Transição capilar: mulheres abandonam alisamentos e assumem cabelos naturais

Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

Depois de um longo e difícil processo, elas dizem se aceitar e se amar mais

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A blogueira Carla Lemos resolveu assumir seu cabelo natural em setembro do ano passado, após passar pela transição capilar. (Foto: Reprodução/Modices)

Usar os cabelos naturais. Tal afirmação pode soar comum e boba para muitas mulheres, mas, para outras, tal ação significa empoderamento, autoestima e aceitação. Do fim da década de 1990 até agora, as escovas progressivas, definitivas e outros tratamentos alisantes ganharam mais e mais adeptas.  

Segundo pesquisa da L'oreal, 56% das mulheres brasileiras têm cabelo cacheado ou crespo - e 63% delas desejam ter cabelo liso. Este desejo tem fundamento: tanto a indústria de cosméticos quanto a publicidade e a moda ignoraram, por muito tempo, os fios não lisos. Felizmente, a realidade vem mudando.  

A ideia de que o cabelo cacheado ou crespo não é bonito começa a fazer parte das meninas desde a infância. "Todas as meninas da escola tinham o cabelo "melhor", digamos assim, aí eu comecei a alisar porque eu podia usar o cabelo solto, era mais fácil, isso era meu maior motivo", diz a estudante carioca Stephanie Mendes, de 18 anos. 

Em alguns casos, os próprios pais perpetuam essa ideia, tanto pelo preconceito que já sofreram por ter o cabelo crespo e cacheado quanto pela falácia de que estes tipos são difíceis de cuidar. "Com 10 anos eu já alisava o cabelo e, como nessa idade não temos autonomia, são nossos pais que normalmente ditam as coisas. Os meus acharam na guanidina [substância presente em alisamentos] a melhor forma de cuidar, até porque o padrão é eurocentrado e você só tem informações que visem esse padrão, então você precisa se encaixar nele ou não está bonita", conta a estudante de enfermagem paulista Ailla Souza, de 22 anos.  

Já Victoria Galina, estudante paulista de 22 anos, diz que sofreu bastante preconceito quando criança dentro do próprio círculo familiar: "Em casa sempre foi muito difícil, principalmente em festas de família. Sempre escutava que eu tinha pentear o cabelo, prender, e meus primos brincavam que meu cabelo parecia a Mata Atlântica, que podia sair barata de dentro dele. Eu chorava muito, acho que por isso eu não conseguia me ver de cabelo cacheado e acreditava que só o cabelo liso ia me fazer feliz, fazer eu me sentir bonita". 

Na adolescência, a história não muda, já que é nessa época que as mudanças ocorrem mais intensamente, o círculo de relacionamentos aumenta e as influências externas invadem a vida das meninas. As mais famosas atrizes, cantoras, apresentadoras, modelos e outras referências teens têm cabelo liso, o que acaba provocando esse desejo em muitas jovens.  

Nos últimos anos, mais precisamente por volta de uns três anos para cá, as coisas têm mudado um pouco. Com o fortalecimento de ideias feministas, de quebra de padrões de estética e com a popularização das redes sociais, os cabelos cacheados e crespos têm recebido mais atenção. Basta uma simples busca no Google para encontrar quase meio milhão de resultados sobre o termo 'Transição Capilar', que consiste em cortar as partes alisadas e deixar o cabelo natural crescer.  

O antes e o depois delas: Ailla Souza, Victória Galina, Stephanie Mendes, Clarisse Pereira

O antes e o depois delas: Ailla Souza, Victória Galina, Stephanie Mendes, Clarisse Pereira Foto:

O antes e o depois delas: Ailla, Victória, Stephanie e Clarisse. 

De volta às origens. Durante a transição, é preciso lidar com duas ou mais texturas durante um tempo, que pode ser de seis meses a dois anos, dependendo do comprimento desejado pela pessoa e de como ela resolve passar por isso.  Stephanie alisava o cabelo desde os 12 anos, até que, no início de 2015, resolveu assumir seus cachos. Há sete meses, ela fez 'big chop' e agora seu cabelo já está na altura do ombro.  

O 'Big Chop' é uma expressão em inglês que significa 'grande corte', que consiste em cortar o cabelo bem curto para tirar as partes com químicas alisantes e deixar apenas a parte natural, da raiz. O tamanho que vai ficar depende do quanto o cabelo natural já cresceu. No caso de Stephanie, ela cortou bem curto, quase rente à cabeça.  

Ailla também fez um grande corte, depois de ficar por quatro meses com duas texturas nos fios. "Sabia que não iria aguentar por muito tempo as duas texturas e iria ser mais uma tentativa sem sucesso, então decidi cortar e ficar só com 4 centímetros de comprimento." Ela conta que recebeu muitos comentários negativos depois que decidiu assumir os cabelos crespos, mas estava "tão contente" que não se importou.  

A nutricionista Clarisse Pereira, de 30 anos, por outro lado, não queria alisar, pois gostava dos cachos, porém não sabia lidar com o volume. Por isso, decidiu fazer progressiva quando tinha 24 anos somente para tirar o volume. "Com 27 anos, o meu cabelo já não formava mais cachos, por causa de uma química atrás da outra, e foi quando eu decidi passar uma progressiva mais forte para alisá-lo de vez", conta. Porém, ela passou pouco tempo lisa e, aos 29 anos, resolveu recuperar os fios naturais. "Foi quando começou o 'boom' das meninas assumirem os cabelos e, pra mim, era um fardo bem pesado ter que dedicar horas do meu dia para cuidar de um cabelo que não era meu".  

Ela passou oito meses em transição, mas há três meses também fez o 'big chop' e agora está com o cabelo do jeito que era antes das químicas. "Me sinto feliz e aliviada e que não devo nada a ninguém. Assumir quem você realmente é, é libertador. Quando você passa a não ser mais escrava de coisas que a sociedade impõe é ótimo." 

No período de transição, ter apoio de amigos e familiares é muito importante, já que a autoestima fica abalada durante o processo. Victória, que está em transição há um ano, ressalta como isso a ajudou: "Muitas amigas cacheadas me ajudaram a tomar a decisão, eu passei a ver o cacheado com outros olhos. Eu percebi que, para me aceitar e ser feliz com quem eu sou, eu tinha que aceitar o meu cabelo também". Ela, diferente das outras meninas, foi cortando as partes lisas aos poucos e já está conseguindo modelar os cachos.  

Além do apoio de pessoas próximas, outro artifício que ajuda as mulheres neste processo são as redes sociais e os blogs. A blogueira Carla Lemos, que criou o Modices há dez anos, assumiu seus cachos em setembro do ano passado e acompanhou diversas mudanças no modo de falar de moda e beleza na internet nos últimos anos: "A internet fez com que a gente conseguisse se conectar com pessoas parecidas com a gente. Porque, às vezes, no nosso ambiente, a gente não tem pessoas que pensam parecido e a gente acaba se fechando, amuando nossa personalidade pra se encaixar no ambiente que a gente vive."  

Em grupos do Facebook, em blogs e em vídeos de YouTube, mulheres que estão passando ou já passaram pela transição dividem experiências, dão dicas de cuidados e dão força a quem está passando pelo processo. "Principalmente as blogueiras, que falam diretamente com as pessoas que estão em casa, como se estivessem cara a cara", diz Stephanie. Ao mesmo tempo, é preciso ter cuidado para que esses grupos de ajuda não se transformem num novo padrão, como alerta Ailla: "Tanto as redes sociais ajudam, quanto elas te deixam neurótica com um novo padrão que é o dos cachos perfeitos." 

Entre as técnicas para passar pelo processo da melhor forma possível, o mais recomendado é fazer texturização, que é modelar a parte alisada para se igualar à natural, e pode ser feita de diversas maneiras, com o uso de cremes e acessórios ou até mesmo modelando com os dedos.  

Há ainda aquelas que passam pela transição fazendo escova, porém essa forma não é a mais saudável para os fios, como explica a fundadora do salão paulistano especializado em cachos e crespos Lunablu, Soraia Ferretti: "Isso é um erro que muita gente que vem aqui comete. Na transição, realmente tem que manter o cabelo natural, sem química, sem calor, sem nada. A gente orienta cortar aos poucos". 

Quanto à ideia de que cuidar de cabelos cacheados e crespos é difícil, as meninas garantem que não, já que o tempo que gastavam com escova e chapinha diariamente era maior. Além disso, a questão financeira é mais vantajosa pois não há mais necessidade de retocar as escovas progressivas e alisamentos. Nos grupos do Facebook, como o 'Cacheadas em Transição' e semelhantes, há centenas de receitas caseiras com óleo de coco e outros produtos naturais para hidratar e tratar os fios.  

EFE/EPA/OLIVIER DOULIERY/POOL
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Tudo novo de novo. O processo de mudança não é fácil, "você sente sua autoestima no chinelo. Eu chorava em casa na época da transição", diz Carla Lemos. Por conta da dificuldade de lidar com as duas texturas, muitas meninas desistem e cedem a novos alisamentos. Mesmo assim, Stephanie sugere tentar: "Se não der certo, se não quiser mais, ok. Mas acho que tem que tentar e viver aquele momento ali, porque é difícil, mas vale a pena". 

Entretanto, depois que o cabelo volta a crescer naturalmente, tudo muda: "Eu me olho no espelho e vejo quem eu sou e quem eu quero ser. Eu vejo aceitação. Assumir os meus cachos significou assumir uma parte de mim que eu não sabia que existia e eu sou uma pessoa muito mais feliz por isso", comenta Victória. "Você assumir seu cabelo do jeito que ele é, é você ir contra esse 'padrão', é não ter que se preocupar com o que vão falar ou fazer, é você ter personalidade e ser quem você é de verdade", Clarisse concorda.

E as mulheres que passaram pelo processo deixam claro que o cabelo é só o começo de uma mudança maior, que vem de dentro para fora e que faz enxergar o mundo, a beleza e atitude de uma forma diferente, explica Carla: "Quando você consegue aceitar as suas características naturais e fazer bom uso delas, de uma forma que te faça feliz, sua autoestima vai às alturas, tudo muda, até seu estilo muda". 

"Esse processo é doloroso, porque você está indo contra tudo o que a sociedade está falando, já que o corpo negro é tido como o suspeito, o sujo, mas ao mesmo tempo é lindo porque você passa a ter orgulho do que você é", revela Ailla. A valorização dos cabelos da forma que eles são não é tendência, mas sim resultado de uma onda de empoderamento que se fortalece a cada dia e parece não ter volta. "Me senti liberta das coisas que me cercavam e me obrigavam a fazer coisas que depois de eu analisar, eu nem queria", completa.

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