O que é Autismo nível 1? Conheça sinais e saiba qual a importância de buscar ajuda

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Por ser considerado ‘leve’, diagnóstico ainda enfrenta preconceito social e resistência na aceitação familiar

Contato visual não consistente, dificuldades na flexibilização de regras e na interação social e estereotipias são alguns dos sinais do Autismo de nível de suporte 1.   

Contato visual não consistente, dificuldades na flexibilização de regras e na interação social e estereotipias são alguns dos sinais do Autismo de nível de suporte 1.    Foto: Pixabay/Endho

Considerado ‘grau mais leve’, o chamado Autismo de suporte nível 1 tem algumas características específicas como: contato visual não consistente; dificuldades na flexibilização de regras, preferindo a manutenção de padrões; problemas na interação com as pessoas, entender piadas, ironias ou sarcasmo; e podem ter estereotipias, ou seja, comportamentos ou verbais repetitivos.

Luciana começou a identificar os primeiros sinais de TEA no filho aos dois anos de idade. “Especialmente a dificuldade em lidar com barulhos altos e cheiros que só ele sentia. Além de uma dificuldade em lidar com mudanças na rotina e em outras situações”, lembra.

Hoje, Erick está com 10 anos. “Ele tem altas habilidades também, então, apresentava hiperfoco em Ciências e a escola me chamava para dizer que ele incomodava os colegas com suas contribuições e vontade de saber informações que não eram compatíveis com a turma”, diz.

Com o retorno das aulas presenciais, Erick está enfrentando desafios na socialização. “Ele não reconhece ironias, sinais sociais de que os colegas estão cansados do assunto científico. Também sente necessidade de tamborilar os dedos para se regular, mas os professores e colegas reclamam do barulho. Então, é uma fase em que precisamos estar mais presentes na escola e dando suporte diário para lidar com tantas questões sociais”, enfatiza.

Luciana afirma que muitas pessoas não acreditam que o filho tem TEA: “Muita gente espera sinais clássicos do autismo e não entendem como uma criança que fala pelos cotovelos pode estar no espectro. Costumam achar que estou justificando questões comportamentais com um laudo que o vitimiza. E não é nada disso. O laudo só me ajuda a compreender o que acontece na cabeça dele, do que precisa para se regular e ajuda a encontrarmos soluções juntos”.

A jornalista conta que comprou um fidget toy para que Erick consiga se regular nas aulas, sem batucar nas mesas. “E assim fazemos com todas as situações. No carro, ele diz sentir cheiros que o fazem vomitar, então, passamos a andar com as janelas abertas. Não deixamos de fazer as coisas, mas não podemos permitir que o  pressionem a deixar de sentir o que ele sente. Por isso, encontramos soluções juntos que o façam se sentir melhor e ter sua vida em sociedade, vivendo a diversidade”, ressalta.

A neuropsicóloga Bárbara Calmeto, diretora do Autonomia Instituto, explica que o diagnóstico é essencial para dar qualidade de vida. “Já ouvi de vários pacientes adultos com TEA nível 1 que os colegas próximos e até parentes não acreditam que eles tenham autismo. Mas o diagnóstico é fundamental não só para encontrar respostas, mas especialmente para buscar e oferecer soluções para o dia a dia”, destaca. 

Conversar na escola, por exemplo, sobre práticas que possam ajudar no desenvolvimento da criança ou adolescente com autismo, oferecer apoio em situações de quebra de rotina, buscar suporte integrado com especialistas, como neuropsicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas comportamentais e psicomotricistas são dicas importantes.

“Na fase da adolescência e adulta, a pessoa com TEA é mais exposta e cobrada sobre as relações sociais mais sutis como, por exemplo, uma gíria usada pelos amigos, uma piada, uma brincadeira onde um tira sarro com outro. Normalmente, também tem dificuldade com sinais sociais na conversação como perceber que sua conversa sobre fatos históricos está chata e as pessoas estão olhando o celular, diminuindo o contato visual”, esclarece Bárbara.

Quais os tipos de autismo e suas características? 

Com a ajuda da neuropsicóloga Bárbara Calmeto, relacionamos os três tipos de graus do Transtorno do Espectro Autista:

- Autismo de suporte nível 1: As pessoas neste grau apresentam sintomas menos graves, por isso é denominado como ‘autismo leve’. E podem ter dificuldades em situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos, demandando pouco suporte nas atividades da rotina. A comunicação verbal costuma funcionar bem, mas podem ter dificuldade em manter uma conversa e também fazer amigos.Também manter rituais diários, seguindo rotinas já esperadas, sentindo desconforto quando há mudança de planos ou eventos inesperados.

- Autismo de suporte nível 2: Já as com nível moderado costumam ter mais necessidade de suporte, pois apresentam maior dificuldade em seus relacionamentos sociais. Podem ou não se comunicar verbalmente, mas, geralmente, têm conversas curtas ou apenas sobre temas específicos, por isso, podem precisar de suporte para participar de atividades sociais. Elas também podem apresentar comportamento não verbal mais atípico, evitando contato visual ou sem conseguir demonstrar emoções pela comunicação verbal e facial. Os comportamentos mais restritivos também são comuns e podem se sentir perturbados quando saem de suas rotinas e mudam seus hábitos diários.

- Autismo de suporte nível 3: No nível de suporte severo, a dificuldade na comunicação é significativa, assim como nas habilidades sociais. Os comportamentos restritivos e repetitivos atrapalham seu desenvolvimento, independentemente das mudanças nas atividades cotidianas. Podem ainda ser excessivamente ou pouco sensíveis a determinados estímulos sensoriais e apresentam comportamentos restritivos e repetitivos, como balanço e ecolalia, repetição das palavras ditas por terceiros. As pessoas com autismo severo precisam de muito suporte para aprender habilidades importantes para a vida cotidiana.

Como  buscar ajuda para pessoas com autismo?

 Não existe um caminho pré-estabelecido para reconhecer o autismo, mas o ideal é marcar uma consulta com um neurologista e neuropediatra ao perceber sinais como os citados abaixo:

- Faz pouco ou nenhum contato visual: a criança olha na direção dos seus olhos, do seu rosto? Esse é um sinal de alerta muito importante. “Bom falar que a criança não faz contato visual e nem responde por seu nome o tempo inteiro, mas precisamos observar se a criança olha e responde quando chamada a maior parte das vezes”, afirma Bárbara Calmeto;

- Não quer ficar no colo ou evita contato físico: tem crianças que não gostam de ficar no colo, ser abraçadas e ter contato físico com outras pessoas, e esse é um dos sinais de alerta para o autismo. “Muitas pessoas com autismo gostam do contato físico, mas é bom observar a qualidade desse contato físico realizado como adequado ou não para a faixa etária quando comparamos com outras crianças da mesma idade”, ressalta a neuropsicóloga;

- Atraso na fala ou dificuldades na comunicação: com 12 meses, a criança já está começando a pronunciar algumas palavras comuns do seu contexto, da sua necessidade, como “mamãe”, “papai”, “dá”, “mama”, “água” etc. Ela tem pelo menos a intenção comunicativa de solicitar por algo. Aos 15 meses, as crianças já estão pronunciando várias palavrinhas, e, aos 24 meses, formando frases com duas palavras. Esses números podem variar um pouco, mas o mais importante é perceber se a criança tem a intenção comunicativa, vocalizações e imitação vocal;

- Não apontar: a falta do comportamento de apontar para mostrar um desejo ou uma necessidade da criança é um atraso no desenvolvimento e um sinal de alerta para TEA. A criança de 12 meses já aponta para pedir determinado brinquedo ou acesso à comida, por exemplo;

- Dificuldades na atenção compartilhada: a criança mostra o que está acontecendo para compartilhar algum interesse com alguém, como, por exemplo, apontar para um cachorro que está passando na rua. É uma atenção triangular: criança, objeto, responsável; 

- Dificuldades no brincar funcional: por volta de 15 meses, a criança já brinca de maneira simbólica, usando brinquedos para ilustrar uma ação, como, por exemplo, dar mamadeira para um bebê, colocar o carrinho na pista e brincar de corrida. As brincadeiras repetitivas, empobrecidas, sem função, como colocar muito os objetos na boca sem realmente brincar com eles, são sinais de alerta para o autismo;

- Falta de interesse por outras crianças: esse detalhe de brincar junto ou com outras crianças é muito importante, já que a maioria das que tem autismo não consegue compartilhando atenção e brincadeiras. Esse é um dado muito importante para os pais observarem em parquinhos e festas infantis;

- Hipersensibilidades ou irritabilidades sensoriais: crianças que se irritam muito com barulhos, texturas de roupas, texturas de objetos, seletividade alimentar, toque da água, dentre outros, merecem maior observação. É importante observar se a criança tem uma sensibilidade além ou aquém do considerado normal para a sua faixa etária referente a itens relacionados aos sentidos.

“Vale lembrar que a criança não necessariamente precisa apresentar todos os sinais descritos. Esses são alguns dos pontos de alerta mais comuns. Porém, se seu filho apresenta alguns desses sinais e você percebe diferenças quando comparado com outras crianças de mesma faixa etária, busque profissionais especializados urgentemente. Não perca tempo”, aconselha a neuropsicóloga Bárbara Calmeto.