalhou".

Às vezes, ele até dirigia como Miles. "Não se tratava de algo do tipo: 'Não quero que me chamem Don', lembra Cheadle. 'Hoje sou Miles o dia todo'. Eu só queria me manter o mais perto possível do personagem".

Don Cheadle dirigiu e estrelas em "Miles Ahead", como o trompetista de jazz Miles Davis, um projeto que ele tinha sido envolvido em durante anos

Don Cheadle dirigiu e estrelas em "Miles Ahead", como o trompetista de jazz Miles Davis, um projeto que ele tinha sido envolvido em durante anos Foto: Elizabeth Weinberg|The New York Times

Esta proximidade se estendeu aos números musicais. Cheadle, que tocava sax alto no curso secundário, aprendeu a tocar trompete com a ajuda de um velho amigo, Wynton Marsalis, vencedor do Grammy. 

Kristen Bell, que contracenou com Cheadle na série House of Lies, a comédia do Showtime sobre consultores de administração, contou que ele trabalhava neste projeto desde que eles se conheceram, seis anos antes: "Meu amigo voltava para o trailer praticamente depois de cada cena filmada e ensaiava com o trompete".

Ewan McGregor é o jornalista à procura de furos que tenta entrevistar o músico esquivo. Falando no Festival de Cinema de Berlim, Cheadle disse que "ter um ator branco neste filme era um imperativo financeiro", comentário que gerou manchetes, evidentemente durante a temporada dos Oscars Muito Brancos.

"Ninguém disse especificamente: 'Você precisa chamar este ator para que isto aconteça'", esclareceu na entrevista. "Eu poderia ter chamado um grande ator japonês se quisesse rodar o filme no Japão. Mas havia uma lista de atores que movimentariam o dinheiro".

Então você não disse: "Preciso chamar Ewan McGregor?""Pois é, como se esta fosse uma coisa ruim", comentou rindo./Tradução de Anna Capovilla