Saiba como ajudar e o que não dizer a uma mulher que sofreu violência sexual

Luiza Pollo - O Estado de S.Paulo

Na hora de mostrar apoio, muita gente comete deslizes e faz comentários indelicados

  

   Foto: Pixabay

A hashtag #MeToo, ou #EuTambém, tem ajudado a expor diversos casos de abuso ou assédio contra mulheres. Algumas relatam que mantiveram a violência em silêncio por vergonha, medo do abusador, relação de poder ou mesmo por não perceberem a gravidade da situação quando ela ocorreu. 

“Eu nunca falei sobre essas coisas publicamente porque, como mulher, sempre pareceu que seria como se eu estivesse falando do tempo lá fora”, relatou a atriz Molly Ringwald em depoimento publicado na revista The New Yorker. O assunto e a hashtag voltaram à tona depois dos relatos de dezenas de atrizes que sofreram abusos do produtor Harvey Weinstein.

Enquanto o apoio coletivo tem ajudado muitas mulheres a contar suas histórias, é importante lembrar que isso não é um convite para sanar a curiosidade e querer saber mais sobre cada caso postado nas redes sociais. “A primeira coisa é se dispor a ouvir, mais do que fazer perguntas”, explica Sofia González, que media na associação Artemis um grupo de apoio a mulheres que sofreram violência sexual. Portanto, um post não significa automaticamente que a mulher está disposta a conversar com qualquer pessoa sobre o assunto.

"Vai muito do vínculo que você já tem com essa pessoa. Se o depoimento dela te fez pensar nos seus casos de abuso e te inspirou, pode caber falar algo nesse sentido", diz Sofia. Por outro lado, algumas perguntas ou comentários podem ser ofensivos ou indelicados.

Veja algumas perguntas que você não deve fazer a alguém que acaba de relatar uma violência sexual:

Se uma mulher decidir se abrir com você e relatar um caso de violência, o melhor é ouvi-la e tentar entender como ela prefere lidar com a situação. “Se você puder, vale tentar ajudar. A pessoa chega confusa. Quando você passou por uma situação de violência, é muita coisa que passa na cabeça — raiva dificuldade para lidar”, explica Sofia. “Se você conseguir, pode ajudá-la a organizar as ideias. Mas sempre deixando na mão da pessoa a decisão de falar.” 

Quando ela está disposta a denunciar, você pode acompanhá-la até a delegacia, por exemplo. Sofia destaca, no entanto, que a escolha final deve ser sempre da mulher. “Às vezes, forçar a denunciar em um momento em que ela não consegue, mesmo querendo ajudar, pode fazer mal. A denúncia não é fácil”, explica. 

Se ela der abertura, você pode também incentivá-la a procurar ajuda psicológica profissional. “Os índices de depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de álcool, drogas, e dificuldade para ter relações sexuais são muito altos entre essas mulheres”, explica Luiza Assumpção, psicóloga que também atua na Artemis. 

Além disso, a psicóloga relata que, se a mulher tem um parceiro ou parceira fixa, pode ser interessante que ele ou ela também tenha acompanhamento psicológico para saber como lidar com a situação, já que o comportamento sexual de alguém que passa por uma violência costuma mudar. 

Incentivar a mulher a ir ao hospital para fazer exames e tomar os medicamentos necessários até 72 horas após um estupro também pode ajudar. Os profissionais de saúde, por sua vez, precisam estar prontos para identificar a violência sexual e não constranger a paciente, explica Nathália Cardoso, preceptora do programa de residência em Medicina de Família e Comunidade da faculdade de medicina da USP e médica no Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. “Os casos de violência não vêm para nós de uma forma direta. A principal queixa é de dores que a gente não consegue explicar. O profissional da saúde tem que estar muito atento”, afirma a médica.

Se a paciente preferir, pode pedir para ser atendida por uma profissional do sexo feminino, explica Nathália. Segundo ela, o mais importante é que a mulher se sinta segura e não seja julgada. “É preciso deixar muito explícito desde o início da consulta que tudo que ela disser vai ser guardado em sigilo.”

A palavra ‘acolher’ é considerada chave por todas as entrevistadas. Ouvir o que a mulher tem a dizer, não duvidar dela e respeitar suas decisões são as atitudes mais eficazes para ajudar alguém que sofreu abuso sexual. Nathália ainda ressalta que abuso não é apenas estupro, e que é preciso respeitar todos os relatos. “Uma mulher pode se sentir muito ofendida de receber uma cantada, por exemplo. Existem vários níveis de violência, mas todos são violência”. 

Sofia e Luiza vieram ao nosso estúdio para falar sobre o tema. Confira a entrevista completa: