O amor dos pais que adotaram criança com idade rejeitada nos abrigos do Brasil

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Apenas 14% dos casais que querem adotar no País aceitariam filhos de sete a 17 anos; juiz explica que muitos jovens se preparam emocionalmente para viver sem família ao atingirem a maioridade

Casal rompe preconceitos por trás da adoção de crianças mais velhas. Maioria dos brasileiros interessados em adoção prefere os pequenos que ainda não passaram da Primeira Infância.

Casal rompe preconceitos por trás da adoção de crianças mais velhas. Maioria dos brasileiros interessados em adoção prefere os pequenos que ainda não passaram da Primeira Infância. Foto: Harielli Tomasi

O parto de Larissa Kerbauy, de 44 anos, durou três meses - período em que gestou uma relação de amor, ao lado de seu marido Victor Linhares, de 43, pelos irmãos Gabriele, Ariele e Gabriel, de um abrigo de Porto União, em Santa Catarina.

O casal se cadastrou para a adoção em setembro de 2015 e os conheceu em agosto de 2016 - quando tinham nove, seis e quatro anos, respectivamente -, após enviarem mais de mil e-mails para os as Varas da Infância e da Juventude de todo o País.

"Quando eu os encontrei, senti que seriam meus filhos. Os três vieram nos abraçar assim que nos viram e foi muito emocionante", recorda. Larissa e Victor levaram os pequenos para um parque próximo à casa de acolhimento, e Gabriele, sentada num balanço, perguntou ao homem: "tio, você vai ser meu pai?". Victor, sem poder criar expectativas na menina, perguntou: "você quer?"; e ela respondeu que sim.

A partir de então, os dois começaram a visitá-los toda semana para criar um vínculo afetivo e, em novembro do mesmo ano, receberam a permissão da Justiça para levá-los para casa, em São Paulo. "Gabriel foi o que mais sentiu. Ele sofria muito quando voltávamos sem ele. Em três meses, eles já estavam chamando a gente de pai e mãe", conta.

Quando a rejeição marca a vida da criança

Apesar do elo de amor, Larissa recorda que sofreu preconceito por adotar crianças mais velhas. "Uma pessoa bem ignorante disse que as duas meninas dariam trabalho por não serem novinhas. Falou que viriam problemáticas, com vícios dos pais biológicos", afirma.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que esse pensamento presenciado pela mulher não é um caso isolado: dos 44.975 interessados em adotar no Brasil, apenas 6.531 (14%) aceitariam crianças e adolescentes de sete a 17 anos. De acordo com o juiz da Vara da Infância e da Juventude de São Paulo, Iberê de Castro, a falta de aceitação faz com que muitas delas estejam fadadas a ficarem na casa de acolhimento até completarem 18 anos.

O portal da campanha 'Adote Um Boa Noite', do Tribunal de Justiça de São Paulo, listou o perfil de mais de 60 crianças e adolescentes de oito a 17 anos que aguardam por uma família nos abrigos do Estado.

O portal da campanha 'Adote Um Boa Noite', do Tribunal de Justiça de São Paulo, listou o perfil de mais de 60 crianças e adolescentes de oito a 17 anos que aguardam por uma família nos abrigos do Estado. Foto: Site 'Adote Um Boa Noite'

"Elas veem, todos os dias, que as crianças adotadas são as mais novas, e, cientes disso, começam a criar mecanismos desde cedo para se defenderem emocional e financeiramente ao longo da vida. Aos 12 anos, muitas já sabem que a adoção é algo praticamente impossível", destaca. O juiz explica que os jovens vão para o mercado de trabalho como aprendizes aos 16 anos e passam por acompanhamento psicológico para suprirem a falta de uma família substituta.

Gabriele, Ariele e Gabriel também já enfrentaram esse sentimento de rejeição. Os três ficaram no abrigo por quatro anos e, antes de conhecerem seus pais atuais, foram rejeitados por um casal que se enfureceu quando a menina mais velha pegou um doce no banco do carro deles sem pedir permissão.

Larissa conta que esse episódio foi traumático na vida dos filhos e os fizeram achar que não seriam mais adotados. "Tempos depois de me tornar mãe, a Gabi contou que tinha muito medo dos processos de adoção, já que foi devolvida por ter pego um biscoito", lamenta. "Ela se sentiu culpada, pensou que tinha prejudicado a adoção dela e dos irmãos por causa disso", complementa.

O abandono que antecede o amor

Antes de chegarem ao abrigo, em 2013, as três crianças passaram por maus-tratos numa família marcada pelo vício em entorpecentes e pela pobreza.

Era 2007 quando Maria**, aos 13 anos, deu à luz Gabriele. A menina nasceu em família pobre, no interior de Santa Catarina, fruto de uma relação com um rapaz de 16 anos. Ambos eram alcoólatras, usuários de droga e não tinham condições de cuidar do bebê. Mesmo assim, não se intimidaram e, sem orientação sexual, tiveram os outros dois num curto espaço de tempo.

Não demorou muito para os pequenos serem entregues à bisavó, dona Josefa**. Com um salário mínimo de aposentadoria e dois filhos embriagados dentro de casa, a senhora ia às ruas todo dia para pedir comida e deixava os bisnetos trancados num quarto, com medo deles serem agredidos pelos familiares.

"Gabriel ficou sem andar e sem falar até os dois anos por falta de estímulo. Ele só ficava deitado na cama e levantava apenas quando as irmãs o pegavam no colo", revela. Após ser adotado, o menino foi diagnosticado com um pequeno grau de autismo e, hoje, aos 7 anos, passa por acompanhamento psicológico e vai ao fonoaudiólogo para desenvolver a fala.

Além disso, o pai biológico de Gabriele - que foi preso e hoje está na Fundação Casa - chegou a dar cerveja para menina com apenas seis anos, o que a fez ter horror a álcool. "Eles achavam que a bebida gerasse a violência e pensavam que seriam agredidos sempre que alguém bebesse", diz Larissa. Hoje, Victor Linhares, seu marido, bebe casualmente e ela acredita que os filhos têm outros exemplos de como lidar com o assunto.

O abandono fez com que os três desenvolvessem bicho de pé e sarampo, doenças que levaram a escola onde estudavam a denunciar o descuido para o Conselho Tutelar. Foi a partir disso que Gabriele, Ariele e Gabriel foram retirados de Josefa e levados à casa de acolhimento de Porto União, em Santa Catarina.

'Por que você me trocou pela bebida?'

Gabriele e Ariele não gostam de falar sobre o passado. As duas, assim como o irmão, frequentam o psicólogo para curar possíveis traumas, mas ainda não se abriram sobre a família biológica.

Em janeiro deste ano, Larissa e Victor levaram os filhos ao abrigo para matarem a saudade do lugar, e os pequenos não quiseram visitar a bisavó. "A mulher foi várias vezes à casa de acolhimento chorando e dizendo que sentia saudade", lembra a mãe.

Larissa não conseguiu ter filhos pela via biológica. Hoje, ela enxerga a adoção tardia de Gabriele, Ariele e Gabriel como um 'caso de sucesso'.

Larissa não conseguiu ter filhos pela via biológica. Hoje, ela enxerga a adoção tardia de Gabriele, Ariele e Gabriel como um 'caso de sucesso'. Foto: Harielli Tomasi

Apesar dos filhos não terem interesse em rever os parentes de sangue, Larissa acredita que Gabriele, a mais velha, será a primeira a procurar os antigos familiares quando tiver acesso às redes sociais. "A gente conversa sobre isso. Já disse que não tem problema se um dia ela quiser conversar com os pais biológicos", conta. "A única coisa que ela disse foi: 'se um dia eu falasse com a mãe de antes seria para perguntar por que ela me trocou pela bebida'", completa.

'A rejeição às crianças mais velhas vai cair nos próximos anos'

O juiz Iberê de Castro coordena o projeto Adote Um Boa Noite - lançado em outubro de 2017 para incentivar a adoção tardia - e afirma que o número crianças em maior idade e adolescentes adotados será muito superior ao de hoje a partir de 2020 no Brasil. Segundo ele, isso se deve ao novo sistema de adoção e acolhimento lançado em agosto deste ano.

A plataforma emite alertas em caso de demora no cumprimento dos prazos do processo de adoção e facilita a busca de dados sobre o perfil escolhido pelos pretendentes, o que, segundo o CNJ, amplia as possibilidades de adoção na hora de escolher o perfil do jovem. O sistema já é usado em 79 comarcas do País e a meta é que todas as varas usem o serviço até o fim do primeiro semestre de 2019.

Iberê analisa que as pessoas têm tido cada vez mais consciência sobre o processo de adoção. "Os casais estão entendendo cada vez mais a necessidade de se preparar nos cursos [dos fóruns] para adotar e enfrentar possíveis dificuldades", conta.

Ele conta, também, que a campanha que gerencia começou nos fóruns de Tatuapé e Santo Amaro, na cidade de São Paulo, e tem surtido efeito: em um ano de trabalho, a equipe já conseguiu concluir quatro adoções tardias e tem outras 17 em andamento nos dois lugares. Antes do projeto, apenas uma pessoa nesse perfil foi adotada em ambos os órgãos durante 2017.

Assim, o sucesso fez com que a iniciativa fosse estendida para o Estado inteiro no meio do ano.

Segundo o juiz, há uma triagem para escolher quais jovens participarão do Adote Um Boa Noite, porque nem todos estão preparados para lidar com possíveis rejeições. Entretanto, alguns começaram a pedir para serem incluídos. "Eles gostaram da ideia e viram que pode ter resultados. Então, preferem continuar acalentando o desejo de terem uma família, mesmo sabendo que é muito difícil acontecer", diz.

Larissa Kerbauy e Victor Linhares também vêm construindo um caminho para reverter a rejeição por crianças mais velhas e adolescentes. Os dois pretendem levar a história de adoção tardia deles para as aulas preparatórias da Justiça e romper com os estigmas que dificultam a aceitação desses jovens. "Aos casais interessados em adotar, eu peço para que não ouçam os preconceitos, comentários negativos. Vejam por si sós", aconselha. "Eles são muito carinhosos e o amor não tem idade", conclui.

** Os nomes são fictícios

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais