Stalking: a perseguição obsessiva que vai muito além das redes sociais

Hyndara Freitas - O Estado de S.Paulo

Expressão foi criada para explicar fanatismo exagerado, mas os stalkers atingem diversos perfis de vítimas

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É comum encontrar a palavra stalker nas redes sociais, geralmente usada para identificar alguém que acompanha o perfil e as postagens de determinada pessoa com frequência. O termo, porém, vai muito além disso e serve para definir um perseguidor obsessivo, insistente e que dispensa atenção exagerada a alguém.

"Seguir a vítima em seus trajetos, aparecer repentinamente em seu local de trabalho ou em sua casa, efetuar ligações telefônicas inconvenientes, deixar mensagens ou objetos pelos locais onde a vítima circula, encaminhar presentes, espalhar boatos, perseguir a vítima nas redes sociais, frequentar os mesmos locais de lazer, e até mesmo invadir sua propriedade" são algumas das ações comuns de um stalker, conforme explica a advogada especialista em Direito Digital, Gisele Truzzi.

A expressão stalking começou a ser utilizada no fim da década de 1980 para identificar o comportamento obsessivo de alguns fãs para com os famosos. O estado da Califórnia, nos Estados Unidos, foi o primeiro do mundo a aprovar uma medida legal contra a prática, em 1990. Posteriormente, Canadá, Austrália, Inglaterra e outros países europeus tomaram medidas semelhantes.

No Brasil, a prática por si só não é considerada crime, apenas contravenção penal, de acordo com o artigo nº 65 da Lei de Contravenções Penais, que penaliza a perturbação de tranquilidade alheia com prisão de quinze dias a dois meses ou multa. A legislação pouco específica se deve, em partes, à carência de estudos e dados sobre o tema.

A perseguição pode ocorrer com qualquer um. Muitas vezes, uma pessoa passa a ser perseguida por um desconhecido, mas também é muito comum o stalking vir de ex-cônjuges inconformados com o fim de um relacionamento. Outra situação recorrente é a perseguição de fãs obcecados por uma personalidade.

O recente caso do ataque de um fã a Ana Hickmann trouxe o tema à tona. Rodrigo Augusto de Pádua, de 30 anos, invadiu o quarto de hotel da apresentadora armado dizendo ser apaixonado por ela, além de ter ameaçado sua assessora e seu cunhado. Rodrigo acabou morto a tiros pelo cunhado da apresentadora.

De acordo com a apresentadora e com investigações da polícia, Pádua perseguia Ana nas redes sociais e postava inúmeras declarações de amor a ela. Somente em um dos vários perfis que Rodrigo tinha, havia 64 mensagens em maio do ano passado direcionadas ao perfil de Ana Hickmann. O conteúdo se alternava entre mensagens de amor, admiração e xingamentos.

O psiquiatra Mario Louzã avalia que a família dele "não tinha noção da gravidade do problema. Ele tinha toda uma preparação, isso não aconteceu de um dia pro outro, mas a família aparentemente não se deu conta da gravidade do caso dele". É comum, entre os perseguidores, que essa linha entre amor e ódio seja muito tênue.

Além da apresentadora, diversos artistas já foram vítimas de stalkers. O caso mais conhecido é o de John Lennon, que, em 1980, foi morto por Mark Chapman, que se dizia seu fã. Mark visitava o prédio de Lennon frequentemente para perguntar dele e o acompanhava nos eventos que participava.

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Diagnóstico. Segundo Louzã, o stalking não está registrado na classificação internacional de doenças como uma patologia, mas sim como um comportamento. "Nós consideramos o stalking um comportamente secundário a alguma coisa, mas não necessariamente a pessoa tem algum problema psiquiátrico por trás."

O maior desafio no diagnóstico do perseguidor é a falta de percepção de quem está próximo a ele. O médico diz que, em geral, "o stalker é discreto, subliminar". Por isso, os stalkers raramente recebem ajuda psicológica ou psiquiátrica. "Eles se envolvem nisso e não consideram um problema."

Louzã diz que não é possível traçar um perfil dos perseguidores ou explicar as causas do comportamento, mas acredita que, na maioria das vezes, "aquela pessoa [a vítima] passa a representar uma espécie de ideal para o stalker, ou um ideal no sentido de alguém onipotente ou no sentido de amor".

Cyberstalking. Apesar desse comportamento já ocorrer há algumas décadas, a internet ampliou os meios de perseguição. Se antes os stalkers iam até a casa da pessoa, enviavam cartas e faziam ligações, agora também é possível mandar e-mails, mensagens por celular, seguí-la em redes sociais e, muitas vezes, descobrir mais facilmente onde a vítima está, já que os serviços que expõem a localização publicamente são cada vez mais utilizados.

O stalking que ocorre somente ou majoritariamente no meio online é chamado de cyberstalking. "O anonimato e distanciamento propiciado pela internet encoraja os cyberstalkers, que podem manter certa distância física da sua vítima, tendo a falsa impressão de que estão protegidos por uma tela de computador. O desconforto, o abalo psicológico causados por esta perseguição virtual acabam por gerar sentimentos angustiantes na vítima, que muitas vezes não sabe quais medidas tomar", explica Truzzi.

Algumas das ações comuns neste tipo de perseguição são as visitas frequentes em perfis em redes sociais, mensagens ou e-mails constantes, investigação de postagens antigas e de pessoas relacionadas ao círculo da vítima. No caso de personalidades, a internet é uma ferramenta muito utilizada pelos stalkers para saber a agenda deles, os restaurantes que frequentam, os hotéis onde se hospedam e até para descobrir onde moram.