Síndrome do Boreout: entenda o que é e o que fazer com o desinteresse no trabalho

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Sintomas podem comprometer autoestima e trazer consequências mais graves, como apatia, depressão, ansiedade e estresse crônico

Estar entediado no trabalho é somente um dos sintomas da chamada Síndrome de Boreout

Estar entediado no trabalho é somente um dos sintomas da chamada Síndrome de Boreout Foto: Pixabay/magnetme

Você já se sentiu entediado com o seu trabalho? Já imaginou que, em algum momento, estava no lugar errado e na empresa errada? A pandemia do novo coronavírus fez muitas pessoas repensarem suas carreiras e os planos para o futuro profissional.

Especialistas em Psicologia já começam a observar um fenômeno que, a olho nu, é semelhante à Síndrome de Burnout, ou seja, o estado de extrema exaustão ocasionada pela carga de trabalho. Porém, existem outros sentimentos para além do estresse, mas tão prejudiciais para o nosso lado emocional quanto. Trata-se da Síndrome de Boreout.

“Eu vejo os meus colegas engajados no trabalho, inclusive quando começamos o home office. Mas eu simplesmente não consigo. A impressão que eu tenho é que fico com o cérebro travado, me sentindo improdutiva e uma péssima profissional”, desabafa uma redatora publicitária que prefere não se identificar. 

O sentimento, inclusive, começou a colocar em dúvida a autoestima dela. “Comecei a imaginar que eu era a pior da equipe e que não prestava para nada. Então, percebi que o tédio tomou conta de mim. Agora, quando essa pandemia passar, pretendo, quem sabe, iniciar uma outra carreira”, reflete.

O trabalho remoto em decorrência da covid-19 fez com que muitos trabalhadores adoecessem, sobretudo do ponto de vista de saúde mental. Enquanto uns estão mergulhando demais no trabalho, existem aqueles que se veem cada vez mais desanimados com suas carreiras. 

A Síndrome de BoreOut - do inglês bored, que pode ser traduzido como tédio para o português -, evidencia que o desinteresse constante pelas atividades diárias pode afetar diretamente a autoestima dos colaboradores e até mesmo acarretar consequências mais graves, como apatia, depressão, ansiedade e estresse crônico.

É verdade que esse tipo de situação já ocorria antes da pandemia, mas com menos intensidade, na opinião da psicóloga Milene Rosenthal, responsável técnica e cofundadora da Telavita, clínica de saúde mental online: “Todas essas mudanças podem gerar um estresse adicional acompanhado com um desânimo e desmotivação frente ao trabalho. Como estamos vivendo em um momento incerto, cheio de dúvidas, a redução da carga de trabalho também reduz os desafios e metas, fato que também pode levar a uma fadiga e desinteresse”.

 

A Síndrome de BoreOut evidencia que o desinteresse constante pelas atividades diárias

A Síndrome de BoreOut evidencia que o desinteresse constante pelas atividades diárias Foto: Pixabay/www_slon_pics

 

Qual a diferença entre Síndrome de Boreout e Síndrome de Burnout?

 A Sindrome de Boreout ocorre quando um colaborador está muito entediado com o seu trabalho, e não enxerga um propósito na atividade que está desenvolvendo ou quando sente que não está sendo desafiado intelectualmente. 

A psicóloga Milene Rosenthal dá um exemplo: “Imagine uma pessoa que começou a trabalhar há uma hora e já concluiu todas as tarefas definidas para o dia, seja pela facilidade, ou pela falta de novos desafios. Ao passar dos dias, poderá ocorrer um sentimento de menos valia, falta de aproveitamento da sua capacidade e principalmente, o entendimento que não está aprendendo e evoluindo”. 

Para a especialista, o sentimento está associado a um desequilíbrio entre as expectativas do funcionário em relação ao trabalho e suas necessidades reais. 

“Já o Burnout acontece pelo motivo contrário que é justamente pelo esgotamento mental decorrente de uma alta carga de volume no trabalho que geralmente é acompanhada por uma pressão constante em atingir os resultados e uma responsabilidade excessiva”, explica.

 

Como lidar com a Síndrome de Boreout entre colaboradores?

A psicóloga Milene Rosenthal defende que, ao identificar os sintomas , é preciso buscar ajuda profissional, que pode ser um psiquiatra ou psicólogo, para identificar se o tédio e desmotivação é originado pelo trabalho e pelas atividades que realiza. “Se o diagnóstico for positivo, o próximo passo é conversar com o gestor sobre seu papel na empresa e a possibilidade de abraçar novos desafios, pois muitas empresas estão em um momento de muito aprendizado, buscando novas respostas e essa pode ser uma boa oportunidade de mudança na carreira”, aconselha.

Algumas dicas são importantes para identificar a Síndrome de Boreout; confira.

Entenda o real motivo que está te desestimulando no trabalho: é importante ter em mente que estar desestimulado com a sua carreira pode ser parte de um problema maior. Por isso, tire um momento para refletir e entender o que, de fato, está gerando este desconforto e infelicidade. Será o excesso de trabalho? A ausência de desafios e canal aberto com os seus superiores? Ou, quem sabe, a falta de reconhecimento dentro da sua área? É essencial ter essas questões em mente antes de tomar qualquer decisão mais drástica, como pedir demissão, por exemplo;

Tenha um canal aberto com suas lideranças: uma vez que você identificou com clareza o que está causando o seu tédio, está na hora de ter uma conversa franca com seus superiores. Explique o que está acontecendo e que está se sentindo descontente mostrando-se aberto a um diálogo e a possíveis soluções para a mudança. Busquem, juntos, a melhor alternativa para driblar o descontentamento;

Procure ajuda de profissionais: existe uma vertente na psicologia conhecida como psicologia trabalhista. Essa área é focada, fundamentalmente, na melhora do aspecto organizacional, em que o psicólogo surge como um expoente capaz de resolver o dilema do desempenho dos funcionários, desenvolvendo o papel de encontrar uma maneira de criar um ambiente mais saudável para a equipe.

Não se cobre demais: existem alguns dias que a gente simplesmente não rende, seja por estresse, cansaço ou falta de criatividade. E está tudo bem. Nesses momentos, respire fundo, respeite seu tempo, converse com seu gestor e, se for o caso, sinalize que o dia está sendo improdutivo. Desta forma, será possível reorganizar as demandas e recomeçar no próximo dia mais centrado;

Nem sempre o ócio é seu inimigo: nem sempre ser uma pessoa muito ocupada é sinônimo de produtividade. Logo, ter alguns momentos ociosos e de procrastinação (com parcimônia e responsabilidade, claro!) podem ser uma ferramenta poderosa no quesito criatividade. Como dito acima, com uma rotina bem organizada, é possível ftirar uns instantes do seu dia para simplesmente "descarregar" o cérebro;

Empresas, adotem o marketing de incentivo: como o próprio nome diz, o marketing de incentivo tem como objetivo motivar equipes de trabalho, a fim de gerar mais reconhecimento e engajamento para os colaboradores. E engana-se quem pensa que o incentivo se resume a recompensas financeiras. Aqui vale tudo: viagens, cursos gratuitos, uma televisão nova, um day-off.