Sensível e perturbador, 'O Renascimento do Parto 2' expõe casos de violência obstétrica

ludimila honorato - O Estado de S.Paulo

Diretor fala dos desafios de produzir a trilogia e da dificuldade de acesso ao parto humanizado no Brasil

Médicos questionam se a escolha da cesárea é feita com base em informações.

Médicos questionam se a escolha da cesárea é feita com base em informações. Foto: Candiix/Pixabay

O Renascimento do Parto 2 é um filme para chorar: ora, de alegria; ora de indignação. Também pode ser considerado, em alguns momentos, um filme de terror. "E é mesmo, e é para ser, porque é um terror que se vive em hospitais", disse ao E+ Eduardo Chauvet, diretor da trilogia documental. O terceiro filme, que chega em setembro, deve trazer essas emoções de forma mais intensa. "Muito choro, mais e mais lenços", garante.

Depois do sucesso da primeira produção lançada em 2013, que terminou naquele ano como o documentário nacional com a segunda maior bilheteria nos cinemas do País, Chauvet chegou às salas de cinema com a sequência no último dia 10. Desta vez, a violência obstétrica é o tema central da produção.

"O primeiro filme prestou um serviço maravilhoso, didático, de apresentação do que é a fisiologia do parto, do que é a medicina baseada em evidências e o que é o sistema obstétrico", resume. No segundo, ele explica, a proposta é mais de reflexão - assim como será com o terceiro. Além das críticas, ambos jogam luz sobre experiências bem sucedidas dentro e fora do Brasil.

"De certa forma, acho que conseguimos apresentar uma trilogia para que as pessoas possam questionar, refletir e buscar mais informações. Essa é a ideia: a gente não quer apontar todos os caminhos, mas abrir as portas", afirma o diretor.

Trilogia quase pensada. Chauvet conta que os dois últimos filmes foram pensados à medida que o anterior ia tomando forma. Durante o primeiro longa, por exemplo, ficou claro que a equipe não teria condições financeiras nem fôlego para poder abordar todos os assuntos que gostariam. 

Assim, temas como o Sistema Único de Saúde (SUS) que dá certo - representado pelo Hospital Sofia Feldman, de Belo Horizonte - e a própria violência obstétrica ficaram para o segundo filme. O parto natural de gêmeos e o parto pélvico, em que o bebê está sentado, também são assuntos abordados. "Eu já meio que me preparei para isso, para essa realidade de ter de enfrentar um novo desafio de produzir um filme sem dinheiro mais uma vez", disse Chauvet, que deu vida à trilogia de forma independente.

Já durante a produção do segundo filme, temas como parto orgásmico, parto na água, parto vaginal após cesárea e um modelo de casa de partos acabaram surgindo - e se tornaram assunto para a terceira parte desta história.

"Em momento algum a gente teve pretensão de resolver qualquer problema, de apresentar soluções. A gente está abrindo o debate, o diálogo", reforça o diretor, que se preparou tecnicamente para as duas produções finais. Além de se atualizar com cursos de roteiro - "para eu renascer como cineasta, já que tinha renascido como homem" -, ele se deu a missão de assistir a um filme por dia, ficção ou documentário.

Com uma linguagem diferente do primeiro, o espectador pode terminar de assistir O Renascimento do Parto 2 com perguntas sem respostas. E é assim mesmo: segundo explica o documentarista, há situações que só se fecham no terceiro filme.

Assista ao trailer oficial do segundo filme abaixo:

O desafio da escolha. No Brasil, 57% dos partos são cesáreas, o que coloca o País em segundo lugar no mundo com a maior taxa desse procedimento. O número é quase quatro vezes maior do que o indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 15%. Na maioria dos casos, a cesárea é eletiva, ou seja, sem fatores de risco que justifiquem a cirurgia e realizada antes de a mulher entrar em trabalho de parto.

Diante desse cenário, o que impede, então, que elas optem pelo parto natural? Segundo Chauvet, tudo é uma questão de informação. "A autonomia está diretamente ligada ao conhecimento", diz o diretor ao citar uma fala que Leila Katz, médica obstetra de Recife, profere no terceiro filme.

Embora a trilogia e o movimento do parto natural humanizado não tenham a intenção de impedir que mulheres queiram fazer cesáreas, os médicos questionam se a escolha é feita com base em informações. "Eu acho que o sistema obstétrico é mais um que precisa ser questionado, desvelado, descortinado. O que estamos fazendo com as nossas vidas e com as nossas próprias escolhas? Até onde existe de fato uma escolha informada e até onde a gente está escolhendo sem ter acesso a uma informação de qualidade?", reforça Chauvet.

Parto humanizado é realizado na Casa Angela, zona sul da capital paulista, local que será apresentado no terceiro filme de 'O Renascimento do Parto'.

Parto humanizado é realizado na Casa Angela, zona sul da capital paulista, local que será apresentado no terceiro filme de 'O Renascimento do Parto'. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Possíveis avanços. Segundo o documentarista, o Brasil tem avançado em políticas para reduzir o número de cesáreas no País. O Ministério Público Federal, a Agência Nacional de Saúde e o Ministério da Saúde vêm trabalhando em conjunto com ONGs e associações a fim de facilitar o acesso ao parto natural e à informação de qualidade. "Existe, hoje, um movimento um pouco mais amplificado do que havia há 10, 15, 20 anos", diz.

Ele afirma, porém, que é preciso envolver ainda mais os órgãos públicos e privados nessa direção, pois trata-se de saúde pública e com consequências na vida adulta da criança e no futuro da mãe. Mais que isso, Chauvet aponta para uma mentalidade brasileira que precisa ser mudada.

"Quando a gente fala que é assim na Inglaterra, na Holanda, a pessoa diz 'opa, sério? Isso é bom'. Se você fala que é assim no Rio [de Janeiro], em São Paulo, no Ceará ou no Rio Grande do Sul, dizem 'ah, bando de loucos, místico, hippie'", explica. "Mas acredito que, aos poucos, a gente vai conseguindo mudar minimamente uma realidade. Minha parte como produtor audiovisual é uma possibilidade", afirma.

Atualmente, o parto natural humanizado sem os riscos da violência obstétrica tornou-se um ponto fora da curva, uma escolha de poucos - geralmente, de quem pode pagar. Para Chauvet, facilitar esse acesso a todas as mulheres envolve uma questão mais ampla. "Há uma questão séria aí, de desmonte do SUS, falta repasse [de verbas]. A gente começa a entrar numa esfera de política de Estado, porque não é uma política de governo, mas de Estado", diz. "A questão vai além do parto", afirma. 

O Renascimento do Parto 3 já está pronto e deve estrear nas salas de cinemas do Brasil na segunda quinzena de setembro.