Pesquisa indica que jovens brasileiros buscam representatividade em séries

João Pedro Malar* - O Estado de S.Paulo

Estudo encomendado pela Netflix mostra que sete em cada dez entrevistados procuram séries com personagens parecidos com eles

Cena da série 'O mundo sombrio de Sabrina', da Netflix

Cena da série 'O mundo sombrio de Sabrina', da Netflix Foto: Netflix / Divulgação

Uma pesquisa encomendada pela empresa de streaming Netflix divulgou que sete em cada dez jovens brasileiros entrevistados buscam assistir a séries e filmes em que apareçam personagens semelhantes a eles, o que indica a importância da representatividade nas produções.

O estudo foi conduzido pela empresa NetQuest entre os dias 13 e 15 de janeiro de 2020, com mil entrevistados, todos brasileiros, entre 16 e 25 anos de idade. Todos os participantes utilizam serviços de streaming, além da TV paga e TV aberta no Brasil.

Para o psiquiatra Daniel Martins de Barros, o resultado da pesquisa não surpreende, já que a identificação com o conteúdo "é o que buscamos na arte como um todo". "A gente gosta e busca formas de refletir sobre a nossa existência, sobre a condição onde estamos, a crise que atravessamos. Essa é uma das funções que sustenta a existência da arte", diz o especialista.

Dos entrevistados, 79% disseram sentir que séries e filmes retratam as realidades dos jovens com mais frequência do que antes. Para 69%, encontrar personagens que passam pelas mesmas situações que eles é um fator importante na hora de decidir a que assistir, e 57% já fez a pergunta "o que meu personagem favorito faria nesta situação?".

Barros destaca, porém, que essa postura não é inteiramente benéfica. "No universo pop, a coisa fica mais simplificada e a ideia da ficção é levar a refletir e pensar, não indicar soluções. A representação ficcional é um modelo, uma simplificação, existem muitas outras camadas existentes na vida real, tudo é mais complexo. As saídas fáceis representadas no universo de 45 minutos nem sempre são aplicáveis na vida [real] dos jovens", opina. Ele observa que o conteúdo deve servir como ferramenta de autorreflexão, não modelo de comportamento.

Um exemplo dessa identificação foi mostrado pelo E+ em uma reportagem que ouviu sexólogos e os respectivos filhos para falar sobre a série Sex Education, que mostra a relação de uma mãe sexóloga e o filho, Otis. "Acho que a série retrata bem, tenta criar essa relação familiar e consegue estabelecer a profissão como algo ligado à relação deles [Otis e a mãe]", opina João, um dos entrevistados que relatou certa identificação ao ver a produção.

Outro dado da pesquisa é que os jovens buscam conselhos ou ideias de como lidar com situações nos conteúdos que consomem. Os três tópicos que mais interessam os espectadores são amizades, relacionamentos e futuro.

Na opinião do psiquiatra, esse cenário é intensificado na atualidade com a tecnologia e um aumento do acesso a mais conteúdos. "É mais ou menos como buscar relacionamentos amorosos ou pares afetivos nas redes sociais. Antigamente, tinha que se virar com o que tinha no bairro, no trabalho; com todo mundo acessível online, você começa a procurar aqueles com quem se identifica", compara o Barros.

"Os jovens querem se ver representados nas histórias a que eles assistem", diz Maria Angela de Jesus, diretora de produções originais internacionais da Netflix no Brasil. Ela destaca que esse público não procura apenas por estrelas e rostos conhecidos ao decidir a que assistir, mas procura se ver nas telas. "Toda necessidade do ser humano é suprida por alguém em troca de dinheiro, então as geradoras de conteúdo usam essa característica para fazer o máximo de conteúdo com o qual as pessoas se identificam", destaca o psiquiatra.

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais