As meninas vão ao ginecologista já na puberdade. Por que não levar os meninos no urologista também?

Daniel Zylbersztejn - O Estado de S.Paulo

Doenças e problemas de fertilidade, prevalentes na meia idade, têm início na juventude e podem ser evitadas com visitas ao especialista desde cedo

Foto:

É muito comum associar o médico urologista à saúde do homem maduro, acima de 50 anos, e à doenças que costumam surgir nessa fase da vida, como o câncer de próstata. Não está errado - afinal, muitas das campanhas veiculadas pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) na mídia enfocam a importância da visita a um urologista na meia idade. São campanhas de extrema importância, visto que metade dos brasileiros nessa faixa etária nunca passou por um especialista. Porém, é importante frisar que o urologista não é apenas o médico "do homem de 50+", mas um profissional para toda a vida, que deveria ser consultado desde a adolescência. 

A maioria das meninas vai ao ginecologista desde cedo, orientadas pelos pais. Por que não levar meninos saudáveis, no fim da puberdade, para a avaliação de urologista? A visita do adolescente ao urologista não visa apenas a detecção de problemas de saúde nesta fase da vida, mas também objetiva a prevenção e  promoção de saúde futura. Entretanto, a imensa maioria dos homens busca uma avaliação do urologista apenas na fase adulta, quando muitas vezes alguma doença já está estabelecida. 

Uma das situações que mais alarma e, esta sim, leva o homem adulto ao urologista é a infertilidade masculina, diagnosticada pela baixa produção de espermatozoides vista no espermograma. Cerca de 40% dos homens com infertilidade primária (que nunca tiveram filhos) apresentam como causa uma doença chamada varicocele. E pode chegar a impressionantes 80% de prevalência naqueles homens que já engravidaram suas esposas mas encontram dificuldade em ter outros filhos. A varicocele é a principal doença causadora de infertilidade masculina. Está presente em mais de 15% da população masculina, mas poucos sabem que o início dela ocorre justamente na puberdade, sem apresentar sintomas clínicos importantes. E quanto maior for o tempo de existência desta doença, maior será o prejuízo para a produção e a qualidade dos espermatozoides. 

Desta forma, a detecção e o tratamento cirúrgico precoce da varicocele ainda na adolescência ou na idade adulta jovem podem preservar o potencial fértil masculino lá na frente, evitando que muitos necessitem procurar as clínicas de reprodução humana para serem submetidos a tratamentos caros e complexos de fertilização in vitro para engravidar suas parceiras. 

Sabe-se que 30 minutos de exercícios físicos diários e uma dieta rica em fibras, legumes, frutas, verduras, grãos, cereais integrais e pobre em gordura animal desde a juventude ajudam de forma significativa a redução do risco do câncer de próstata, o segundo tumor maligno mais comum entre os homens, perdendo apenas para o câncer de pele. Estima-se a incidência de cerca de 69 mil casos de câncer de próstata em 2015, com um risco calculado de cerca de 70 casos para cada 100 mil brasileiros. Outras doenças crônicas, como diabete, pressão alta, disfunção erétil e pedra nos rins também podem ser prevenidas ou postergadas por visitas médicas ao urologista desde cedo, por meio de orientações, exames físicos e laboratoriais regulares. 

A medicina encontra cada vez mais na prevenção a maior arma contra as doenças que nos acometem ao longo da vida. Cabe à população masculina madura a mudança de comportamento em relação à sua saúde, mostrando aos adolescentes e incentivando-os a procurarem o médico do homem desde cedo, tal qual a população feminina faz - e nos ensina com maestria - como rotina há muitos anos. 

Daniel Zylbersztejn é urologista, PHD em Medicina Reprodutiva e colaborador do canal Longevidade do Estadão.