25 anos sem Costinha: relembre a carreira e piadas do humorista

André Carlos Zorzi - O Estado de S.Paulo

Lírio Mário da Costa teve problemas com a censura, passou por diversas emissoras de TV e ficou marcado pelo personagem Mazarito

Costinha em foto de 1979

Costinha em foto de 1979 Foto: Arquivo / Estadão

Costinha, humorista com passagens pelas principais emissoras de TV no Brasil, além dos palcos de teatro e telas de cinema, morreu em 15 de setembro de 1995, há 25 anos. Relembre algumas piadas e momentos marcantes de sua vida e carreira.

A origem de Costinha

Filho de uma portuguesa e um palhaço de circo, o 'Bocó', Lírio Mário da Costa nasceu em 25 de março de 1923, no bairro de Vila Isabel, na então capital federal, Rio de Janeiro.

Foi criado em um ambiente de circo até o início da adolescência. Aos 13, seu pai deixou a família e Costinha parou de estudar no terceiro ano do ginásio, começando a trabalhar ainda jovem.

Passou pelas mais diversas funções, como garçom, vendedor de bilhetes da loteria, apontador de jogo do bicho, engraxate, faxineiro, motorista e contra-regra. Investiu na carreira artística após sair do exército. 

Seu primeiro trabalho no teatro foi em 1941, no espetáculo Uma Pulga na Camisola. Em 1942, teve suas primeiras experiências como radialista - inicialmente como Mário Costa, e, posteriormente, já conhecido como Costinha.

Foi no rádio que começou a ganhar destaque imitando o então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros [durante a gestão entre 1953 e 1955], ao lado de Silvino Neto [pai do ator Paulo Silvino], que imitava Juscelino Kubitschek.

A imitação, porém, foi censurada a pedido da secretaria de segurança de São Paulo, à época. "Eu era um 'João Ninguém' e a censura me tornou conhecido", avaliava Costinha em 1991.

Costinha nos palcos

Ao longo de sua carreira, o humorista esteve presente em diversos palcos espalhados pelo Brasil, com shows de humor e espetáculos.

Muitos de seus trabalhos tinham nomes de duplo sentido ou alguma conotação sexual. Entre eles, Morno e Manso, Entrando na Abertura, Falando de Frente, Veludo, o Costureiro das Dondocas, O Donzelo e Mamãe, Tô no Plim-Plim.

Em O Presidenciável, subiu ao palco como um candidato a presidente que tinha o lema "Eretas Já" [referência ao movimento Diretas Já] e formava seu time de ministros: Tim Maia (Planejamento), Agnaldo Timóteo (Minas e Energia), Dercy Gonçalves (Educação), Cauby Peixoto (Comunicação), Waldick Soriano (Desburocratização) e ainda Sidney Magal como "ministro das vias urinárias".

"Eu já criei uma imagem do 'eterno gozador'. Mas não é verdade. Gozador por quê? Eu por acaso invento alguma coisa? Não... Eu só faço gozação em cima do que está se vendo aí", dizia na apresentação, em janeiro de 1985.

As pretensões políticas tinham um fundo de verdade na vida real: anos antes, em junho de 1981, Costinha chegou a se filiar ao PDS [Partido Democrático Social] de São Paulo pensando em disputar as eleições para deputado federal em 1982.

Já na peça O Exorsexy, lançada em 1976 (dois anos após o sucesso O Exorcista chegar aos cinemas brasileiros), uma mãe buscava a ajuda de um psiquiatra, uma prostituta e uma entidade da umbanda para que o filho 'mudasse' sua orientação sexual. 

A obra chegou a ser vetada. "Durante toda a peça é feita a apologia do homossexualismo [sic], mostrando o comportamento afeminado do rapaz, que não se envergonha de suas tendências e até, pelo contrário, vangloria-se dessa perversão, não demonstrando qualquer intenção de modificar-se", constava em análise da censura à época, que ainda destacava que "o principal personagem, que faz um tipo grosseiro, vulgar e agressivo é apresentado como o herói polarizador das atenções e do interesse geral. Seu homossexualismo [sic] é implicitamente glorificado durante todo o desenvolvimento da citada pornochanchada teatral".

Personagens ou piadas com referência a gays sempre fizeram parte do repertório de Costinha - muitas delas, hoje, possivelmente enfrentariam mais críticas do que as recebidas na época. Em vida, chegou a se justificar sobre o tema: "Nunca quis desrespeitar ninguém, só faço uma sátira".

Os discos de Costinha

Nas décadas de 1970 e 1980, Costinha ficou marcado por lançar diversos LPs que traziam compilações de suas piadas. Discos como As Proibidas do Costinha e os vários volumes de O Peru da Festa fizeram sucesso à época. 

Costinha na televisão 

"Televisão, você sabe... Não posso ser o endiabrado que sou no teatro. Se deixassem, lógico que eu seria. Mas, então, eles se tornam meus fãs pelas minhas caretas, trejeitos, os tipos criados. Pela minha beleza, talvez, não sei...", brincava, em entrevista a Marília Gabriela no Show dos Shows, em 1984.

Seria quase impossível citar todos os programas em que Costinha, que deu seus primeiros passos na televisão no final dos anos 1960, deu as caras.. Na TV Excelsior, esteve em Costinha, Comédia Máxima. Em 1972, o Comédia do Costinha substituiu o Paz e Humor na TV Tupi

Em 1985, esteve à frente do Domingo de Graça, da TV Manchete. No fim de dezembro de 1988, assinou com a TV Bandeirantes para se tornar protagonista do Só Riso na Praça, lançado pela emissora em 1989 para substituir a Praça Brasil.

Nas décadas seguintes, participou de vários programas de humor, como Os Trapalhões, A Festa É Nossa, Humor Livre, Balança Mas Não Cai, Planeta dos Homens e Estados Anysios de Chico City.

Costinha também era presença frequente dando entrevistas bem-humoradas em atrações como o Domingão do Faustão e o Jô Soares Onze e Meia, além de ter sido jurado do Chacrinha. Quase sempre, fazendo suas tradicionais piadas com o microfone. No fim de 1991, fez um dos vídeos da campanha Invente, tente, faça um 92 diferente, da Globo.

Um de seus papéis mais marcantes ganhou notoriedade num programa do amigo Chico Anysio: Mazarito, na Escolinha do Professor Raimundo. "Como não aparece ninguém novo no meio humorístico, o Chico Anysio nos tirou do baú, espanou a poeira e fomos em frente", comentava, à época.

Na nova versão do humorístico, o personagem ficou a cargo de Leandro Hassum, que recebeu críticas pelo trabalho. "Peço desculpa aos grandes fãs de Costinha, mas saibam que é apenas uma homenagem carinhosa. Não dá para imitar o Costinha", defendia.

Costinha também esteve presente no cinema em filmes como O Libertino, Costinha, o Rei da Selva, Costinha e o King Mong, Histórias Que Nossas Babás Não Contavam, Carnaval Barra Limpa, Nudista à Força e uma versão brasileira de As Aventuras de Robinson Crusoé.

A morte de Costinha

Costinha morava sozinho na região de Copacabana, no Rio de Janeiro, quando decidiu encerrar a carreira e começou a pré-produção de um espetáculo infantil que seria a sua despedida dos palcos.

Em abril de 1993, havia constatado uma Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica [DPOC]. Entre as causas, o excesso de cigarros - Costinha fumava até dois maços e meio por dia. 

Mesmo com o problema, não seguiu a orientação médica e continuou com o vício, o que lhe rendeu outros 10 dias internado em agosto de 1994, após passar mal durante um show no teatro do Barra Shopping. 

Ao todo, foram mais de 10 internações. À época, funcionários relatavam que, mesmo mal de saúde, Costinha encontrava um jeito de fumar seus cigarros escondido dentro do hospital.

Em 4 de setembro de 1995, sentiu-se mal, com falta de ar e muita tosse. Foi internado no Hospital Pan-Americano, na Tijuca, onde passou seus últimos dias. Costinha morreu em 15 de setembro de 1995, às 5h45.

O humorista era pai de quatro filhos de seu primeiro casamento, além de ter 'adotado' os três filhos de sua segunda esposa, de quem já estava separado cerca de dois anos antes de sua morte.

Suas últimas peças foram Curta e Grossa e Reverência de Um Gay. Na TV, despediu-se com Mazarito. Semanas depois, a Câmara de Vereadores de São Paulo propôs a nomeação de uma viela em Perdizes como Lírio Mário da Costa em sua homenagem.

A morte de Costinha comoveu o mundo artístico. "Foi a imagem mais engraçada que o Brasil teve", opinava Lúcio Mauro na ocasião. Virgínia Lane considerava o humorista "insubstituível". Jô Soares definiu seu trabalho como "um marco na história do humor brasileiro".

Ao Estadão, seu parceiro Chico Anysio lamentava: "Somos amigos desde 1952 e acho que ele foi um grande desperdício. Era a pessoa mais engraçada do País porque, só com a cara, fazia as pessoas rirem. Por causa disso, dava pouca importância ao texto, achava que poderia só improvisar."

"Ele poderia ter tido uma carreira deslumbrante, mas era desleixado, fumava muito. Não foi um exemplo de profissional por culpa dele próprio", continuava.

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Wilton Junior/Estadão
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