Vício em celular leva Motorola a criar reality show para debater uso de smartphones

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Iniciativa se baseia em um levantamento da marca com dados preocupantes sobre a compulsividade e dependência emocional dos usuários de aparelhos móveis

Você mexe no celular quando vai ao banheiro? Isso é mais comum do que se imagina.

Você mexe no celular quando vai ao banheiro? Isso é mais comum do que se imagina. Foto: Caio Nascimento / Estadão

Oito a cada dez curtidas no Instagram são feitas no banheiro e 75% das pessoas já receberam uma mensagem de alguém que estava do lado. Os dados coletados do estudo Phone Life Balance - encomendada pela Motorola - deflagram uma realidade que não tem volta: as pessoas estão cada vez mais dependentes do celular. E não é para pouco, uma vez que já existe até a primeira geração de filhos que são fruto do Tinder - segundo a pesquisa.

Diante disso, a fabricante de tecnologia decidiu repensar o uso de dispositivos móveis e produziu, em parceria com a Discovery Channel, a série Desconectados - Um Desafio Motorola, que vai ao ar na próxima quarta-feira, 27, às 11h40 da noite. 

O programa apresenta três pessoas, do Brasil, Argentina e México, tendo que viver dois dias sem seus aparelhos, a fim de provocar hábitos poucos comuns para quem vive ao lado de um smartphone: usar lista telefônica, orelhão e marcar compromissos sem depender do WhatsApp, por exemplo.

O carioca Victor Selqueira é um dos participantes e, numa das cenas, questiona-se como vai paquerar sem estar com o Tinder. Já a bailarina argentina Macarena Fuentes encontra dificuldades para chegar a um compromisso, enquanto a mexicana e produtora de casamentos Gema Kareh se mostra perdida e insegura ao perder sua rotina de trabalho ultraconectada.

Famílias já estão surgindo a partir do Tinder. Aplicativo foi criado em 2012 e lembra o episódio 'Hang the DJ', de Black Mirror, em que todas os relacionamentos se dão via tecnologia. Será que um dia a sociedade chega nesse nível?

Famílias já estão surgindo a partir do Tinder. Aplicativo foi criado em 2012 e lembra o episódio 'Hang the DJ', de Black Mirror, em que todas os relacionamentos se dão via tecnologia. Será que um dia a sociedade chega nesse nível? Foto: Caio Nascimento / Estadão

Apesar de descontraído e próximo da realidade da maioria das pessoas, o programa se baseia num perfil preocupante: os 4.418 usuários entrevistados para a pesquisa - entre 16 e 65 anos dos Estados Unidos, Brasil, França e Índia - demonstraram compulsividade e dependência emocional. Quatro em cada dez brasileiros se sentem tentados a ver o celular constantemente e 56% ficam aflitos ao perder o telefone móvel.

Assim, os participantes do reality show serão analisados pelo neurocientista André Rieznik e a bióloga pós-graduada em neurociência e educação María Eugenia López.

Ódio na internet X  limites

De acordo com a jornalista e cofundadora do podcast Mamilos, Cris Bartis, esses números revelam um sentimento de angústia e não pertencimento ao mundo no imaginário da sociedade. "Existe a percepção de que você não é visto pelo outro. Precisamos controlar essa narrativa", afirma.

Ela destaca ainda que a reeducação tecnológica vem à tona nos dias de hoje diante dos discursos de ódio espalhados pela internet. "Essas pessoas precisam de limites", enfatiza. A afirmação dela dialoga com a existência de ameaças como a Momo, boneca japonesa que recentemente causou polêmica por aparecer em vídeos ensinando crianças a se suicidar.

Uma das organizadoras do estudo que embasou a criação do Desconectados, Nancy Etcoff, da Universidade de Harvard, acredita que a iniciativa da Motorola mostra que a indústria de smartphones não pode se isentar no debate sobre dependência, mesmo sendo a responsável por criar aparelhos cada vez mais atrativos. "Cutucadas comportamentais, controle ambiental e consciência são fatores que ajudarão [a diminuir a dependência]. O padrão social da pesquisa destaca a necessidade de ações coletivas", afirma ela, que é psicóloga especialista comportamento mente-cérebro.

A Apple também se abriu à ideia de evitar o excesso de uso de seus iPhones e, desde junho de 2018, o sistema iOS oferece ferramentas de controle de tempo. Veja dados curiosos da pesquisa Fone Life Balance.

Universo gastronômico já faz parte da rede social.

Universo gastronômico já faz parte da rede social. Foto: Caio Nascimento / Estadão

Números apontam que tecnologia aproxima quem está longe e afasta quem está perto.

Números apontam que tecnologia aproxima quem está longe e afasta quem está perto. Foto: Caio Nascimento / Estadão

A informação procede na vida de muitas pessoas dependentes da conectividade virtual.

A informação procede na vida de muitas pessoas dependentes da conectividade virtual. Foto: Caio Nascimento / Estadão

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais