Por que os casais devem compartilhar as questões financeiras

Paul Sullivan - The New York Times

Frequentemente, casais que querem mudar a maneira como falam de dinheiro encontram dificuldades

  

   Foto: Reprodução/Pixabay

Mark e Penelope Greene seguiram o que já foi considerado um caminho bastante tradicional no casamento. Os dois trabalhavam fora até ter filhos. Então, Penelope ficou em casa, tocando um pequeno negócio de consultoria enquanto dava conta das obrigações de mãe, e Mark continuou a trabalhar como economista.

Décadas depois, ele se tornou executivo-chefe da Fair Isaac Corp. – a empresa por trás da firma de perfil de crédito FICO – e depois executivo-chefe da OpenLink Financial, uma companhia de software. Enquanto ela administrava a vida da família, ele normalmente lidava com as finanças.

Mas, recentemente, Mark Greene começou a pensar em fazer mudanças nas finanças pessoais. Ele conta que não queria ser o único a saber o que está acontecendo e que preferia que sua mulher estivesse mais envolvida.

Esse desejo, afirmam, foi o incentivo para passarem uma boa parte de cinco anos fazendo com que os dois entendessem as finanças da família. Agora na casa dos 60 anos e vivendo em Minneapolis, Minnesota, o casal diz que Penelope poderia administrar o dinheiro da família sozinha.

“Não precisei me envolver antes e agradeço por isso. Mas neste momento em que você está com tudo pronto para se aposentar, como vai lidar com todas as opções de ações e com outras coisas? Como vai se preparar para o próximo passo – essa parte da vida em que a renda é fixa? Esse é um momento preocupante para qualquer um”, diz ela.

Muito já foi escrito sobre a necessidade de educação financeira para crianças e jovens. E muito sobre a necessidade de transparência e clareza financeira nos casamentos.

Mas vários casais compartilham as informações financeiras moderadamente. Algumas vezes, acontece pelo estilo do relacionamento. Outras, porque a vida fica complicada com crianças e carreiras e é muito mais fácil dividir as responsabilidades e confiar que o outro está lidando com sua parte.

É muito óbvio perceber que isso pode dar errado, seja pela morte ou invalidez daquele que sabe tudo ou até por um divórcio em que um dos cônjuges estava no escuro quanto à vida financeira do casal. Mas, frequentemente, casais que querem mudar a maneira como falam de dinheiro depois de décadas de casamento encontram dificuldades. Afinal, eles seguiram um modelo que funcionava e agora, com a possibilidade sombria de que um vá morrer antes do outro começando a se estabelecer, estão sendo forçados a mudar.

“O ideal é quando a mulher deseja se sentar e ouvir as conversas financeiras. Existem algumas mulheres mais velhas, nos 70 ou 80 anos, que não querem nem saber do assunto. Elas podem viver mais do que os maridos e se descobrir no meio de uma confusão imensa”, diz Martha Pomerantz, sócia e gerente de carteira do escritório de Minneapolis da Evercore Wealth Management.

Consultores com certeza podem ajudar a começar a conversa. Martha explica que sua empresa faz seminários para levar os cônjuges a entender sobre finanças, entre elas uma chamada Wise Women (Mulheres sábias) para aquelas que precisam aprender mais.

Martha afirma que faz questão de abordar o cônjuge, homem ou mulher, que demonstra saber menos.

“Faço questão que o outro se sinta incluído. Apresentamos o material de uma maneira simples – uma página que traz todas as informações, não a longa conversa sobre o que está acontecendo no mundo dos investimentos. É mais sobre o que importa para a família.”

Penelope Greene diz que sua família trabalhou com um consultor que a fez se sentir incluída.

Um incentivo para os Greene foi ver o que seus amigos tiveram que enfrentar.

“Vejo várias mulheres que estão em uma situação em que dizem: ‘Oh, não, está tudo uma bagunça’. Não sei como elas fazem”, afirma Penelope.

Ainda assim, nem todas essas conversas acontecem como o planejado.

“É uma situação confusa se não houve envolvimento de ambas as partes quando se trata de falar de dinheiro”, explica Kristy Archuleta, consultora do Human-Centric Insights Panel do Hartford Funds e professora associada do Instituto de Planejamento Financeiro Pessoal da Universidade do Estado do Kansas.

Apesar de ser importante discutir sobre investimentos, quanto um casal gasta, doa ou deixa para os filhos, tudo terá um impacto maior em suas vidas financeiras à medida que envelhecem.

Ela diz que a maioria das pessoas se daria melhor se lidasse com essa tarefa de maneira gradual.

“Primeiro, eles devem localizar onde as despesas estão e perguntar ‘Como as contas são pagas?’. Eles também podem se revezar. Assim você não sobrecarrega a pessoa que não estava envolvida.”

Em alguns casos, quando um dos cônjuges está controlando ou insiste que já que ele traz o dinheiro ele deveria tomar as decisões, Kristy afirma que é necessário um aconselhamento profissional.

“Eles podem não saber como falar e como se envolver”, afirma, referindo-se ao cônjuge com menos conhecimento.

Suzanne Wheeler, sócia e conselheira de bens da Mariner Wealth Advisors, de Tulsa, Oklahoma, diz que mesmo quando os casais querem compartilhar informações, seus estilos de comunicação podem ser tão diferentes que eles precisam de um conselheiro para ajudar com a discussão.

“Alguns casais com quem trabalho realmente querem se aprofundar em todos os detalhes. Algumas pessoas focam nos resultados. Quando você junta os dois, pode ser frustrante.”

Ela diz que frequentemente trabalha de trás para frente, estabelecendo o que é mais importante para os indivíduos. A partir daí, começa uma discussão mais profunda sobre as finanças familiares.

Penelope Greene diz que agora está completamente à vontade com a situação financeira da família, mas tem um arrependimento. “Só quando o Mark estava pronto para se aposentar” começamos a olhar para isso, conta. Ela afirma que queria ter feito isso antes “porque poderíamos ter tomado decisões ainda melhores”.

Pelo menos agora eles sabem.