O que podemos aprender com uma mãe e sua filha transgênero

Redação - O Estado de S.Paulo

Ao aceitar a condição da filha, Kimberley Shappley sentiu na pele o que é pertencer a um grupo marginalizado

A texana Kimberly Shappley luta para que sua filha transgênero possa usar o banheiro feminino na escola

A texana Kimberly Shappley luta para que sua filha transgênero possa usar o banheiro feminino na escola Foto: Pixabay

A sabedoria popular diz que ter um filho é aprender a amar alguém mais do que a si mesmo. Esse sentimento agora é muito claro para Kimberly Shappley, uma tradicional mulher católica da cidade de The Pearland, Texas. Até sua filha nascer, era muito presente na comunidade cristã e compartilhava de valores conservadores do sul dos Estados Unidos. Mas quando sua filha Kai nasceu, tudo mudou. Na verdade, Kai nasceu Joseph: Kai é uma criança transgênero.

"Quando você é mãe de uma criança transgênero, não é só ela que sai do armário. Toda a sua família é obrigada a sair junto", contou Kimberly ao HuffingtonPost. No momento ela luta pelo direito de Kai de usar o banheiro feminino junto com as outras meninas. "Sou uma ativista por acidente", se define.

Kai se identificava como sendo do sexo feminino desde, aproximadamente, os dois anos de idade. Quando pequena, sempre se interessou mais pelos brinquedos femininos, só tinha amigas meninas e até procurava meios de ter uma aparência mais feminina como, por exemplo, usar camisetas até a cintura para parecer um vestido. Essas situações sempre terminavam com broncas verbais e até castigos físicos.

A família de Shappley questionava se o pequeno Joseph era gay, e tentavam despertar o seu interesse em pesca, caça ou esportes. Todas essas tentativas eram em vão. Aos três anos de idade, Kai verbalizava diariamente que era uma menina. Ela sabia o que era, e tentava de toda forma fazer com que os adultos entendessem sua situação.

A aceitação e transição não foi fácil. Kimberley conta que foi um árduo processo: "Precisei de três ou quatro tentativas para conseguir comprar calcinhas para ela. Eu ia até a loja, pegava as calcinhas mas as devolvia e saía chorando. Eu ficava irritada e triste por não tê-las comprado".

Ela procurou psiquiatras parentais para entender o que se passava. Até que entrou em um grupo privado do Facebook onde mais de mil mães compartilham experiências no processo de criar crianças transgêneros e dividem o peso do isolamento social, do preconceito e o constante medo da violência.

Foi com o problema do banheiro para sua filha, ainda não resolvido, que Kimberley descobriu de verdade como era fazer parte de um grupo marginalizado. A experiência de ter uma criança transgênero influenciou até o modo como ela se relaciona com a religião. Agora ela enxerga os ensinamentos de tolerância e compaixão que existem por trás de cada passagem da Bíblia.

Shappley confessa que pensa em se mudar para uma cidade mais tolerante com a condição de sua filha, mas descarta a hipótese. Ela acredita que estará fazendo um bem maior em permanecer na comunidade onde se sente excluída. "Nós estamos mudando a opinião das pessoas sobre o que significa ser transgênero simplesmente nos mantendo visíveis. Estamos dizendo 'Olha, estou aqui, na escola. Eu não posso usar o banheiro com você, pois você insiste em ser discriminatório, mas eu continuo aqui", completa.