Podcasts infantis ensinam valores para crianças e estimulam a criatividade

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Cuidado com os irmãos, empatia, autoestima, ciência e respeito à diversidade são alguns dos aprendizados que podcasters buscam transmitir de forma lúdica aos pequenos

Provocar a imaginação e estimular a criatividade são as apostas de produtores de podcasts infantis. 

Provocar a imaginação e estimular a criatividade são as apostas de produtores de podcasts infantis.  Foto: Pixabay

“Ouvir histórias é viver um momento de gostosura e de prazer. É encantamento e sedução”. A frase da pedagoga brasileira Fanny Abramovich ilustra bem um dos motivos para os podcasts terem se tornado uma febre nas últimas duas décadas. Com narrativas atraentes e relatos que mexem com a imaginação, as horas dedicadas à escuta desse tipo de conteúdo, no Spotify, aumentaram 200% no quarto trimestre de 2019 em relação aos três meses anteriores. E esse sucesso se deve não só aos adultos, mas também às crianças.

Um exemplo desse fenômeno infantil é o Era Uma Vez Um Podcast. Com histórias que transmitem valores e aprendizados – como amizade, respeito à diversidade, empatia e educação alimentar –, os episódios já tiveram mais de 60 mil downloads por mês, em pouco mais de um ano de existência, e conquistam pais e mães como Mônica Mourão, que estimula a filha Júlia, de cinco anos, a sempre ouvir os novos capítulos.

“É uma boa maneira de trazer assuntos importantes para a criação da minha filha, porque vejo a oportunidade de inserir temas na vida dela”, explica ela. “Enxergo também o podcast como uma forma de ensinar desde cedo para a Júlia um jeito saudável de lidar com os celulares”, completa.

Seguindo essa linha de raciocínio, Carol Camanho, criadora do Era Uma Vez, afirma que evita mostrar a tela dos eletrônicos aos seus filhos Nicolas, de seis anos, e Amanda, de dois, para não limitar a criatividade deles. “O podcast é interessante para a criança pela desvirtualização que ele oferece. Sem vídeos [ou outros recursos visuais multimídia], elas soltam mais a imaginação, pois criam suas próprias imagens daquilo que estão ouvindo”, analisa.

Carol costuma adaptar contos clássicos, como Chapeuzinho Vermelho, Robin Hood, João e Maria, Cinderela, Pinóquio e lendas do folclore brasileiro. Ouça abaixo um episódio: 

A podcaster também cria narrativas inspiradas nas suas experiências com os filhos, como o E Se Eu Fosse Um Lego, na qual conta o dia em que sua filha engoliu uma pecinha de lego e saiu no cocô. “Fiz a história pensando como se o meu filho mais velho fosse uma peça de lego e entrasse no corpo do bebê. A ideia foi mostrar para irmãos mais velhos a importância de proteger e cuidar do mais novo, serem amigos”, explica. Confira: 

 

Um outro podcast infantil é o Imagina Só, da produtora musical Superplayer Company. Criado em dezembro de 2019, o projeto oferece às crianças histórias com vozes variadas, músicas, sons da natureza e efeitos sonoros que proporcionam uma experiência imersiva para o ouvinte. “Tentamos mostrar movimentação em nossas narrativas. Isso provoca a imaginação, estimula a criatividade e desenvolve o senso lúdico”, diz Gustavo Goldschmidt, fundador da Superplayer. 

Com 11 episódios publicados, as fábulas transmitem valores assim como o Era Uma Vez. No episódio A Careca do Galo, por exemplo, os narradores contam a história de um galo que usava uma peruca para disfarçar a careca. Depois que sua peruca é roubada, ele aprende uma lição sobre confiança e autoestima. Confira: 

Já o Programa Maritaca vai além da contação de histórias, trazendo música, brincadeiras e dicas de livros para a garotada.  O podcast criado e apresentado por Mariana Piza, a Maritoca, foi inclusive vencedor do Prêmio APCA de melhor produção em entretenimento em Rádio, em 2016.

Embora o foco dos podcasts infantis seja os pequenos, adultos também podem se interessar por esse tipo de conteúdo. Com explicações lúdicas e de fácil compreensão, o podcast Coisa de Criança aposta em explicar perguntas complexas que a criançada costuma fazer: como surge o arco-íris? Por que o céu é azul? De onde vêm as ondas? Por que o mar é salgado? 

A iniciativa foi criada em março de 2018 e o último episódio foi ao ar em julho do mesmo ano, após nove episódios sobre fenômenos da natureza. Ouça:

Goldschmidt acredita que o áudio é uma ferramenta que quebra o monopólio do vídeo na interação digital da criança. Isso porque, muitas vezes, canais infantis no YouTube como o do Luccas Neto – com mais de 9,7 bilhões de visualizações – e da Galinha Pintadinha – com 14 bilhões – são os únicos recursos multimídia para o entretenimento dos pequenos.

Vale ressaltar que, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, é recomendado que crianças de dois a cinco anos tenham um tempo de exposição às telas limitado em uma hora por dia. E a Organização Mundial da Saúde (OMS) aconselha que menores de dois anos não tenham acesso a eletrônicos.

Podcast infantil sem outros estímulos não adianta

O pesquisador em neurociência e educação Alfred Sholl-Franco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma que os podcasts são interessantes para o desenvolvimento mental infantil. Entretanto, esse formato de áudio precisa estar integrado a outros estímulos, como o contato com a natureza, relações interpessoais e qualquer outra coisa que provoque os sentidos visuais, olfativos, auditivos, táteis e gustativos.

Parece óbvio, mas muitas crianças são sedentárias, preferem o celular ao contato humano ou estão imersas em ambientes com poucos incentivos – seja por opção dos pais ou questões socioeconômicas. 

“Nenhum excesso é saudável e não basta dar um produto pronto para a criança. Mais do que isso, ela tem que criar e recriar a partir dele. É preciso que o podcast interaja com desafios, bonecos, brincadeiras, conversas etc. Caso contrário, ele vira apenas uma distração para ficar ouvindo histórias dos outros. Tem que ter contextualização e, a longo prazo, isso ajudará a formar um adulto melhor”, aconselha Franco.

A análise do neurocientista não é para menos: num artigo intitulado Tecnologia Para Aprender, ele explica que os períodos mais sensíveis a estímulos estão concentrados do zero aos seis anos. Ou seja, nessa faixa etária, a capacidade do cérebro desenvolver, de forma mais aguçada, novas funções cognitivas é maior, tais como a linguagem, controle emocional, habilidades sociais, audição e reconhecimento de fonemas:

Plasticidade é a capacidade do cérebro construir novas conexões entre os neurônios após o estímulo de novas experiências.

Plasticidade é a capacidade do cérebro construir novas conexões entre os neurônios após o estímulo de novas experiências. Foto: Reprodução do artigo 'Tecnologia para aprender' (2015) / ReserchGate

Somado a esses fatores, a especialista em Linguagens pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Antonia Lima, explica, no estudo Composição sonora de histórias infantis em podcast, que o hábito de ouvir histórias ajuda a trabalhar medos, inseguranças, inveja, dor, carinho, curiosidade, além de transmitir uma gama enorme de informações.

"Quando a criança ouve ou lê uma história, ela é capaz de questionar, comentar, duvidar ou discutir sobre o que leu ou ouviu. Por isso, é preciso que esse ato não seja entendido apenas como algo banal”, destaca. “Quando a criança dá importância ao que ouviu, ela consegue ampliar seu conhecimento e organiza seus argumentos, construindo sua cidadania.”

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais