O paradoxo da transparência

Sunita Sah - The New York Times

Com frequência a transparência tem o efeito oposto do que se pretende, não só aumentando o viés no caso de quem oferece o conselho, mas fazendo com que aquele que consulta siga a orientação baseada numa parcialidade

Foto: Gérard Dubois

Uma solução popular para um conflito de interesses é a transparência - informar o comprador (ou o paciente, etc.) sobre um viés potencial do vendedor (ou médico, etc). A transparência deveria atuar como advertência, um alerta para o consumidor no tocante a um viés de quem o aconselha sobre o um assunto de modo a que ele possa processar o conselho apropriadamente.

Mas como muitos estudos que realizei recentemente mostram, existe um problema ao qual não é dado o devido valor: com frequência a transparência tem o efeito oposto do que se pretende, não só aumentando o viés no caso de quem oferece o conselho, mas fazendo com que aquele que consulta siga a orientação baseada numa parcialidade.

Quando trabalhava como médica, presenciei como o viés surge de numerosas fontes: presentes ou patrocínios da indústria farmacêutica; compensações pela adoção de procedimentos particulares; achando que nossas próprias especialidades são as que oferecem tratamentos mais eficazes do que as especialidades de outros. Apesar de muitos médicos, eu inclusive, terem tendência a acreditar que são invulneráveis ao viés, o que torna a transparência desnecessária, os órgãos reguladores insistem nela, entendendo que elas realmente funcionam.

Funcionam até certo ponto. Revelar a existência de um conflito de interesse, por exemplo, ou a comissão de um assessor financeiro ou uma taxa recebida por um médico para inscrever pacientes em experimentos clínicos - com frequência reduz a confiança na orientação fornecida.

Mas minha pesquisa concluiu que as pessoas ainda estão mais propensas a seguir a orientação porque a transparência cria uma pressão maior para seguir a recomendação do especialista. Ocorre que as pessoas não querem demonstrar desconfiança do profissional que as está aconselhando ou insinuar que ele é tendencioso, e também se sentem pressionadas a ajudar a satisfazer o interesse pessoal desse profissional. Em vez de funcionar como alerta, a transparência pode se tornar um peso para quem busca a orientação, aumentando a pressão para buscar um conselho no qual agora confiam menos.

A transparência também causa efeitos perversos mesmo quando esse viés é inevitável. Por exemplo, os cirurgiões são mais propensos a recomendar cirurgias do que os médicos clínicos. Os radiologistas recomendam a radiação mais do que outros médicos. É o que conhecemos como viés da especialidade. Talvez numa tentativa para ser transparentes, alguns médicos espontaneamente revelam esse viés. Ou seja, os cirurgiões informam seus pacientes que, como especialistas em cirurgias, sua tendência é recomendá-las.

Minha pesquisa mais recente, publicada no mês passado no Proceedings of the National Academy of Sciences, revela que pacientes com câncer de próstata (enfermidade que tem diversas opções de tratamento eficazes), quando seu cirurgião deixou claro que privilegiava a cirurgia estavam três vezes mais propensos a se submeter à cirurgia do que aqueles que não foram informados sobre a preferência do médico.

Em vez de descartar a recomendação do cirurgião, os pacientes reportaram uma confiança maior nos médicos que revelaram seu viés.

Surpreendentemente, conclui que os cirurgiões que deixaram clara sua preferência pela cirurgia também se comportaram de modo distinto. São mais enfáticos no tocante às suas preferências, não menos. Suas recomendações para uma cirurgia seriam mais veementes, talvez tentando vencer qualquer possibilidade de seu paciente potencial descartar a intervenção cirúrgica por causa da transparência.

Os cirurgiões também recomendam com mais firmeza uma cirurgia se discutem a oportunidade de o paciente consultar um radiologista. O que concorda com uma pesquisa anterior que realizei a partir de experimentos aleatórios, mostrando que os profissionais que são procurados em primeiro lugar por um paciente aconselham soluções com base na sua preferência e acham ser mais ético agir assim quando sabem que o paciente pode buscar uma segunda opinião.

Claramente, os médicos que revelam um conflito de interesse financeiro ou um viés ligado à sua especialidade não oferecem necessariamente uma orientação de má qualidade. Com frequência os médicos se empenham em informar aos pacientes fatos relevantes para sua decisão. Seria nefasto se os pacientes passarem a desconfiar de todos os conselhos de especialistas. Mas a verdade é que muitas vezes é difícil avaliar a qualidade do conselho oferecido.

O que pode ser feito? Quando esse viés é inevitável, alternativas como material educacional para o paciente podem alertá-lo para o problema. Outra solução seriam as consultas de tratamento multidisciplinares, em que os pacientes visitam diversos especialistas ao mesmo tempo. Outra possibilidade seria a adoção de períodos obrigatórios de "reflexão" no caso de decisões importantes. O que pode reduzir a pressão sofrida pelo paciente para seguir as recomendações do especialista.

Uma situação em que a revelação do conflito de interesse funciona bem é quando o próprio conflito é evitado. Por exemplo, em casos envolvendo presentes, bonificações ou comissões, que podem ser prontamente rejeitados, minha pesquisa mostrou que a exigência da transparência pode encorajar todos aqueles encarregados de oferecer orientação médica a rejeitar o próprio conflito.

A revelação de algum viés tem efeitos profundos tanto sobre o especialista consultado como sobre a pessoa que faz a consulta. Os consumidores devem estar cientes das suas reações à transparência e levar algum tempo para reconsiderar suas opções e buscar uma segunda opinião. E os consultores e órgãos fiscalizadores necessitam entender as consequências potenciais inesperadas quando usam a transparência como solução para administrar o viés./Tradução de Terezinha Martino