As histórias de quem achou um novo amor na internet - aos 40, 50, 60 anos…

Gabriela Carelli - O Estado de S.Paulo

Casais se encontram em site de relacionamento só para maduros, um mercado que tem tudo para explodir no País

Shirlei e Paulo têm 51 e 52 anos. Moram juntos. Sandra e Diogo, de 46 e 49, são casados de papel passado. Vera e Hélio também trocaram alianças- ela está com 46 e ele com 60. Quem os vê no porta-retratos, posando com os filhos, ou passeando pelas ruas de mãos dadas, como aqueles casais que “deram certo” - se conheceram na época da faculdade, tiveram filhos e continuam juntos, felizes - nem imagina a história que eles têm para contar.

A narrativa é parecida nos três casos. Eles se deram mal. A união que seria para sempre, aquela, da juventude, durou só o que tinha de durar. Depois vieram as brigas, o divórcio, o fardo de criar os filhos sem um parceiro (que sempre pende mais para um lado do que para outro), a preguiça e, vá lá, a vergonha de ir a um barzinho para encontrar um novo alguém.. E, por fim, a solidão. Só que não.

O que era para terminar como um samba-canção, ao estilo de “Meu Mundo Caiu”, eternizado por Maysa, terminou em final feliz. Depois do período de lamúria, doloroso e aparentemente insuperável, porém inevitável e comum a todos os que terminam um relacionamento, mesmo aqueles notoriamente falidos, eles foram à luta. Na internet. Acharam-se no primeiro site de encontros do País voltado para quem tem lá seus 40 e tantos anos - ou bem mais - o Coroa Metade.

Sandra casou-se aos 21, mas nunca fora feliz no relacionamento. “Não havia vida, era insosso”, conta. Depois de separar-se, em abril de 2012, passou vários meses sozinha. Estava resignada a continuar assim, sem ninguém, até que sua mãe insistiu para que ela entrasse num site de encontros, "só para gente da sua idade". Entrou. Depois de vetar um primeiro candidato - "imaturo demais" - recebeu novas mensagens. "Vi que tinha um jeito de escrever parecido comigo, que era decente, respeitador e sem nenhum traço de vulgaridade", diz ela. “Quando conversamos por telefone falamos demais, como se já nos conhecêssemos há anos. Ficamos três horas no telefone, falando de vida, de trabalho, de filhos”, relembra Diogo. Os dois se casaram.

Sandra casou-se aos 21, mas nunca fora feliz no relacionamento. “Não havia vida, era insosso”, conta. Depois de separar-se, em abril de 2012, passou vários meses sozinha. Estava resignada a continuar assim, sem ninguém, até que sua mãe insistiu para que ela entrasse num site de encontros, "só para gente da sua idade". Entrou. Depois de vetar um primeiro candidato - "imaturo demais" - recebeu novas mensagens. "Vi que tinha um jeito de escrever parecido comigo, que era decente, respeitador e sem nenhum traço de vulgaridade", diz ela. “Quando conversamos por telefone falamos demais, como se já nos conhecêssemos há anos. Ficamos três horas no telefone, falando de vida, de trabalho, de filhos”, relembra Diogo. Os dois se casaram. Foto: Arquivo pessoal

Em funcionamento há pouco mais de dois anos, o Coroa Metade foi lançado no momento propício, tanto do ponto de vista demográfico como comportamental. O brasileiro nunca viveu tanto e tão bem - como dizem por aí, os 50 são os novos 30 -, o que permite um recomeço aos 40, 50, 60 e, por que não, aos 70 anos. Prova disso é o número de matrimônios entre pessoas com mais de 40 anos na última década -houve um aumento de 62% só na região metropolitana de São Paulo, segundo o IBGE. E quem antes tinha receio de se meter numa encrenca daquelas ao procurar os serviços de sites de relacionamento, principalmente os maduros, já não tem mais.

Mudou também o perfil de quem se cadastra nestes sites. “No começo da década os sites de encontro eram tidos como a única opção para pessoas frustradas, que mentiam sobre si mesmas”, explica o jornalista Airton Gontow, criador do Coroa Metade. “Hoje, e cada vez mais, são frequentados por pessoas comuns. Sandra, por exemplo, é empresária do ramo educacional e professora de inglês. “Deixe bem claro no meu perfil: disse que era professora, que gostava de dançar, tinha duas filhas e que buscava um homem família,” Seu atual marido, Diogo, é pai de de uma menina de 15 e um garoto de 7. Um representante comercial, bem família.

"Já tinha ouvido várias histórias de namoro pela internet - de sucesso e de fracasso. Sempre pensava que, se encontrar um homem honesto na vida real já era difícil, na virtual seria mais complicado ainda. Quando decidi procurar um namorado na rede, decidi que seria eu mesma. Essa é minha dica número um. Se agirmos com sinceridade, o risco de decepcionar o outro e a nós mesmos é muito menor. E as chances de dar certo, enormes", diz Vera, pedagoga e blogueira. Ela sofreu um acidente aos 11 anos e teve de amputar o seu braço direito. Hoje é casada com Hélio, comerciante.

"Já tinha ouvido várias histórias de namoro pela internet - de sucesso e de fracasso. Sempre pensava que, se encontrar um homem honesto na vida real já era difícil, na virtual seria mais complicado ainda. Quando decidi procurar um namorado na rede, decidi que seria eu mesma. Essa é minha dica número um. Se agirmos com sinceridade, o risco de decepcionar o outro e a nós mesmos é muito menor. E as chances de dar certo, enormes", diz Vera, pedagoga e blogueira. Ela sofreu um acidente aos 11 anos e teve de amputar o seu braço direito. Hoje é casada com Hélio, comerciante. Foto: Aquivo pessoal

Com 16 milhões de páginas vistas, 1,5 milhões de visitantes e 25 casamentos realizados, o Coroa Metade abriu caminhos para os negócios da maturidade na rede. Já existem vários sites de encontro voltados para pessoas maduras - “amor de idade”, “namoro senior” e "mais de 50”, só para citar alguns. Bem provavelmente, novos devem surgir na onda cinza que tem tomado conta do País - para, quem sabe, diminuir ainda mais a distância entre os quase 30 milhões de brasileiros com mais de 45 anos solteiros, divorciados ou viúvos.