Orgulho LGBT: O que não dizer para pessoas trans?

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

'Bichinha', considerado pejorativo, ou termos como 'mudança de sexo' são ofensivos

Jaque Chanel e Diogo Almeida contam o que consideram ofensivo dizer para uma pessoa trans.

Jaque Chanel e Diogo Almeida contam o que consideram ofensivo dizer para uma pessoa trans. Foto: Arquivo pessoal

Nos anos 1980, uma das primeiras referências populares de pessoas que mudavam esteticamente o corpo surgiu no programa Silvio Santos. O apresentador realizava concursos entre transformistas todos domingos.

No mesmo período, em 1983, em Belém, no Pará, Jaque Chanel ainda era Watuzy Beckman. Aos 19 anos, foi convidado para participar de um concurso de transformista. Ao fazer o teste de maquiagem, a ficha caiu. “Me vi, me reconheci e me reconheci como mulher transexual! Ganhei o concurso e adotei de vez minha identidade trans”, recorda.

Ela foi responsável pelo primeiro movimento de luta e resistência LGBTQIA na região, o MHB: Movimento Homossexual de Belém. O grupo recebeu apoio do professor Luiz Motta, da Bahia, fundador do primeiro Grupo Gay do Brasil.

Jaque Chanel, que descobriu transsexualidade em 1983.

Jaque Chanel, que descobriu transsexualidade em 1983. Foto: Arquivo pessoal

Em 2012, Diogo Almeida descobriu que era trans e, no ano seguinte, começou a fazer acompanhamento hormonal. Porém os primeiros indícios surgiram ainda na primeira infância. “Minha mãe disse que, quando estava para fazer três anos, ainda aprendendo a falar, ela resolveu colocar um vestido em mim. Eu comecei a chorar. Ela perguntou: ‘Por que você está chorando?’. ‘Menino não usa vestido’, respondi. Acho que é o primeiro relato que tenho de gênero, que veio da minha mãe, não é nem uma lembrança minha”, conta.

Diogo detalha como foi o processo de descoberta, aos 15 anos de idade. “Estava sozinho em casa, tinha visto uma série na TV onde aparecia um homem trans. Mas os termos eram diferentes dos de hoje. Joguei na internet ‘mudança de sexo’, ‘mulher virando homem’, ‘mulher vira homem’ no Google. E acho que tudo começou daí”, relembra.

Diogo Almeida descobriu que era trans em 2012 e, no ano seguinte, começou a readequação hormonal.

Diogo Almeida descobriu que era trans em 2012 e, no ano seguinte, começou a readequação hormonal. Foto: Arquivo pessoal

A psicóloga Desiree Cordeiro atua no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria da USP. Ela explica o que acontece, do ponto de vista emocional, com aqueles que encontram, de fato, sua condição de gênero.  

“Essa pessoa pode ser quem realmente ela sente que é. Se apresentar assim e se expressar como se sente, de forma congruente. Às vezes, algumas pessoas trazem idealizações de como é ser homem, mulher ou alguma outra variação de gênero. E isso pode frustrar bastante, pois temos sempre limitações genéticas reais e nem sempre atingimos o ideal. Por isso entendemos que é necessário passar por acompanhamento psicoterápico adequado para poder lidar com a realidade como ela irá se apresentar durante e após o período de transição física. Ser mais resiliente com as condições de sua vida. Sabemos também que o apoio da rede familiar e dos amigos faz muita diferença nesse processo”, avalia.

A readequação social após a mudança também é desafiadora, sobretudo diante de uma comunidade que ainda precisa aprender a lidar de maneira mais empática com a população LGBTQIA. O E+ dá voz, agora, aos transgêneros, transsexuais e travestis e levanta a seguinte questão: “O que não falar para pessoas trans”? 

Preconceito desde a infância

Jaque Chanel afirma que a transsexualidade foi surgindo espontaneamente na vida dela: “Não foi uma decisão de mudança, porque eu não tive este poder de decisão, mas tudo foi acontecendo naturalmente.”

Ela lembra quando era estigmatizada na infância. “Algumas coisas marcaram a minha jornada. Quando eu ainda era criança, todos os colegas de escola me chamavam de ‘mariquinha’, de ‘pederasta’, de ‘veadinho’...era horrível”, lamenta.

Diogo Almeida, por sua vez, não se encaixava no grupinho das meninas da escola: “Sempre me sentia diferente das outras, não me sentia acolhido nos espaços, porque essas questões de gênero são limitadas desde criança, né? Existem os espaços dos meninos e das meninas e eu ficava no espaço das meninas, já sentindo algum tipo de desconforto, mesmo sem entender muito bem o que era.”

O que não dizer para uma pessoa trans? 

Um termo muito utilizado, inclusive pela ala médica e a mídia, é a cirurgia para ‘mudança de sexo’. No entanto, Diogo Almeida esclarece que isso pode causar desconforto para a população trans. 

“Existem pessoas trans que se sentem mais confortáveis com algum termo do tipo ‘readequação de gênero’ ou ‘transição de gênero’, mas o termo ‘mudança de sexo’ não é muito bem aceito. Ele traz uma noção de que as pessoas trans mudam de sexo, que é um conceito bem distorcido da realidade. Primeiro porque não se muda de sexo e é mais no sentido de que acontece uma transição e você expõe para o mundo a forma como se sentiu por muito tempo internamente. E a questão do sexo que, muitas vezes, limita a discussão para uma forma genitalista, muito focada na questão pênis-vagina e não no gênero”, na opinião dele.

Quando foi realizar a cirurgia para a retirada das mamas, Diogo relatou que se sentiu constrangido com a insistência do médico em saber o nome de batismo dele. “Eu disse que não tinha necessidade. E ele começou a brincar: ‘Me conta vai...você vai me deixar curioso?’. E, durante a consulta, ele começou a falar vários nomes aleatórios: ‘Ah, acho que seu nome era Natasha, hein? Maria? Ah, não...mas tem cara que era Joana’. Era muito chato. Me senti super constrangido porque eu queria que ele parasse de falar aquilo, mas ele era o médico que ia fazer a cirurgia em mim e fiquei com medo”, afirma.

Jaque Chanel diz que, hoje em dia, ouve menos xingamentos nas ruas por ser trans, mas já passou por ‘maus bocados’: “Já escutei muitas coisas do tipo: ‘É ‘traveco'? Vixi é traveco...’ ou ‘Essa porra é veado’. Porque os ignorantes e preconceituosos colocam todos no mesmo balaio. Fui casada durante 18 anos e diziam para o meu marido que ele era viado também porque ‘quem come, também dá’. Um absurdo".

Sobre relacionamentos amorosos, Diogo reclama da curiosidade das pessoas em relação aos trans. “Algumas pessoas que acabo de conhecer me perguntam como eu transo. A gente não faz perguntas íntimas quando acaba de conhecer alguém. Às vezes, por essa questão de curiosidade, as pessoas acabam criando essa intimidade que não existe”, desabafa.

Diferença entre transgêneros, transexuais e travestis

Existem muitas dúvidas em relação ao significado do termo ‘trans’. Em geral, são pessoas que não se sentem confortáveis com o gênero em relação ao sexo. A psicóloga Desiree Cordeiro, do IPq-HC, explica que transgênero é uma expressão ‘guarda-chuva’ usada para designar vários casos de pessoas que assumem um gênero incongruente ao sexo designado ao nascimento. Dentro desse ‘guarda-chuva’ transgênero, encontram-se as definições: 

* Transexuais: Quando o indivíduo não se identifica com o sexo designado ao nascimento. Não se reconhece em relação ao sexo biológico. Normalmente essas pessoas buscam alteração de nome civil e sexo (certidão de nascimento), utilizam hormônios para adequação física e até realizar uma ou algumas cirurgias para adequação do gênero. Importante lembrar que sempre é necessário acompanhamento para este processo de intervenção médica.

* Travestis: São as pessoas que vivenciam papéis de gênero feminino, mas não se reconhecem como homens ou como mulheres, mas como membros de um terceiro gênero ou de um "não gênero". É fundamental ressaltar que pessoas travestis, independentemente de como se reconhecem, preferem ser tratadas no feminino, sendo um insulto serem tratadas no masculino.

O Instituto de Psiquiatria da USP, no Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual, recebe, atualmente, somente crianças e adolescentes (de três a 16 anos). Apesar disso, o IPq atende adultos que já estavam no ambulatório anteriormente e foram envelhecendo. 

Atendimento à população trans no IPq-HC

O primeiro passo de quem chega ao ambulatório é passar por uma triagem inicial. Caso a pessoa fique no ambulatório, passará por uma avaliação multidisciplinar e a partir daí segue o atendimento.

“Normalmente são encaminhadas para psicoterapia de grupo e para outros atendimentos como fonoaudiologia, assistente social, endocrinologia, psiquiatria, atendimento familiar, entre outros. Todos esses encaminhamentos são individualizados e ocorrem em tempos distintos. Além disso, atendemos também os familiares para que a transição aconteça integrada. Importante lembrar que não realizamos nenhum tipo de intervenção em crianças e a família sempre está ciente de todo o processo”, esclarece a psicóloga Desiree Cordeiro.