Por que precisamos falar sobre relacionamentos abusivos?

Júlia Velo* - Especial para O Estado de S. Paulo

O que você acha que é 'mimimi' pode salvar vidas

'A força do abuso está no silêncio, na vergonha, na culpa que te foi imposta'

'A força do abuso está no silêncio, na vergonha, na culpa que te foi imposta' Foto: Xavier Sotomayor/ Unsplash

Lembro certinho daquele dia. Era um sábado ensolarado e tranquilo. Fomos tomar café na padaria do lado de casa. Ele deu bom dia pro porteiro e para as velhinhas que lavavam a calçada da rua. Demos umas risadas, pagou o meu café, sempre muito cortês e educado. Na volta para casa, sei lá porque diabos, acabou tendo uma crise de ciúmes completamente desproporcional. Eu senti medo, mas nunca achei que ele poderia fazer algo comigo. Imagina, é a pessoa que eu divido a cama todos os dias. No segundo em que colocamos os pés no apartamento, ele bateu a porta e veio pra cima de mim como uma flecha. Me sufocou com um travesseiro até eu desmaiar. Antes de perder a consciência, gritei por socorro com uma força que nem eu sabia que existia em mim. Lembro de pensar naquele momento que eu ia morrer - assim, nas mãos do cara que dizia que me amava. 

Mas eu não morri. Quando recobrei a consciência, ele estava chorando copiosamente e dizendo que era um monstro. Haviam cortes no meu rosto que até hoje não sei como foram feitos. Levantei, ainda fraca e desnorteada. Descobri que demora um tempo até a nossa cabeça processar esse tipo de situação - é muito absurda para o cérebro racionalizar rápido. Fui para o banheiro e lavei o rosto, tentando estancar o sangue que corria. Eu me olhava no espelho e não entendia que a imagem refletida era a minha. Mas era. Tinha virado estatística. 

Essa não foi uma situação isolada. Mas foi a que eu mais me lembro porque foi a primeira - e a primeira a gente nunca esquece. As outras agressões acabaram virando rotina, coisas que faziam parte do meu dia a dia. O celular quebrado na parede. As manipulações psicológicas. As traições constantes. O medo de fazer alguma coisa errada e ser culpada. A gente sempre é culpada.

Enquanto tudo isso estava acontecendo comigo, eu tinha consciência de que estava em um relacionamento abusivo. Mas se engana quem acha que basta ter consciência para sair dele. É preciso muita força, coragem e resiliência. Afinal, a sua autoestima foi destruída. O seu emocional está em frangalhos. E quando você sente minúsculo e sem direito à própria voz, é impossível gritar. Você sente que ninguém vai te escutar.

Neste mês, duas mulheres resolveram falar sobre as suas experiências com relacionamentos abusivos: Shantal e Erika Roger. Diferente do que as fizeram acreditar, elas foram ouvidas. E mais do que isso, foram amplificadas. Essas vozes, tão corajosas, ainda estão ressonando dentro de várias mulheres que já se viram na mesma situação. 

A força do abuso está no silêncio, na vergonha, na culpa que te foi imposta. É assim que casos como esses, como o meu e o de tantas outras ficam incubados por tanto tempo, acampando apenas na alma das vítimas. Chega. A agressão não merece mais ocupar todo esse espaço dentro de nós. Abra as janelas, recolha os cacos, coloque flores dentro de você. Jogue fora o que está te sufocando. Fale. Deixe o ar fluir e limpar tudo o que está machucado.

Naquela época, achava que seria preciso um milagre para me tirar daquela situação. Mas o que realmente me salvou desse pesadelo foi simples: apoio. Por mais que ele me fizesse acreditar que ninguém me escutaria, as pessoas continuavam me escutando. Por mais que ele me fizesse acreditar que eu não era digna de amor, elas continuavam me amando. Por mais que ele me fizesse acreditar que eu estava sozinha, elas continuavam a me estender a mão.

Falar sobre isso é extremamente doloroso. Mas é necessário, para que cada vez mais as pessoas entendam o quanto isso é comum. Eu agradeço infinitamente a todas as mulheres que já compartilharam as suas experiências com outras pessoas. Foi a coragem que elas me deram de falar o que estava acontecendo comigo que salvou a minha vida. E por isso eu falo aqui. Espero que isso também acolha e dê força para qualquer uma que esteja lendo e precise de uma mão. Saibam que, a minha, está infinitamente estendida. Estamos juntas. 

 

* Júlia Velo é a cliente que denunciou assédio sofrido no Quitandinha Bar, na Vila Madalena, em São Paulo, no dia 4 de fevereiro de 2016

 

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