Nike cancela lançamento de tênis após protestos de indígenas

Juan José Rodriguez - AFP

Representantes da etnia Guna, do Panamá, pediram indenização à marca

Indígenas da etnia Guna, do Panamá, protestam contra tênis que seria lançado pela Nike.

Indígenas da etnia Guna, do Panamá, protestam contra tênis que seria lançado pela Nike. Foto: Luis Acosta / AFP

A Nike cancelou na última terça-feira, 21, o lançamento de um novo modelo de tênis, após protestos de indígenas Guna do Panamá, insatisfeitos pelo suposto uso de um símbolo artístico ancestral da etnia.

Os indígenas exigiram da multinacional norte-americana uma indenização pelo uso do símbolo ou que o calçado esportivo não fosse colocado à venda.

A polêmica surgiu porque Nike fez uma edição especial do tênis para Porto Rico com um desenho muito parecido com uma mola, uma arte ancestral dos indígenas Guna do Panamá e da Colômbia.

"Já houve um dano porque foi utilizado nosso desenho, que faz parte da espiritualidade do povo Guna. Portanto, a empresa [Nike] tem que indenizar, porque foi uma cópia ilegal de nossos desenhos", disse à AFP o advogado dos Guna, Aresio Valiente.

Em resposta, a gigante esportiva anunciou que os tênis em questão não serão lançados no mercado.

"Nos desculpamos pela representação incorreta da origem do desenho do Nike Air Force 1 Porto Rico. Como resultado, este produto já não estará disponível", informou um porta-voz da Nike procurado pela AFP.

Os Gunas são uma etnia indígena que vive principalmente nas ilhas do Caribe panamenho e no território colombiano.

No Panamá, vivem principalmente na reserva indígena de Guna Yala, onde se dedicam à pesca, à agricultura, ao artesanato e ao turismo.

Indígenas da etnia Guna, do Panamá, protestam contra tênis que seria lançado pela Nike.

Indígenas da etnia Guna, do Panamá, protestam contra tênis que seria lançado pela Nike. Foto: Luis Acosta / AFP

Sua principal expressão artística é a mola, uma forma de arte têxtil tradicional de desenhos complexos com várias camadas e muitas cores, que é usada em peças de vestimenta, quadros e objetos de decoração.

"A mola é como uma bandeira para os Gunas, realmente há toda uma identidade cultural que se articula ao redor da mola. É um elemento identitário muito forte", disse à AFP a professora de antropologia social na Universidade de Barcelona, Mónica Martínez.

Os Gunas afirmam que a lei panamenha reconhece a mola como propriedade intelectual deles, por isso exigem que a Nike os compense por utilizar o desenho sem sua permissão.

"O caso da mola Guna não é o único no mundo, há milhares de desenhos e conhecimentos ancestrais dos povos indígenas que estão sendo pirateados por empresas multinacionais", disse o zaila [cacique] Belisaario López em coletiva de imprensa.

Segundo estes indígenas, a Nike havia anunciado originalmente a apresentação do polêmico tênis para o próximo dia 6 de junho. Eles, além de exigir uma resposta da empresa, também haviam pedido aos consumidores que não comprassem esse calçado caso ele fosse colocado à venda sem seu consentimento.

Indígenas da etnia Guna, do Panamá, protestam contra tênis que seria lançado pela Nike.

Indígenas da etnia Guna, do Panamá, protestam contra tênis que seria lançado pela Nike. Foto: Luis Acosta / AFP

Segundo Martínez, "são cada vez mais os casos" de grupos e povos indígenas que denunciam roubo de sua propriedade intelectual por parte de desenhistas ou grandes empresas de diferentes setores em todo o mundo.

"Não é que haja um caso por semana, porém costuma estar cada vez mais presente neste mundo", afirmou Martínez, que realiza trabalho de campo com os Guna desde o ano 2000.

"O interessante aqui é que existem debates na Organização Mundial de Propriedade Intelectual e há exigências por parte dos povos indígenes de que se tem que fazer algo, porém, não se está fazendo nada", concluiu a especialista.