Quem culpa a vítima?

Laura Niemi e Liane Young* - The New York Times

O que determina que alguém sinta simpatia ou desdém pela vítima de um crime? Filiação política? Gênero? Natureza do crime? Entenda

Foto: The New York Times

Se você for assaltada quando caminha à meia-noite no parque, alguns vão sentir pena, mas outros vão perguntar que diabos você estava fazendo lá àquela hora. Se for estuprada por um amigo depois que os dois ficaram bêbados numa festa, uns vão se comover com sua desgraça, enquanto outros perguntarão por que você se pôs em tal situação. 

O que determina que alguém sinta simpatia ou desdém pela vítima de um crime? Filiação política? Gênero? Natureza do crime? 

Numa recente série de estudos, descobrimos que o fator crítico está em torno de um particular conjunto de valores morais. Nossas descobertas, publicadas em junho no Personality and Social Psychology Bulletin, mostram que, quanto mais decisivamente alguém privilegia lealdade, obediência e pureza - em oposição a valores como preocupação com o próximo e honestidade -, mais provavelmente vai culpar a vítima. 

Esses dois conjuntos de valores têm sido objeto de muita atenção acadêmica. Psicólogos descobriram que, quando se fala em valores morais, alguns citam comportamentos como cuidar dos outros e não ser injusto. Esses são valores considerados "individualizantes", que podem se aplicar a qualquer indivíduo. Outros citam lealdade, obediência e pureza. São valores que poderiam chamar-se "de aproximação", uma vez que promovem a coesão de um grupo ou clã específico. 

Valores "de aproximação" e "individualizantes" não são exclusivos de certos indivíduos - as pessoas têm os dois em graus variados. Mas os psicólogos descobriram que a extensão em que alguém prefere uma categoria em detrimento de outra revela muito sobre essa pessoa. Por exemplo, quanto mais fortemente alguém se identifica com valores individualizantes, mais provavelmente será o que se chama de progressista em política; e, quanto mais forte for a identificação com valores de aproximação, mais provavelmente será um conservador.

O melhor de nossa descoberta é que esses dois conjuntos de valores contêm diferentes concepções de vítimas. Os que privilegiam valores individualizantes tendem a ver vítima e agressor em conjunto (a vítima é ferida, o agressor fere). Já os que privilegiam valores de aproximação tendem a identificar comportamentos imorais mesmo não havendo vítima óbvia - por exemplo, no ato "impuro" do sexo antes do casamento ou na ação "desleal" de queimar a bandeira nacional. Eles podem mesmo acreditar que para se fazer o certo às vezes é preciso ferir (como no assassinato pela honra, para ficar num exemplo extremo). Assim, por hipótese, entendemos que valores de aproximação estão relacionados a uma tendência maior de culpar a vítima. 

Conduzimos vários estudos que envolveram um total de 994 participantes. Primeiro, examinamos como seus valores morais se relacionavam com sua tendência a estigmatizar as vítimas ou a vê-las como agredidas. Fornecemos descrições sucintas de vítimas de vários crimes - estupro e assédio, esfaqueamento e estrangulamento - e perguntamos aos participantes se consideravam as vítimas "agredidas" ou "impuras, contaminadas". 

Esperávamos que os participantes tendessem a ver como "contaminadas" mais vítimas de crimes sexuais do que de crimes não sexuais, o que de fato ocorreu. Mas também descobrimos que, quanto mais fortemente os entrevistados privilegiavam valores de aproximação, mais fortemente eles consideravam todas as vítimas "contaminadas" - independentemente da natureza do crime. 

Além disso, quanto mais as pessoas veem uma vítima como contaminada, menos a veem como agredida. Reduzindo as variáveis, descobrimos que valores morais - valores de aproximação, em particular - e não de orientação política, gênero e religiosidade - é que determinaram os resultados. 

Em outro estudo, os participantes leram descrições de casos específicos de estupro e assalto e tiveram de atribuir a vítima e perpetrador o grau de "responsabilidade" pelo ocorrido, bem como se mudanças em suas ações poderiam ter mudado as coisas. Descobrimos que, quanto mais enfaticamente as pessoas se atêm a valores de aproximação, mais fortemente atribuem responsabilidade à vítima e mais veem o comportamento da vítima como influenciando o acontecido. Pessoas que enfatizam valores individualizantes apresentaram padrão oposto. 

Pode ser feita alguma coisa para modificar a percepção das pessoas sobre vítimas e agressores? Em outro estudo, avaliamos se induzir as pessoas a se concentrar em agressores versus vítimas pode afetar julgamentos morais. Fizemos isso colocando tanto agressores quanto vítimas no papel de sujeito em frases descrevendo ataques sexuais (por exemplo, "Lisa foi forçada por Dan" versus "Dan forçou Lisa"). 

Pedimos então aos participantes para indicar em que porcentagem culpavam vítima ou agressor. 

Confirmando nossas conclusões anteriores, quanto mais os participantes prestigiavam valores de aproximação, mais culpa atribuíam às vítima e menos aos agressores. Mas descobrimos também que concentrar a atenção dos participantes nos agressores levou a uma diminuição na responsabilização e culpa das vítimas; enquanto centrar a atenção nas vítimas levou a culpá-las ainda mais. Isso foi surpreendente: poderíamos deduzir que focar a atenção nas vítimas levantaria mais simpatia em relação a elas, mas os resultados sugerem que o efeito pode ser o oposto.

Culpar as vítimas perece ser uma tendência profundamente enraizada em valores morais, mas também, de certa forma, essa tendência parece suscetível a mudanças sutis de linguagem. Para quem se empenha em aumentar a simpatia pelas vítimas, um primeiro passo prático pode ser mudar o modo de falar - focar menos nas vítimas e mais nos agressores. Assim, perguntar "por que ele achava que tinha licença para estuprar?", em vez de dizer "imagine o que ela deve ter feito...", pode ser mais eficaz para levar justiça às vítimas.

* Laura Niemi leciona psicologia em Harvard; Liane Young, na Boston College.