Produtores de conteúdo falam sobre saúde mental no YouTube e ajudam no combate ao suicídio

Bárbara Pereira* - O Estado de S.Paulo

Plataforma vai além do entretenimento e entrega informações relevantes sobre o tema

Saúde mental é pauta em canais do Youtube.

Saúde mental é pauta em canais do Youtube. Foto: Unsplash / @maaikenienhuis

Engana-se quem pensa que, para fazer sucesso no Youtube, o produtor de conteúdo precisa necessariamente apostar no entretenimento. Uma onda contrária invadiu a plataforma e tem feito sucesso entre os telespectadores: são os vídeos sobre saúde mental. Se um dia o assunto já foi ignorado e considerado tabu, hoje ele se destaca na maior plataforma de vídeos do mundo e ajuda na conscientização de muitas doenças.

O Setembro Amarelo é uma campanha criada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) com o objetivo de conscientizar a população sobre o suicídio. No Brasil, é a quarta causa mais comum de morte entre jovens e o número só cresce com o passar dos anos. Muitas vezes, os casos estão relacionados com episódios de bullying, pressões sociais, depressão e ansiedade, temas recorrentes no cotidiano juvenil. Para alertar outras pessoas e ajudá-los na percepção de sua saúde mental, youtubers estão abrindo espaço em seu canal para trazer vídeos relevantes sobre o assunto.

No início de 2014, o psicólogo André Rabelo criou o canal Minutos Psíquicos com o objetivo de divulgar ciência, conhecimento e pensamento científico. Os mais de 600 mil inscritos recebem conteúdo semanalmente e criam um ambiente de interação nos comentários dos vídeos. Um deles, em específico, reforçou o debate sobre o Setembro Amarelo, abordando o suicídio e trazendo dados alarmantes: "Mais de 90% das pessoas que cometem suicídio possuíam o diagnóstico de transtornos mentais", explica. Ao levantar esse tema, André motiva pessoas a refletirem sobre o próprio comportamento de maneira aprofundada e embasada na ciência: "Não sei dizer qual impacto temos, mas pelo feedback que recebemos, os vídeos estão ajudando em algum nível".

Foi após o próprio diagnóstico de depressão que Anderson Mendes decidiu agir. Tudo começou com a publicação de um livro, que se expandiu para palestras e hoje chegou ao digital. O canal Depressão não é Frescura traz vídeos sobre saúde mental, inteligência emocional, suicídio, entre outros assuntos, todos com o objetivo de promover uma reflexão na vida das pessoas. O foco principal são os adolescentes, já que, segundo ele, são "a corda mais fraca da sociedade atual".

No fim das palestras, aproveita para conversar com as pessoas. Nesse momento, surgem ideias de pauta para os vídeos: "Quando existe uma recorrência em determinado assunto, eu sinto como se fosse um sinal para que eu possa desenvolver um conteúdo", explica. No entanto, apesar do intenso trabalho presencial e na internet, Anderson alerta: "Não sou psiquiatra nem psicólogo, nada nem ninguém para dar um diagnóstico; meu trabalho é abrir a mente das pessoas, principalmente para quebrar o preconceito em torno da busca de ajuda especializada".

Há também os produtores de conteúdo que deslancharam na internet abordando outros temas, mas passaram a produzir vídeos sobre saúde mental. É o caso da Victoria Ferreira, youtuber que acumula quase 150 mil inscritos em seu canal. Inicialmente, assuntos como moda e beleza eram recorrentes mas, com o tempo, percebeu que empoderamento feminino, comportamento e saúde mental também mereciam destaque.

O drama de Victoria com a ansiedade começou cedo, desde criança, mas ela conta que só percebeu como era sério quando os ataques de pânico começaram a acontecer aos 16 anos. A procura por ajuda veio ainda mais tarde, quando já estava na faculdade e a situação tornou-se insuportável. "Levou mais tempo para eu tomar uma atitude a respeito do que propriamente perceber", explica.

Para trazer o assunto ao canal, foram anos de preparação: "O peso da responsabilidade me dizia que eu não podia falar sobre isso enquanto não tivesse parcialmente resolvido a minha situação". Justamente por isso, ela faz questão de ressaltar que seu trabalho está na zona de prevenção. "Eu não estou na internet para tratar pessoas, porque não é minha capacitação. Estou ali para abrir a conversa. Por muito tempo foi um tabu, o assunto foi ignorado. Ignorar algo não faz com que aquilo desapareça", reflete.

No Youtube, seus vídeos sobre saúde mental fazem sucesso: "Nunca tive tanto engajamento e comentário. O feedback foi uma das coisas mais impactantes que já tive no meu trabalho". Entretanto, ela revela ter sido incrível e assustador ao mesmo tempo: incrível porque contar sua história serviu como apoio para quem sofre com transtornos mentais, mas assustador porque a fez perceber que muitas pessoas se identificam com os sintomas. "Foi assim que decidi que eu deveria falar sobre saúde mental, depois desse feedback grandioso", completa.

A experiência de Ellora Haonne foi muito semelhante. A youtuber fala principalmente sobre empoderamento e autoestima no canal, mas após sentir as dificuldades da ansiedade na pele, decidiu incluir esse tema na pauta de vídeos. Ela conta que, ao se abrir sobre a ansiedade, a identificação do público foi imediata: "Eles acompanharam tudo, desde os primeiros dias de taquicardia até os dias em que eu fiquei mais reclusa. Levantar a pauta me ajuda e também ajuda muito o público, todo mundo se identifica".

O enfoque da saúde mental também mudou. Ellora já abordava o assunto no início, mas o conteúdo era voltado a transtornos alimentares. "Quando tive o diagnóstico de depressão e ansiedade, eu não expus a pedido da minha própria psicóloga. Hoje falo abertamente sobre isso, porque já avançamos muito com o tratamento e me sinto confortável", explica. Essa trajetória com a saúde mental inspirou o livro Por Todas Nós, no qual Ellora compartilha medos, experiências e conselhos para empoderar outras mulheres.

Para a psiquiatra Giuliana Cividanes, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), não é possível comprovar a eficácia de vídeos sobre saúde mental. "Tudo depende da qualidade da informação que é transmitida. Na internet não há um controle, um filtro para saber se as informações são verdadeiras ou falsas. A internet tanto pode contribuir quanto atrapalhar quem busca ajuda e tratamento. Canais responsáveis, que contam com a assessoria de profissionais da área de saúde mental podem contribuir muito para a busca de ajuda", esclarece.

Outras formas de ajuda:

Para quem precisa de ajuda, desabafar também pode ser uma boa opção. Para isso, procure o Centro de Valorização da Vida (CVV). O centro oferece apoio online no site, pelo telefone 188, via Skype (acesso pelo site), ou e-mail (mensagem enviada também pelo site). Em todos os canais, o atendimento é feito por voluntários treinados e a conversa é anônima, com sigilo completo sobre tudo que for dito.

Em apoio ao Setembro Amarelo, a plataforma de streaming Spotify criou a Playlist 188, com músicas selecionadas para ajudar na luta contra a depressão. Artistas como Queen, Katy Perry, The Beatles e Madonna estão na lista.

Para acompanhar os eventos em todo o País, fique atento à página Setembro Amarelo no Facebook.

 

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* Estagiária sob supervisão de Charlise Morais