Parapsicologia de Padre Quevedo não é aceita pela ciência, apesar de atrair seguidores

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Professora diz que falta de conhecimentos em física leva a interpretações místicas que reúnem milhares de pessoas em redes sociais para discutir estudos paranormais

Padre Quevedo em casa na rua Aparecida Moreira César Turíbio, onde supostos fenômenos sobrenaturais ocorreram em 2005.

Padre Quevedo em casa na rua Aparecida Moreira César Turíbio, onde supostos fenômenos sobrenaturais ocorreram em 2005. Foto: J. F. Diorio / Estadão

Vitória** mora no Patriarca, bairro periférico da zona leste de São Paulo, e se queixava de vasos rachados no corredor externo de sua casa. A princípio, ela achava que eram os gatos dos vizinhos que faziam o estrago, até que o problema passou a acontecer dentro do lar: alimentos caíam no chão e objetos quebravam sem se saber o porquê. Quem conta essa história é Márcia Cobêro, professora especialista em parapsicologia, área que investiga supostos fenômenos paranormais e psíquicos.

Ela trabalhou por mais de 30 anos ao lado do Padre Quevedo - uma das referências mais importantes do tema e conhecido pelo quadro O Caçador de Fantasmas, do Fantástico. Hoje, a mulher coordena o instituto que leva nome do sacerdote, falecido em janeiro deste ano, e relata suas experiências com o mundo espiritual para quem se interessar.

“Fui até a casa, no Patriarca, para entender o porquê das coisas quebradas. Chegando lá, eu vi que ao lado do sofá tinha uma mesinha com uma lista telefônica sendo puxada por uma pessoa que queria rasgá-la. Havia espíritos de familiares ali também”, conta ela, que é formada em teologia, história e filosofia.

Veja abaixo uma das aventuras de Padre Quevedo, em que ele desafia um homem que diz ter pacto com o demônio:

Em um outro momento aterrorizante, a parapsicóloga recorda do caso da “Maria Fogueteira”, uma mulher de Santa Catarina que supostamente ateava fogo por forças do próprio corpo. “Não havia indícios da perícia técnica. O que estava acontecendo ali era exorcização da energia interna dela”, diz.

De acordo com Márcia, a parapsicologia explica esses fenômenos usando 'conceitos de medicina, física e outras áreas do conhecimento'. “Existem forças corporais que são exteriorizadas e podem se transformar em efeitos mecânicos, térmicos e sonoros. Isso justifica muitos fenômenos, como ruídos e produção de fogo… é física pura”, acredita.

A parapsicologia é aceita pela ciência? 

A relação que Márcia Cobêro estabelece entre a parapsicologia e a ciência incomoda acadêmicos, sobretudo ao verem suas áreas de pesquisa sendo usadas para explicar supostos casos de telepatia, clarividência, premonição, mediunidade ou telecinese (capacidade de movimentar objetos pela mente). Só no Facebook, 46 grupos latino-americanos e espanhóis sobre o tema reúnem cerca de 100 mil internautas, somados.

“Essas pessoas citam um monte de gente com livros sem nenhuma equação, o que é errado. A física usa a matemática como linguagem para interpretar qualquer fenômeno, e não por palavras”, alerta a professora e pós-doutora do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), Marina Nielsen.

Um exemplo do que a especialista critica é a obra A Física da Alma, do físico e ex-professor da Universidade de Oregon, nos Estados Unidos, Amit Goswami - considerado um místico por membros da comunidade científica. Em quase 300 páginas, o pesquisador expõe diversas reflexões e desenhos ilustrando situações parapsicológicas, mas em nenhum momento apresenta fórmulas para justificar as análises.

Sem questionar as crenças religiosas, a física Marina Nielsen explica que a ciência nunca provou, por exemplo, a telecinese. “A atração gravitacional não é capaz de mover objetos, pois ela é fraquíssima. A eletromagnética também não, porque não tem carga elétrica livre. Isso explica o porquê de sermos incapazes de colocar os objetos em movimento [sem tocá-los]”, afirma.

O professor Gabriel Landi, também do Instituto de Física da USP, diz que um dos motivos que invalida as explicações que a parapsicologia dá ao mundo espiritual é a falta de um método científico. Ou seja, um conjunto de regras para desenvolver uma experiência que produza novos conceitos. “Só assim que somos capazes de testar hipóteses e ir além de achismos”, diz.

Instituto Padre Quevedo de Parapsicologia

O Instituto Padre Quevedo de Parapsicologia, coordenado por Márcia, tem um museu com itens coletados e analisados pelos pesquisadores da área. Nele é proibido tirar fotos. O acesso é gratuito e basta se cadastrar para entrar.

As visitações são feitas de segunda a sexta-feira, das 10h às 12h e das 13h às 16h. O museu fica no próprio instituto, na rua Geraldo Amorim, 263, Jardim Bonfiglioli, São Paulo. Para mais informações, acesse ou site ou entre em contato pelo telefone (11) 3873-8831.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais.

**Nome fictício para preservar a identidade