Sucesso de relacionamento aberto depende de 'normas' claras entre o casal

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

É preciso estabelecer quais os limites e respeitar o companheiro

Para quem tem relacionamentos abertos, traição é diferente do que para os que preferem a monogamia

Para quem tem relacionamentos abertos, traição é diferente do que para os que preferem a monogamia Foto: Pixabay

 No fim de 2016, Jout Jout e seu namorado, Caio, terminaram o namoro. No entanto, o que mais impressionou os fãs da youtuber, talvez mais que o fim do relacionamento, foi descobrir que o namoro dos dois era aberto - ou seja, os dois podiam se relacionar com outras pessoas.

Em um vídeo em seu canal, Jout Jout explicou a dinâmica do relacionamento deles. Ela evitava ficar com pessoas em lugares públicos por ser mais conhecida, enquanto Caio, que não aparece nos vídeos, não tinha a mesma preocupação.

A youtuber deixou claro que isso nunca foi um problema. "Quando você abre um relacionamento, não vira uma competição de quem pega mais gente", esclareceu. O que ela não esperava era que o fato de ser um namoro aberto fosse impressionar tanto as pessoas.

Roberto Kovac, psicoterapeuta e professor do Mestrado Profissional em Análise do Comportamento Aplicada do Paradigma, esclarece que esse tipo de relacionamento é aquele em que as duas partes podem ter relações com outras pessoas.

A estudante de direito Gabriela Muniz, 20 anos, vive esse tipo de relacionamento e se diz muito satisfeita. "Amor não é a mesma coisa que posse. Relacionamento aberto é você contar com aquela pessoa, mas não ter aquela pessoa como uma posse", opina.

Apesar de ter tentado viver um 'namoro convencional', a tentativa de Gabriela foi frustrada. "Um relacionamento aberto, antes de tudo, é amizade, e a gente tava perdendo isso." Já são dois anos de namoro e, para ela, o mais importante é o respeito: se vão a uma festa juntos, ficam juntos, se vão a outras festas ou até a mesma festa separados, tem liberdade para estar com outras pessoas, desde que o outro não veja ou esteja perto.

"A gente sente amor um pelo outro, respeito um pelo outro, e é isso que vale". Para ela, o único problema do relacionamento é o julgamento das outras pessoas. "Não prejudica em nada [estar com outras pessoas], a não ser a sociedade toda, que acha que somos loucos."

Kovac aponta vantagens e também desvantagens de estabelecer um relacionamento aberto. "Ele diminui a pressão que existe em você ficar cuidando do outro", pondera. "Aumenta também a lealdade". Por outro lado, "fica escancarada a possibilidade, que existe também no relacionamento fechado, de você encontrar uma pessoa diferente e querer se relacionar com a pessoa."

Na opinião da estudante, a traição é algo diferente daqueles que têm relacionamentos monogâmicos. "Traição para mim é quando você não é leal a uma pessoa. Fidelidade é completamente diferente disso. Eu acho que o simples fato de você beijar e transar com uma pessoa que não seja seu parceiro não pode ser considerada uma traição, é carnal", diz. "Traição é você ter um parceiro, aquela pessoa tá sempre com você e quando você mais precisa, ela te dá as costas."

Para o psicoterapeuta, o importante para que um relacionamento aberto funcione é acordar de forma clara as bases do 'contrato', ou seja, as duas partes precisam ter claro quais são os limites e as 'normas' da relação. "Há casais que preferem não saber, mas sabem que o outro tem possibilidade de sair com outra pessoa, há outros que preferem saber. Isso deve estar muito claro no acordo entre eles, para que possam respeitar esse tipo de relação."

Em seu vídeo sobre o assunto, por exemplo, Jout Jout diz que, enquanto namorava Caio, para ela era inadmissível que ele assistisse a Netflix com outra pessoa.

Experiência frustrada. Marcia (nome fictício) tentou ter um relacionamento aberto com seu namorado, mas não deu certo. Como era seu primeiro namorado, ela ansiava por ter novas experiência.

"Eu acho que eu ansiava mais em ter essa liberdade do que de fato usufruir dela. Tanto que depois que abrimos nosso relacionamento, eu tive oportunidades para ficar com outras pessoas e eu não tinha interesse nenhum", explica.

Durante o tempo que tentou ter esse tipo de relacionamento, sentiu-se julgada e pressionada pelas pessoas ao seu redor. "Pouquíssimas pessoas sabiam disso enquanto estávamos com o relacionamento aberto. Nossas famílias não sonham que isso já aconteceu conosco. Nossos amigos julgaram, imagine pais, tios, avós…".

Coisa de jovem? Roberto Kovac, que faz terapia com casais, nega que ter uma relação aberta seja algo próprio de 'jovens'. O psicólogo relembra que, nos anos 1970, o swing (prática em que casais trocam seus pares) era algo comum. "Agora está voltando", explica.