Veja dicas para lidar com os problemas que a quarentena traz para pais de crianças autistas

João Pedro Malar* - O Estado de S.Paulo

Especialista ressalta a importância de estabelecer uma rotina bem estruturada e aproveitar o tempo com os filhos

Atividades são importantes para o desenvolvimento de habilidades e manutenção das já desenvolvidas

Atividades são importantes para o desenvolvimento de habilidades e manutenção das já desenvolvidas Foto: Elaine Marques Marucci / Arquivo Pessoal

A necessidade de isolamento social em meio à pandemia do novo coronavírus gerou uma série de novos desafios para pais que têm filhos com o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A mudança repentina de rotina, impossibilidade de realizar terapias presenciais e a permanência em casa deram origens a novas dificuldades.

O TEA se manifesta em diferentes graus em cada indivíduo com autismo. Em alguns casos ele se apresenta de uma forma considerada mais leve, em outros, mais grave. Ainda assim, existem algumas práticas gerais que são benéficas para todas as crianças com autismo. Confira as dicas da psicóloga e analista comportamental do Grupo Conduzir Marina Ramos:

 Atividades

  É importante encontrar atividades que sejam adequadas para a criança e para a família, respeitando o tempo, comprometimento e orientações necessários para realizá-las. “Existem várias possibilidades em casa, de simples brincadeiras, como montar um quebra-cabeças, a coisas mais elaboradas, como uma caça ao tesouro”, explica Marina.

As atividades são essenciais para desenvolver novas habilidades, ou manter as já desenvolvidas pelas crianças, mas deve haver um equilíbrio, com períodos para a criança descansar ou realizar outras ações mais relaxantes, como ver televisão. “Não é saudável ficar com 24 horas de aprendizado e atividades”, ressalta a psicóloga. 

Rotina

Para a psicóloga, é importante conseguir adaptar a rotina com a nova realidade, evitando um aumento do estresse e ansiedade para os pais e, principalmente, para a criança, já que essas sensações podem desencadear crises.

A dica é criar um quadro com a rotina da criança, e dar um aspecto visual para essa organização. Isso ajuda a criança a entender como será o seu dia e o que esperar dele. Essa estruturação e previsibilidade, no geral, acalmam o indivíduo com autismo, evitando crises devido a um grande estresse ou ansiedade. Caso a criança seja mais velha, ou adolescente, é interessante criar essa rotina junto com o filho, para que ele inclua atividades que goste de fazer.

Amanda Ribeiro, mãe do Artur, de quatro anos e que possui TEA, organiza a rotina do filho de uma forma visual, ajudando ele a entender o que precisa fazer

Amanda Ribeiro, mãe do Artur, de quatro anos e que possui TEA, organiza a rotina do filho de uma forma visual, ajudando ele a entender o que precisa fazer Foto: Amanda Ribeiro / Arquivo Pessoal

Terapia

Atividade essencial para ajudar no desenvolvimento de novas habilidades, e a mantê-las, a terapia presencial foi impossibilitada com a quarentena. É importante manter o contato com o profissional pela internet, e tenta realizar sessões online e com atividades que possam ser realizadas pelos pais, recebendo as devidas orientações.

A psicóloga destaca que leva um tempo até que os filhos se adaptem à mudança da terapia presencial para a online, e é importante respeitar e se atentar a esse processo.

Tarefas escolares

“A parte pedagógica é sempre um desafio, para qualquer pai, e para pais de crianças autistas ainda mais. Exige uma adaptação das atividades passadas, repertório e paciência”, observa Marina.

A psicóloga dá duas dicas. Primeiro, é importante dividir atividades complexas, realizando elas ao longo do dia e em períodos curtos, sempre respeitando o tempo limite que a criança pode dedicar à atividade. A segunda dica é não tirar a criança de uma atividade relaxante e prazerosa, como ver televisão, para realizar a tarefa.

Afeto

Por fim, Marina considera que é importante aproveitar esse cenário de quarentena, em que os pais estão convivendo por muito mais tempo com os filhos. “Os pais estão mais voltados para os filhos, têm mais oportunidades de interagir e de descobrir quem realmente é a criança”, analisa a psicóloga.

O suporte profissional é importante nesse sentido, para trabalhar as dificuldades encontradas no dia a dia: “Deve-se descobrir o que pode ser um momento prazeroso, e é importante compartilhar momentos entre pais e filhos”.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais

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