Por que os 'millenials' viverão mais com seus pais

Janell Ross - The Washington Post - O Estado de S. Paulo

A idade média em que as pessoas se casam pela primeira vez vem aumentando há décadas; e também vem aumentando o número de pessoas que provavelmente não vão se casar

Uma década atrás, a mídia americana estava obcecada com o que era descrito como um típico fenômeno italiano. Um terço dos homens daquele país, bem entrados nos 30 anos e até mais velhos, não pensava de jeito nenhum em deixar a casa dos pais. Empregos eram escassos, e os bons, ainda mais raros. Em casa, os pais cozinhavam para eles, lavavam suas roupas e atendiam suas necessidades emocionais. Como a família é tão profundamente considerada na Itália, nenhuma dessas circunstâncias era motivo de vergonha.

Assim, esses "garotões", os mammoni, não podiam se casar e nem mesmo se mudar às próprias custas. O governo italiano tentou intervir, oferecendo isenção de impostos a locatários como incentivo para que os não tão jovens saíssem das asas de mamãe e papai. De qualquer modo, no outro lado do Atlântico a situação era de tragicomédia. 

Foto: Wiki

Bem-vindos então aos Estados Unidos de 2016, onde a proporção de homens jovens, solteiros e vivendo com um ou os dois pais atingiu um nível não visto em mais de 130 anos. De fato, em 2014 (os dados detalhados mais recentes disponíveis) pessoas entre 18 e 34 anos nos EUA tendiam ligeiramente mais a viver em casa dos pais que por sua conta ou com um cônjuge ou parceiro, segundo análise divulgada pelo Pew Research Center. 

Isso se aplica a todos os grupos raciais ou étnicos, mas a tendência se acentua entre jovens adultos negros e latinos, homens jovens de todas as raças e pessoas que não tenham curso superior. Negros e latinos entre 18 e 34 vivendo com os pais são atualmente a situação mais comum, que bateu novos recordes. Uma proporção de 36% de negros e latinos nessa faixa etária continua vivendo em casa, para 30% de jovens brancos adultos. Brancos entre 18 e 34 anos tendem mais a casar-se ou viver com um parceiro (36%), para 17% de jovens adultos negros e 30% de latinos. 

O fenômeno, contudo, ocorre mais entre homens jovens que entre mulheres jovens. 

Dito de outro modo: a porcentagem de jovens adultos vivendo em casa dos pais regula com a de 1880. E a última vez que se aproximou dos níveis atuais foi em 1940, quando 34% dos jovens adultos viviam em casa. 

É claro que, então, as expectativas culturais sobre viver com os pais eram muito diferentes, principalmente para mulheres jovens. E no final de 1941 os Estados Unidos entraram na 2ª Guerra, o que ocasionou mudanças sociais e econômicas de todo tipo. 

As razões de tantos jovens americanos estarem vivendo com os pais são complexas - como eram na Itália e aparentemente são em muitos outros países. 

Pesquisadores do Pew constataram que o grosso dessa mudança social está na cada vez menor fatia de americanos que se casam antes dos 35. Nos anos 1960, bem mais da metade (62%) dos jovens entre 18 e 34 anos viviam com o cônjuge ou parceiro/a na própria casa. Apenas cerca de 20% viviam com os pais. Em 2014, só 31,6% nessa faixa etária estão casados ou vivendo com alguém, e 32,1% vivem na casa dos pais. 

A idade média em que as pessoas se casam pela primeira vez vem aumentando há décadas. E também vem aumentando o número de pessoas que provavelmente não vão se casar. Mais: o encolhimento do emprego e dos salários reais - em particular para os homens jovens - deixou uma grande porção de jovens adultos sem condições de manter casa própria ou sem vontade de morar onde consigam pagar. 

A taxa geral de emprego - a fatia de pessoas empregadas - vem caindo, e isso é particularmente verdadeiro para os jovens. Explica por que viver com os pais é ainda mais comum entre homens jovens desempregados. E, como na Itália, esse tipo de estagnação econômica, ou mesmo o desespero, tende a deixar a perspectiva de casamento menos atraente, senão impraticável, para muitas mulheres jovens. Assim, a porcentagem de mulheres vivendo em casa dos pais também está aumentando. 

Nos Estados Unidos, grande parte das isenções e benefícios de impostos ainda vai para pessoas casadas, pais e famílias. 

Nenhum candidato à presidência mencionou especificamente a intenção de reformar as leis de impostos em favor de jovens não casados. Mas os dados sobre os jovens e suas novas condições de vida parecem implicar que tal reforma venha a ganhar força.

* Janell Ross, repórter de The Fix, escreve sobre raça, gênero, imigração e desigualdade 

Tradução de Roberto Muniz