'Não há momento de satisfação completa para viver sua identidade'

Ludimila Honorato - O Estado de S.Paulo

Presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais faz um panorama da vivência de transgêneros em diferentes fases da vida

Travestis e transexuais passam por enfrentamentos em todas as fases da vida e estão no País que mais mata transgêneros no mundo.

Travestis e transexuais passam por enfrentamentos em todas as fases da vida e estão no País que mais mata transgêneros no mundo. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Foi há exatamente 14 anos que, pela primeira vez, um grupo de travestis e transexuais entrou no Congresso Nacional, em Brasília, para pautar políticas públicas que atendessem esse público. "Não foi fácil, teve piadas na Casa, mas nossa visibilidade foi posta e foi positivo", relembra Keila Simpson, presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

Naquele dia, foi lançada a campanha Travesti e Respeito, uma parceria do movimento trans com o Ministério da Saúde para reivindicar ações para a população dentro da luta contra a aids. A partir de 2005, a data tem sido lembrada todos os anos como forma de reivindicação e protesto, uma vez que as dificuldades enfrentadas por travestis e transexuais no Brasil estão presentes em todas as fases da vida.

"[A pessoa] Não tem momento de satisfação e prazer para dizer que está completamente tranquila, para dizer que pode viver a sua identidade", diz Keila ao traçar um panorama das dificuldades que pessoas trans enfrentam ao longo da vida. No Brasil, onde a expectativa de vida de travestis e transexuais é de 35 anos, em média, ela afirma que são raras aquelas que têm uma qualidade de vida melhor. "A primeira batalha é chegar nessa idade."

Na infância, a não aceitação da família, que percebe a criança como diferente, é o primeiro agravante. Salvo as exceções, a pessoa se isola, não tem a quem recorrer nem argumentos para se expressar. "O lar, que poderia se tornar o espaço de entendimento, aconchego e de ser livre, se torna um lugar que aprisiona", diz Keila.

Depois, por vezes, a escola vira um espaço mais cruel pelo fato de a questão sair do privado familiar e ir para o público escolar. Os problemas se agravam e na adolescência, quando não há apoio nem iniciativas que atendam à demanda desse jovem, a maioria dos travestis e transexuais encontram nas ruas e na prostituição a saída para a liberdade de ser quem são.

Foi o caso de Brunna Valin, de 43 anos, socioeducadora no Centro de Referência e Defesa da Diversidade. Ao enfrentar preconceito e violências física e verbal dentro de casa e na escola, fugiu do lar para ser profissional do sexo. "Foi algo que marcou muito. Eu achava que na rua eu sofria menos do que dentro de casa, mas [as violências] são muito parecidas", diz.

A violência contra travestis e transexuais pode levar à morte dessa parcela da população. Segundo o Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil, lançado pela Antra, foram notificados 179 homicídios de pessoas trans no País só em 2017. O número é o maior em dez anos e tem como palco o País que mais mata transgêneros no mundo, segundo a organização Transgender Europe.

Atualmente, Brunna se considera realizada pessoal e profissionalmente. Conquistou sua liberdade à medida que foi se entendendo como transexual. "A felicidade chegou juntamente com a descoberta da minha transexualidade", afirma. Conheça mais a história de Brunna e de outras três pessoas trans.

Segundo a presidente da Antra, as ruas é a realidade da maioria dos transexuais, que saem de casa cedo e recorrem a empregos informais devido à falta de compreensão das famílias. "A vida é pautada no enfrentamento de todos os dias, porque a cada dia tem dificuldades para ultrapassar, e as lutas desses momentos são individuais", afirma.

Na fase adulta, ao alcançar uma liberdade que é muito mais pessoal do que social, Keila aponta para o problema da oficialidade. "Quando precisam se identificar civilmente, vem o choque, porque apresentam o documento e o constrangimento é grande quando não coincide", diz.

Ela explica que o processo de mudança do prenome nos documentos é burocrático e requer diversas ações judiciais e série de documentos, além de acompanhamento psicológico que ateste a transexualidade - uma ironia para quem sempre soube quem é. Um dos maiores problemas, segundo Keila, na hora de se apresentar publicamente é não ser reconhecida no gênero com o qual se identifica.

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Quando a pessoa passa dos 60 anos, os enfrentamentos chegam independente do gênero, seja para incluir, respeitar ou atender às especificidades. "Quando pensa em trans na terceira idade, já tem toda a negação, são as mesmas exclusões agravadas ao quadrado", afirma Keila.

Assim como o decreto nº 8.727/2016, que regulamenta o uso do nome social em espaços públicos, a presidente da Antra reforça a necessidade de políticas e ações públicas que acolham travestis e transexuais. Como exemplo, ela cita centros especializados que atendem e empregam esse grupo social.