Quadribol existe na vida real e está em sua quarta Copa do Mundo

Felipe Laurence* e Ludimila Honorato - O Estado de S.Paulo

Inspirado no esporte do universo 'Harry Potter', torneio contará com a seleção do Brasil pela segunda vez

No momento certo, é até possível ver jogadores 'voando' durante uma partida de quadribol.

No momento certo, é até possível ver jogadores 'voando' durante uma partida de quadribol. Foto: Scott Audette/Reuters

"O quadribol é muito fácil de entender, mesmo que não seja fácil de jogar. Tem sete jogadores de cada lado. Três deles são artilheiros", explica Oliver Wood a Harry Potter quando o bruxo inicia seus anos escolares em Hogwarts. Na vida real, no quadribol dos 'trouxas', é a mesma coisa, mas outras regras mudam.

Adaptado das histórias da autora britânica J.K Rowling, o esporte, que completa 13 anos em outubro, terá sua quarta Copa do Mundo iniciada nesta quarta-feira, 27 - e a seleção brasileira vai competir pela segunda vez. Os jogadores estão em Florença, na Itália, onde o torneio, organizado pela International Quiddich Association (IQA), segue até 1º de julho.

"Vamos primeiro nos divertir e representar o nosso País do melhor jeito que podemos. Estamos indo com só 13 jogadores e sem muita experiência [na competição], mas temos talento suficiente para surpreender outros times”, disse ao E+ Phill Cain, de 23 anos, capitão e batedor da seleção.

Os batedores - dois no total - ajudam os artilheiros da equipe jogando balaços, uma espécie de bola de queimada, nos artilheiros adversários. Cada acerto faz com que o jogador desmonte da sua 'vassoura' e volte à posição inicial, perto dos aros, sem interferir no jogo.

A vassoura, na verdade, é um bastão que todos os jogadores usam entre as pernas. Afinal, quanto mais fiel à saga fictícia melhor, não? Mas o equipamento tem função no jogo. Quem carrega o pomo de ouro, bola de tênis colocada dentro de uma meia e amarrada na parte de trás da roupa de uma pessoa neutra vestida de amarelo, pode desarmar o jogador que tenta pegar a bolinha retirando a 'vassoura' dele.

Ambos podem se defender, e o contato físico é inevitável. Eles podem, inclusive, usar força física, às vezes de forma intensa, para se esquivar das investidas. "O jogo é bem interativo, você nunca fica parado ou de fora. É misto e muito divertido", afirma Cynara Wainner, de 23 anos. Ela também integra a seleção brasileira no Mundial na posição de artilheira e joga pela UFRJ Quadribol, primeiro time universitário do Brasil criado por ela e outros amigos.

O quadribol é um dos poucos esportes realmente mistos no mundo, ou seja, que integram todos os gêneros no mesmo time. Uma das regras presentes para competições internacionais é que, por time, no máximo quatro pessoas de um mesmo gênero podem estar presentes em campo ao mesmo tempo. A igualdade de gênero foi um dos fatores que atraiu Diogo Broda, de 30 anos, para o jogo. "Gostei dos princípios por trás, é um esporte altamente diferente", afirma o diretor-presidente da Associação Brasileira de Quadribol (ABRQ).

O artilheiro, que também atua como goleiro, começou a jogar em 2012 quando foi a um evento de recrutamento do Rio Ravens, primeiro time brasileiro de quadribol. "Quando vi os vídeos que eles colocaram lá, falei: 'cara, essa é a coisa mais bizarra e divertida que eu já vi na minha vida, é o esporte mais nerd que tem, eu preciso ver como é isso'. Fui e curti muito, adorei o clima, a ideia do esporte e fui ficando", conta.

Pottermaníacos? Não é pré-requisito, mas a maioria dos jogadores com quem o E+ conversou entraram para o quadribol por influência de Harry Potter. Cynara, por exemplo, conheceu o esporte em um dos sites sobre o universo do bruxo que acompanhava e, em 2012, começou a jogar pelo Rio Ravens também. Porém, eles dizem que, com o tempo, o esporte ganhou mais sentido. "Eu até esqueço, às vezes, de onde o esporte vem", diz o batedor Cain. 

Depois de ler as histórias criadas por J.K Rowling, ele ficou curioso para ver se alguém já tinha tentado jogar na vida real. Pela internet, descobriu um grande evento de quadribol em Nova York, perto de onde mora. Brasileiro, ele vive nos Estados Unidos há 15 anos, onde o esporte nasceu e é mais desenvolvido, mas quis atuar em defesa de seu País de origem.

"Fui ver e me apaixonei. O que me atraiu foi a cultura. O quadribol parece ser o único esporte por aqui [nos EUA] em que você pode ter um jogo muito intenso com um outro time e ainda conseguir fazer festa e dar risada com eles depois. O time da minha universidade virou quase uma família", conta. Descobrir que a instituição tinha um time foi vantagem para ele.

Para Gabriel Villas, de 19 anos, artilheiro do time paulistano Bastardos Inglórios, o quadribol sempre foi um sonho de infância por conta do seu gosto por Harry Potter. "Desde pequeno, eu falava brincando que queria jogar quadribol, que queria praticar esse esporte, mas óbvio que não tinha como. Então, quando entrei na faculdade, conversei com um amigo que já conhecia o quadribol e sugeriu de montarmos um time. De início eu fiquei 'como assim?', mas logo vi que era uma modalidade bem legal e hoje encaro como algo fora do universo Harry Potter", diz o estudante de biomedicina.

Experiência para crescer. Além do título mundial, os jogadores brasileiros querem trazer da Itália novas táticas para os clubes do País. Cynara quer ajudar o esporte a crescer e Cain, com sua experiência internacional, deseja contribuir com isso. O batedor jogou pelo Brasil em 2016 e, apesar de terem ido com o número mínimo de jogadores, diz que se saíram bem.

Na ocasião, a seleção chegou às oitavas de final, em que jogou contra a França e perdeu de 190 a 50 - mesmo pegando o pomo de ouro. Com a chance de jogar na repescagem, o time perdeu os três jogos e ficou em 16° lugar em um torneio de 21 equipes.

"O que ajudou a minimizar a dificuldade de não termos jogadores reservas foi a força dos torcedores. Eles nos traziam água e tremulavam as bandeiras brasileiras que levei. Fiquei feliz em ver como o Brasil é querido lá fora", diz Cain. Nos EUA, ele competiu duas vezes na Major League Quidditch, atualmente o campeonato de times mais organizado que existe no mundo.

No último Mundial, que ocorre a cada dois anos desde 2012, apenas um dos sete jogadores morava no Brasil. Dessa vez, metade mora no País. "A gente vai trazer muito mais experiência para cá. Acho que isso vai contribuir bastante para o crescimento do esporte no Brasil", afirma Broda, que participa da Copa pela primeira vez e está com altas expectativas.

Para ele, a experiência internacional vai dar mais visibilidade ao esporte também. Animados com o torneio, alguns times se formaram em Minas Gerais e em Estados do nordeste. Sem patrocínio, as equipes brasileiras se sustentam pelas doações dos próprios jogadores ou pela venda de itens relacionados aos times, como camisetas e canecas.

"No Brasil, [o quadribol] tem a resistência que qualquer esporte que não seja futebol costuma ter, que é a dificuldade de conseguir apoio ou patrocínio. Mas a gente está em outro nicho, então acho que tem bastante espaço para crescer ainda", considera o diretor-presidente da ABRQ.

O esporte no Brasil. O maior problema para os times brasileiros é atrair novos jogadores. "As pessoas ainda olham estranho quando os convido para jogar quadribol, acham que nós somos malucos ou um grupo de superfãs de Harry Potter", diz Villas, que joga em um dos únicos dois times paulistanos (o outro é o Onças Paulistas).

Se em São Paulo ainda há dificuldade para a elaboração de um campeonato estadual, no Rio de Janeiro já há uma competição que entra no seu segundo ano em 2018 e conta com três times. E os planos vão além. "Nós estamos pensando em um campeonato brasileiro que deve acontecer este ano ainda, no Rio mesmo", diz Gabriel Bernardes, de 23 anos, que joga como goleiro no Rio Ravens e é mais um dos convocados para a seleção.

"Devem vir as equipes de São Paulo, a gente espera que venham as de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, talvez de Brasília, vamos ver como eles estarão até lá", completa o estudante de psicologia, que também faz parte da diretoria da ABRQ. Em seu site oficial, a entidade que rege o esporte no Brasil tem nove times registrados.

A Copa do Mundo de Quadribol começa nesta quarta-feira, 27, e os jogos terão transmissão ao vivo pela página oficial da competição no Facebook.

GALERIA: Conheça as regras do quadribol, esporte da saga 'Harry Potter' que passou para a vida real

Scott Audette/Reuters
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*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais.