Vídeo de sucesso empodera as latinas

Annie Correal - The New York Times

Sarai é a pré-adolescente nerd, rechonchuda e confiante que enfrenta alguns bullies nas ruas de Nova York no vídeo da música 'Soy Yo'

Sarai Gonzalez, 11, posando para um retrato na Union Square, em Manhattan

Sarai Gonzalez, 11, posando para um retrato na Union Square, em Manhattan Foto: Hilary Swift / The New York Times

Alguns meses atrás, Sarai Gonzalez orgulhosamente se destacava como irmã mais velha e engraçada. Exibia essas características durante os bailes no salão da família em Green Brook, Nova Jersey. Usava calças cor de rosa com tachinhas e fazia um cupcake irado.

Agora a garota de onze anos está em um anúncio da Get Out the Vote e recebe elogios de Lin-Manuel Miranda no Twitter. Recentemente participou do evento do Mês da Herança Hispânica na Casa Branca, onde abraçou o presidente e foi muito requisitada para selfies.

"Foi como um flash", disse Sarai.

 

Em tempo recorde, ela havia ido de menina desconhecida para estrela latina, tudo graças a um vídeo viral: Sarai é a pré-adolescente nerd, rechonchuda e confiante que enfrenta alguns bullies nas ruas de Nova York no vídeo da música "Soy Yo", ou "Sou Eu", do grupo colombiano Bomba Estéreo. Se você é latina, provavelmente já o viu.

O vídeo, recentemente lançado pela banda, tem mais de seis milhões de visualizações. Foi transmitido por toda parte, da NBC News até a Fusion. Gerou uma hashtag, trabalhos de arte em escolas e GIFs animados, que por sua vez, se tornaram memes.

 

"Soy Yo" parece ter aparecido no momento certo como uma crítica desafiadora e adorável da retórica antilatina.

"Não se preocupe se eles não te aceitarem/Se te criticam, diga apenas "Sou eu'", diz o refrão da canção em espanhol.

O vídeo repercutiu particularmente bem entre as latinas. Raramente na vida americana, especialmente em uma época de debates agressivos sobre imigrantes, a cultura popular criou uma personagem jovem, morena e da classe trabalhadora tão heroica, livre da vitimização, cheia de uma dignidade descarada.

 

Sarai deu visibilidade às latinas, e eles responderam em coro: "Sim, sou eu".

"É um lembrete de que os latinos são parte da vida americana; o espaço americano é o espaço latino. Neste momento, essa é uma afirmação bem transgressora", disse María Elena Cepeda, que estuda representações latinas na cultura popular e leciona no Williams College em Williamstown, Massachusetts.

E tudo surgiu de uma mistura de acaso e autenticidade.

O pai de Sarai, Juan Carlos Gonzalez, é da Costa Rica; a mãe, Diana Gonzalez, é do Peru. Eles foram para os Estados Unidos quando tinham a mesma idade de Sarai. Ambos são católicos e se conheceram na igreja. Diana é analista de sistemas em um hospital em Newark, Nova Jersey, e Juan Carlos deixou seu emprego como engenheiro civil para ser pai em tempo integral. Sarai é a mais velha de três filhas e "estava sempre cantando 'Mother Goose'. O microfone era seu melhor amigo", disse Diana Gonzalez. E a menina sempre foi muito confiante. Em seu quarto quase que totalmente rosa, uma frase pintada à mão diz: "Eu sou incrível!".

No ano passado, reconhecendo seu carisma, os pais de Sarai a matricularam em um programa da Actors, Models and Talent for Christ, ou AMTC na sigla em inglês, que se descreve como o ministério do talento e dos modelos cristãos. Sarai viajou para Orlando, na Flórida, e foi escolhida por um agente em Nova York, mas foi o pai que viu o anúncio para montar o elenco do vídeo no banco de dados de atores.

O diretor, Torben Kjelstrup, também participou quase por acaso. Ele, que vive em Copenhague, na Dinamarca, ganhou um concurso para fazer o vídeo para "Soy Yo", do álbum indicado ao Grammy 2015 do Bomba Estéreo, "Amanecer".

Kjelstrup não pretendia fazer uma declaração política; contou que se inspirou apenas na mensagem da canção. A ideia para a personagem de Sarai veio de uma foto de sua namorada do colégio. "Ela estava de aparelho, cabelo vermelho e com uma roupa incrivelmente feia, mas tinha alguma coisa."

O diretor imaginou "uma história onde uma menina anda pelas ruas transmitindo autoconfiança, que é passada para o espectador".

Kjelstrup queria "parafrasear um vídeo de hip-hop", então foi para o Brooklyn. (A filmagem foi feita lá.) Ele realizou testes em meados deste ano, que atraíram mais de cem jovens atrizes. "Quando vi Sarai, ela estava esperando com uma expressão impagável", disse ele.

Esse foi seu primeiro papel, sem contar quando foi um dos "Três Porquinhos" em uma produção da escola.

Kjelstrup teve pouca dificuldade para construir sua personagem: macacão curto, crocs, óculos grandes, rabo de cavalo e trancinhas. Esse visual, combinado com a atitude de Sarai, foi contagiante.

Imediatamente, milhares de pessoas compartilharam o vídeo nas redes sociais; muitos postaram fotos da infância. Alma Castillo, que o assistiu em Montana, tuitou: "#Soyyo capturou minha infância! Obrigado por me fazer sentir orgulho! #Latina".

Melissa Zepeda, estudante e barista em Austin, Texas, escreveu no Instagram: "Gostaria que a música e o vídeo tivessem sido lançados quando eu estava mais ou menos com essa idade, quando provavelmente mais precisava dele, na época em que era muito nerd, muito americana, muito gorda, muito mexicana."

Há surpreendentemente poucas latinas não convencionais na cultura popular. "Ugly Betty", adaptada da novela colombiana "Yo Soy Betty, la Fea," é praticamente a única nerd.

"Quando as latinas são retratadas, sempre se espera que sejam sensuais, espetaculares", disse Isabel Molina-Guzmán, autora de Dangerous Curves: Latina Bodies in the Media  (Curvas Perigosas: o corpo das latinas na mídia).

A personagem de Sarai é poderosa, sem o peso dessas características: passa por duas garotas brancas que estão rindo, com uma trilha sonora de flautas andinas ao fundo. Confronta rapazes mais velhos e começa a fazer movimentos de dança aprendidos nos clipes de Will Smith em "Um Maluco no Pedaço".

Se o vídeo tocou acima de tudo as latinas, pode ter sido por essa mistura fluída de culturas, algo natural para uma garota criada entre elas.

Para Sarai, o vídeo se tornou um filme caseiro no modo de repetição. "Minha mãe está sempre conferindo-o", disse Sarai. "Meu pai fica ouvindo enquanto lava roupas".

Para Sarai, o vídeo se tornou um filme caseiro no modo de repetição. "Minha mãe está sempre conferindo-o", disse Sarai. "Meu pai fica ouvindo enquanto lava roupas". Foto: Hilary Swift / The New York Times

A família tem um novo ritual todas as noites: Sarai vai para a cama com os pais para ver as fotos mais recentes que os fãs postaram.

"Eu sempre choro", disse sua mãe. Na idade de Sarai, Diana Gonzalez trabalhava nos campos de tabaco da Geórgia com a família.

"Eu nunca me imaginei na televisão. Com Sarai, finalmente me vejo na tela. E não tenho que ser magérrima, ou ter a pele perfeita ou uma certa cor de cabelo. Posso ser eu mesma", disse ela.

O marido disse: "Esta menina está em cada mulher latina".

Quando seus pais se emocionam, Sarai lhes diz o que escrever. "Uau, você está linda", eles escreveram à barista no Texas, a que sempre se sentiu deslocada. "Sarai manda um abraço."

Depois, a menina manda alguns corações. Cor de rosa.