Soulphia transforma moradoras de rua em professoras de inglês

Bárbara Pereira* - O Estado de S.Paulo

Conheça o projeto social, criado por brasileiros, que insere mulheres no mercado de trabalho de Nova York

Soulphia ajuda mulheres a saírem da situação de rua e voltarem ao mercado de trabalho.

Soulphia ajuda mulheres a saírem da situação de rua e voltarem ao mercado de trabalho. Foto: Pedro Díaz

Pouco mais de um ano atrás, os brasileiros Tiago Souza e Felipe Marinho davam início a um projeto que iria transformar a vida de diversas pessoas. Ambos eram voluntários em um abrigo para moradores de rua em Nova York. A ideia surgiu ali mesmo: "a gente via neles um potencial absurdo e habilidade de fazer alguma coisa importante, mas percebia que a autoestima deles era muito baixa", explica Tiago. Assim nasceu o Soulphia, cujo objetivo é recuperar a autoestima dessas pessoas e, posteriormente, prepará-las para o mercado de trabalho, garantindo desenvolvimento pessoal.

Tiago, um dos cofundadores, já trabalhava com projetos sociais no Brasil, mas sentiu falta de desempenhar esse papel quando mudou-se para os Estados Unidos em 2016. Para ele, era fundamental fazer algo além do assistencialismo, então trouxe uma iniciativa que permitisse gerar capital e desenvolver pessoas marginalizadas pela sociedade, principalmente de Nova York.

Segundo pesquisas do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos, mais de 550 mil pessoas estavam em situação de rua no país após um levantamento de dezembro de 2017. Dentre essas, quase 90 mil são residentes do estado de Nova York, o segundo com piores dados, ficando atrás apenas da Califórnia. A pesquisa comprovou que, pela primeira vez em sete anos, o número de pessoas vivendo nas ruas dos Estados Unidos aumentou.

Comunicação é a ferramenta

O Soulphia é uma plataforma de ensino online na qual os alunos têm a oportunidade de estudar inglês com uma tutora nativa. Essas tutoras são moradoras de rua selecionadas previamente pelo abrigo onde estão hospedadas, para depois seguirem a um centro de treinamento do Soulphia: "Elas ficam lá por dois meses, onde desenvolvem várias ferramentas de comunicação e pedagogia. Depois, a gente seleciona as melhores para darem aula na nossa plataforma online", comenta Tiago. Entretanto, ele faz questão de frisar que, mesmo algumas mulheres não sendo selecionadas para trabalhar no Soulphia, elas já saem de lá com uma capacidade maior de desenvolver suas habilidades e se reinserir no mercado de trabalho.

"O nosso objetivo era ajudar quem mais precisasse, e quem mais precisa são as mulheres porque têm menos oportunidades. Pra elas é mais difícil ser morador de rua em Nova York", explica. A questão educacional também foi levada em conta na hora de selecionar apenas mulheres como tutoras, já que elas têm, naturalmente, muito mais facilidade em dar aula.

Pontapé inicial

Para tirar a ideia do papel, Tiago e Felipe fizeram um investimento inicial de 20 mil dólares, cerca de R$ 75 mil. Depois de cinco meses, começaram a surgir apoiadores que forneciam serviços, como sistemas e suporte com questões burocráticas. Porém, uma das maiores dificuldades que eles enfrentaram foi convencer ambas as partes de que teriam benefícios com o projeto: "O tutor era difícil convencer porque ele não acreditava que tinha potencial para isso. Como a autoestima era baixa, eles achavam que não iriam conseguir. Já o aluno tinha preconceito, porque achava que um morador de rua não seria um bom professor de inglês".

O primeiro grupo de alunos era de amigos dos fundadores. Aos poucos, o boca a boca foi expandindo o negócio, que atraiu a atenção da mídia e outros apoiadores. Hoje, o Soulphia conta com o suporte da Universidade de Columbia e de abrigos municipais de Nova York.

O apoio de personalidades também é um grande passo para o projeto, que terá peças assinadas por Eduardo Kobra. O artista é mundialmente conhecido por seus trabalhos de arte em painéis gigantes. Para o Soulphia, ele irá criar um mural com as tutoras, assim como outras artes para divulgar o aspecto transformador do projeto. A campanha gira em torno das palavras Hope (esperança, em inglês), Learn (aprendizado) e Work (trabalho), que serão estilizadas por Kobra para reformular a identidade visual. "O Kobra acredita muito na força da superação, da importância de se oferecer oportunidades para transformar a vida das pessoas, da mesma forma que nós, do Soulphia, que iniciamos o projeto por acreditar que poderíamos fazer algo para transformar as histórias de vida das nossas tutoras", explica Tiago.

Aulas do Soulphia são ministradas por professores nativas.

Aulas do Soulphia são ministradas por professores nativas. Foto: Pedro Díaz

O nome Soulphia carrega um significado especial. É a junção de soul (alma, em inglês) e Sophia, o nome que significa conhecimento; portanto, conhecimento da alma. "O nosso diferencial é que eu não tenho apenas um professor de inglês. Eu tenho um professor que aprendeu inglês com a vida, por isso nossas aulas são muito mais humanas, é uma troca muito mais real", comenta Tiago.

Foi exatamente essa diferença que Frederico Costa, aluno do Soulphia, sentiu ao começar a utilizar a plataforma: "Na primeira aula que eu tive com elas, a minha sensação foi de ter tido a melhor aula de inglês da minha vida. Eu acho que o jeito que elas ensinam é fantástico e a ideia é muito boa". O que começou com uma única aula, já expandiu para mais de um ano como aluno do projeto. O consultor financeiro reside nos Estados Unidos desde 2013 e acrescenta que as aulas o ajudaram a aprimorar sua pronúncia e diminuir o sotaque brasileiro, o que consequentemente facilitou a comunicação com os americanos.

O professor escolar Ubirajara Costa teve uma percepção muito semelhante sobre a eficácia da plataforma. "Tinha em mente apenas avaliar para, caso considerasse uma experiência satisfatória, poder recomendá-los para meus alunos e conhecidos. O resultado excedeu, em muito, as minhas expectativas", comenta. Além disso, ele também pontuou que a interação é muito menos intimidante porque as professoras são moradoras de rua: "Elas são pessoas muito amáveis e simples que conseguem criar um ambiente bastante descontraído, o que resulta em uma aula mais prazerosa".

Patrícia Schuindt, psicóloga de São Paulo, explica que procurou o Soulphia com o objetivo de melhorar sua conversação, mas pôde notar um grande desenvolvimento nas próprias tutoras. "Cada aula é com uma tutora diferente, o que acho bacana, pois desenvolvemos mais a compreensão do inglês - a forma de falar, ritmo e interação são diferentes com cada uma. O Soulphia faz destravar o potencial das tutoras e dos alunos!", justifica. Além disso, ela acrescenta que a energia das meninas faz as aulas serem mais divertidas e dinâmicas: "Dá pra sentir que estão fazendo aquilo felizes. Compartilhamos coisas sobre cultura, sobre a vida, pensamentos, discutimos ideias… É um momento gostoso", completa.

Histórias que emocionam

Tocando um projeto tão especial, foi difícil não se emocionar com as histórias de vida que conheceu por meio dele. Tiago conta que uma personagem, em especial, chamou sua atenção e trouxe uma reflexão.

A senhora tinha por volta de 70 anos quando foi atrás do Soulphia, após conhecer o projeto em um abrigo. Dois familiares haviam tirado suas próprias vidas recentemente: seu filho, meses antes, e seu neto, há apenas duas semanas. Sem esperanças, ela também tentou se suicidar, mas não conseguiu. Foi nesse momento que o projeto entrou em sua vida para transformar sua realidade como um todo. Três meses depois, em um evento do Soulphia, ela pediu pra dar um depoimento que emocionou a todos. "Ela disse que viu o Soulphia como a esperança de continuar fazendo uma coisa útil para alguém, porque ela se sentia useless [inútil, em inglês], sem função nenhuma pro mundo, por isso ela achava que devia morrer. De lá pra cá, ela colocou todos os dentes, mudou totalmente a fisionomia e agora está morando numa casa própria", contou Tiago. Essa história revela como o Soulphia foi capaz de incentivar essas mulheres a serem protagonistas das próprias mudanças e batalharem para transformar a realidade em que vivem.

Alunos fazem aulas por meio de videochamada.

Alunos fazem aulas por meio de videochamada. Foto: Captura de tela enviada por Tiago Souza

Para o futuro, Tiago confessa que ainda não tem planos de incluir mais idiomas na plataforma: "A gente entende que ainda não está preparado para isso, então a nossa ideia é continuar com o inglês até se estabelecer e acreditar que temos a melhor metodologia de ensino para treinar o tutor". Entretanto, deixa as portas abertas para projetos que queiram usufruir da plataforma, metodologia e treinamento, e tenham interesse em selecionar e treinar tutores de outros idiomas.

Como participar

Para se inscrever no Soulphia, o estudante deve se registrar pelo site e agendar as aulas, que duram 45 minutos e são ministradas online por meio de videochamada. O preço varia entre R$40 e R$60, mas uma aula experimental de 20 minutos pode ser feita por R$20.

 

* Estagiária sob supervisão de Charlise Morais.