Quase mães: site compartilha relatos de mulheres com dificuldade para engravidar

ludimila honorato - O Estado de S.Paulo

Histórias de outras mulheres que demoraram a conceber motivaram jornalista a contar sua própria trajetória

Abaixo dos 35 anos, a mulher tem 20% de chance por mês de engravidar.

Abaixo dos 35 anos, a mulher tem 20% de chance por mês de engravidar. Foto: silviarita/Pixabay

Foram sete anos, dezenas de exames e sete especialistas consultados até que o sonho da gravidez pudesse virar realidade. Durante esse tempo, os sentimentos de impotência, solidão e culpa eram presentes na vida de Priscilla Portugal. Ao descobrir casos semelhantes que tiveram sucesso, ela criou o Cadê meu Neném?, site que reúne relatos e busca ajudar outras mulheres nesse processo de quase serem mães.

"Eram histórias que me faziam bem. Fiquei com a ideia [na cabeça]. Uma amiga sugeriu fazer um site e segui o conselho", contou ao E+ a jornalista de 37 anos, que lançou a plataforma em dezembro de 2016.

Além de reunir depoimentos, ela também compartilha a própria trajetória no 'Diário da minha não gravidez'. "Foi transformador. Eu fiquei amiga de muitas leitoras, nos apoiamos muito", diz.

Em março deste ano, ela dividiu o tão sonhado resultado positivo da terceira fertilização in vitro (FIV) com suas seguidoras. "Fiquei com receio de dar a notícia no site, mas sabia que traria alento [para as leitoras], elas poderiam se identificar. Queria muito dividir com quem me deu tanto apoio", afirma Priscilla.

Tabu. Uma das grandes dificuldades de quem não consegue engravidar é falar sobre isso. "Um tabu maior que o aborto, que a gravidez não planejada e até maior que não querer engravidar", escreveu em seu site.

Até mesmo entre as pessoas mais próximas, abordar o tema pode ser difícil. "Eu não tinha ninguém que não conseguiu engravidar entre meus amigos e familiares. Você acaba não se abrindo para as pessoas", diz a jornalista. Segundo ela, o silêncio e os sentimentos de impotência e, principalmente, de culpa, vêm de "uma geração que cresceu achando que ser mãe é a maior realização".

Dados indicam que pelo menos 50 milhões de casais em todo o mundo sofrem de infertilidade. Alguns fatores podem influenciar tanto homens quanto mulheres, mas as chances de ter filhos diminuem conforme a idade avança. Abaixo dos 35 anos, a mulher tem 20% de chance por mês de engravidar. Até 37, a taxa cai 5% a cada ciclo menstrual e, acima dos 40, é de 10% ao mês.

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Na tentativa de amenizar o sofrimento diante das tentativas sem resultado positivo, o círculo de pessoas ao redor da mulher acaba falando coisas como "desencana que vem" - atitude que, na opinião de Priscilla, só piora a situação. "Ninguém que vive um sonho diário e uma frustração mensal há três anos consegue desencanar", acredita.

A ginecologista e obstetra Juliana Amato concorda que esse tipo de fala mais atrapalha do que ajuda. "A partir do momento que a mulher tem dificuldade, não tem que 'desencanar'. Vamos achar uma causa.", afirma. "Se já tem seis meses ou um ano que a paciente está tentando engravidar e não consegue, é preciso investigar. Não podemos banalizar a queixa da mulher", diz.

As consequências da infertilidade passam também por questões emocionais e psicológicas. "O processo de tratamento causa ansiedade e, a cada frustração, mexe com a feminilidade e gera culpa de ter esperado muito tempo", diz a especialista.

Trajetória. Priscilla conta que começou a tentar engravidar aos 30 anos. Após dois anos sem conseguir, ela procurou um especialista em reprodução que, depois de alguns exames, disse que a reserva de óvulos dela era baixa e seria um caso de pré-menopausa precoce.

Não satisfeita com esse primeiro diagnóstico, ela procurou outros especialistas, fez mais exames e foi diagnosticada com infertilidade sem causa aparente - um diagnóstico bastante utilizado quando nenhum dos fatores mais comuns de infertilidade (como idade acima dos 35 anos, falta de ovulação ou defeitos nas trompas, para citar alguns) faz parte do quadro da mulher.

Em 2016, Priscilla e o marido já tinham decidido adotar uma criança, mesmo que a espera fosse de quatro anos. Mas durante os cursos e entrevistas para o processo, ela foi incentivada a continuar tentando engravidar.

Por indicação de uma leitora do site, ela marcou consulta com um médico que, só depois, descobriu ser um imunologista. "Ele pediu exames que eu nunca tinha feito", lembra a jornalista. Os resultados mostraram que Priscilla tinha uma série de problemas: endometrite, trombofilia e incompatibilidade genética com o marido. 

Ela então iniciou o tratamento, o que incluía tomar um remédio para a tireoide e outro para produzir muco vaginal e melhorar a qualidade dos óvulos. "Nesse período, tentamos engravidar naturalmente por seis meses e nada", conta.

Àquela altura da jornada, ela e o marido já estavam satisfeitos apenas de terem um diagnóstico fechado. Orientada pelo imunologista, Priscilla então tentou a terceira FIV. E deu certo. Ela ainda continua com os tratamentos: um que vai até a 20ª semana de gestação e outro que dura até o parto.

A ginecologista Juliana explica que a causa imunológica de infertilidade é recente e, geralmente, essa investigação só é feita quando há falha em três FIVs. Isso porque, dependendo da idade da mulher, a porcentagem de a fertilização dar certo é alta.

Embora os exames imunológicos sejam caros, Priscilla aconselha as leitoras a persistir na busca por um diagnóstico e a procurar outros especialistas, como nutrólogo, endocrinologista e imunologista.

Tipos de tratamento. A ginecologista Juliana explica que existe um tratamento adequado para cada caso de infertilidade. Se a mulher tiver síndrome do ovário policístico, por exemplo, tratá-lo e induzir a ovulação pode ser o mais indicado.

Se houver obstrução nas duas trompas (canais que levam o óvulo até o útero) há a indicação de FIV. Nesse caso, o embrião é colocado pronto dentro da mulher. O procedimento pode ser indicado também quando o homem não tem espermatozóides suficientes para uma fecundação natural.

Já a inseminação artificial é recomendada para mulheres com menos de 35 anos e que não tenham causa aparente de infertilidade. O processo consiste em alinhar o ciclo menstrual, estimular a ovulação e, quando o óvulo estiver para sair do ovário, colocar o sêmen dentro do útero.

Para quem pensa em engravidar um pouco mais tarde, a especialista orienta a congelar os óvulos a fim de preservar a fertilidade da mulher. Isso porque, depois dos 35 anos, a reserva ovariana começa a cair - processo que tende a acentuar-se com o tempo.