Botox pode ajudar no tratamento da depressão

- O Estado de S.Paulo

Pesquisas mostram que a toxina botulínica pode melhorar sintomas da doença. E não só por causa do fim das rugas

Mais uma do Botox: para além dos poderes de congelar rugas, melhorar crises de enxaqueca e reduzir o suor em excesso, a toxina botulínica tem o incrível efeito de te deixar mais feliz. E não é por conta do rosto mais jovem e lisinho. Um estudo da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, feito com pessoas que sofrem de depressão, revelou que há efeitos reais na química cerebral que levam à melhora do humor desses pacientes.

Pesquisadores acreditam que o resultado positivo da aplicação do botox na depressão se deve à influência da expressão facial sobre o cérebro

Pesquisadores acreditam que o resultado positivo da aplicação do botox na depressão se deve à influência da expressão facial sobre o cérebro Foto: Steven Depolo/Creative commons

A pesquisa foi feita com 74 adultos, todos diagnosticados com depressão severa. Metade recebeu aplicações da toxina e a outra metade levou picadas de injeções salinas, o chamado placebo, na testa, exatamente no músculo que fica entre as sobrancelhas. Ao final de seis semanas, 52% dos que receberam o Botox sentiram-se significativamente melhor contra apenas 15% do grupo do placebo. 

As alterações positivas no humor relacionadas à toxina botulínica já haviam sido relatadas em estudos anteriores. Segundo o pesquisador Eric Finzi, um dos autores do estudo, a resposta pode estar na comunicação entre as vias nervosas da face e o cérebro. Já se sabe, por exemplo, que em doenças raras, em que as vítimas não conseguem mover os músculos da face, elas têm comprometida também a capacidade de sentir alegria ou tristeza.

Os pesquisadores acreditam que o resultado positivo da aplicação do Botox na depressão se deve à influência da expressão facial sobre o cérebro. Para eles, sentimentos como raiva, tristeza e felicidade, não vêm do cérebro, mas do músculo. Ao paralisá-lo, ele fica impedido de demonstrar tristeza e, consequentemente, sintomas de depressão diminuiriam.

Mas como explicar isso? Não se sabe ao certo por que nossas expressões faciais influenciam nossas emoções. Mas elas acabam reforçando nossas emoções. Há estudos que mostram, inclusive, que pessoas que expressam a dor com caretas, sentem mais os efeitos dela no corpo. É como se nosso rosto comunicasse sentimentos não apenas para os outros, mas para nós mesmos. Em outras palavras, você parecer triste, te deixa triste. No caso dos pacientes de depressão, é como se o tratamento com a toxina começasse no exato momento em que ela deixa a expressão do rosto mais suave. 

Evidentemente, a depressão é uma doença bem mais complexa do que apenas uma imagem de um rosto entristecido. Mas há quem aposte que o Botox tem o potencial de ser o novo Prozac. Tanto que a Allergan, empresa que fabrica a substância, conduz um estudo, atualmente em fase II de pesquisas clínicas, para tratar a depressão severa em mulheres. Se esse é de fato o caminho, só o tempo dirá.