'Star Wars': França reconhece duelo de sabres de luz como esporte oficial

John Leicester - AP

Federação de esgrima tenta conquistar novos praticantes com o esporte inspirado nos filmes de George Lucas

Julien Esprit, à esquerda, compete com Jean Baptiste Marchetti-Waternaux no torneio nacional de sabres de luz em Beaumont-sur-Oise, ao norte de Paris, em 10 de fevereiro.

Julien Esprit, à esquerda, compete com Jean Baptiste Marchetti-Waternaux no torneio nacional de sabres de luz em Beaumont-sur-Oise, ao norte de Paris, em 10 de fevereiro. Foto: Christophe Ena / AP

Agora é mais fácil do que nunca usar fantasias de Star Wars na França, porque a federação de esgrima local se inspirou em uma galáxia muito, muito distante e reconheceu oficialmente o duelo de sabres de luz como um esporte competitivo, garantindo à icônica arma da saga de George Lucas o mesmo status que o florete, a espada e o sabre, as tradicionais lâminas usadas no esporte olímpico.

É claro que as réplicas de policarbonato rígido iluminado com LED não podem cortar um lorde Sith ao meio. Mas elas parecem e, com os sabres mais caros equipados com um chip que emite um som elétrico gutural, até mesmo soam da mesma forma que as empunhadas por Yoda e outros personagens nos filmes de sucesso.

Bastante realistas, ao menos para os duelistas que se envolvem em suadas batalhas organizadas em confrontos de três minutos. A fisicalidade do combate de sabres de luz é parte do porquê a Federação Francesa de Esgrima lançou seu apoio ao esporte e agora está equipando clubes de esgrima com sabres de luz e treinando instrutores para tal. Como virtuosos cavaleiros jedi, a federação francesa vê a si mesmo combatendo contra um 'lado negro da força': os hábitos sedentários de uma vida do século 21 que está adoecendo um número cada vez maior de adultos e crianças.

Duelo entre competidores de sabres de luz.

Duelo entre competidores de sabres de luz. Foto: Christophe Ena / AP Photo

"Com os jovens de hoje, isso é um problema real de saúde pública. Eles não praticam nenhum esporte e apenas se exercitam com seus dedos", afirma Serge Aubailly, secretário-geral da federação. "Está se tornando difícil persuadí-los a praticar um esporte que não tenha ligação em sair do sofá e jogar apenas com um polegar. É por isso que estamos tentando criar uma relação entre nossa disciplina e as tecnologias modernas, desta forma, participar de um esporte parece natural."

No passado, o sucesso de Zorro, Robin Hood e Os Três Mosqueteiros ajudou a angariar novos praticantes à esgrima. Agora, aliando-se a eles e até superando-os, estão Luke Skywalker, Obi-Wan Kenobi e Darth Vader.

"Filmes de capa e espada sempre tiveram um grande impacto na nossa federação e seu crescimento", diz Aubailly. "Os filmes com sabres de luz têm o mesmo impacto. Os jovens querem dar uma chance."

O policial Philippe Bondi, 49, praticou esgrima por 20 anos antes de mudar para o sabre de luz. Quando um clube começou a oferecer aulas em Metz, Bondi diz que foi imediatamente capturado pela possibilidade de viver o amor que tinha pelo universo Star Wars desde que viu o primeiro filme, aos 7 anos, em seu lançamento, em 1977.

Ele luta com a mesma máscara com tela metálica que usava para a esgrima. Ele gasta cerca de 350 euros (equivalente a R$ 1.470) em sua armadura de proteção e em seu sabre de luz aprovado pela federação, optando pela luminosidade verde "porque é a cor dos jedi, e Yoda é meu mestre".

"Tenho que estar do lado do bem, já que meu trabalho é garantir a lei", diz.

Arredores do torneio de sabres de luz disputado na França em 10 de fevereiro.

Arredores do torneio de sabres de luz disputado na França em 10 de fevereiro. Foto: Christophe Ena / AP Photo

Bondi acordou bem antes de fazer uma viagem de quatro horas de Metz até o torneio nacional de sabres de luz nos arredores de Paris nesse mês que reuniu 34 competidores. Isso mostrou o quão longe o esporte pode chegar em alguns anos, mas também que continua a anos-luz de se fazer parte do mainstream.

A multidão era pequena e um problema técnico não permitiu que fotos, nomes de combate e pontuação dos duelistas fossem exibidos em uma grande tela, fazendo os combates difíceis de se acompanhar. Mas os sabres iluminados e coloridos pareciam espetaculares na escuridão. Cosplays de personagens de Star Wars adicionaram leveza, autenticidade e um pouco de bizarrice aos procedimentos, especialmente com a visões como a de Darth Vader comprando um sanduíche de presunto e um pacote de batatas fritas na lanchonete durante um intervalo.

Começando o esporte a partir do zero, organizadores franceses produziram regras de competição que pretendem fazer o duelo de sabre de luz tanto competitivo quanto bonito de se ver.

"Nós queríamos que fosse seguro, organizado e, principalmente, queríamos produzir algo que ficasse visualmente parecido com os filmes, porque é isso que as pessoas esperam", afirmou Michel Ortiz, organizador do torneio.

Os combatentes lutam dentro de um círculo marcado com fita no chão. Golpes na cabeça ou no tronco valem cinco pontos. Nos braços e pernas, três pontos. Nas mãos, um ponto. O primeiro a fazer 15 pontos vence, ou, caso ninguém chegue a esse tanto, quem marcar mais pontos em três minutos. Se os dois lutadores chegarem aos 10 pontos, o combate entra na "morte súbita", onde o primeiro a fazer um acerto na cabeça ou no tronco ganha.

Golpes contam apenas se os lutadores apontarem primeiro a ponta de seus sabres atrás deles. Essa regra prevê golpes rápidos vistos na esgrima. Em vez disso, a regra encoraja golpes mais fáceis para a plateia ver e aproveitar, e que evoquem mais os duelos de Star Wars. Destes, a batalha entre Obi-Wan e Darth Maul em A Ameaça Fantasma, que acaba mal para o Sith apesar de seu sabre de luz duplo, é particularmente apreciada pelos aficionados pela luta de espadas.

Ainda nascente, contando seus praticantes pagos na França em centenas, e não milhares, o duelo de sabres de luz não tem esperanças de um lugar na Olimpíada de Paris em 2024.

Mas ouvir as pancadas entre as espadas e vê-las no ar é motivo para dar uma chance ao esporte. Ou, como Yoda diria: "Tentar, não. Fazer! Ou não fazer. Não há tentativa."