Mulheres do Paquistão andam de bicicleta ao ar livre para conquistar espaço nas ruas

Redação - O Estado de S.Paulo

Evento foi marcado para combater a dominação masculina na esfera pública

Mulheres andam de bicleta enquanto fazem parte da passeata das Garotas em Dhabas na cidade de Islamabad, Paquistão 

Mulheres andam de bicleta enquanto fazem parte da passeata das Garotas em Dhabas na cidade de Islamabad, Paquistão  Foto: REUTERS/Faisal Mahmood

Dezenas de mulheres no Paquistão participaram de um passeio de bicicletas ao ar livre em várias cidades do país neste domingo, 2, em um evento organizado para desafiar a dominação masculina dos espaços públicos. 

"Nossa estratégia é simplesmente ficarmos visíveis em espaços públicos", diz Meher Bano, que faz parte das Garotas em Dhabas, o grupo feminista que organizou passeios em várias cidades após uma mulher da cidade de Laore, capital da província de Panjabe, ser empurrada da bicicleta ao ignorar cantadas na rua. 

Os passeios de bicicleta foram um dentre vários eventos organizados nos últimos anos pelas Garotas em Dhabas. O nome do grupo é uma referência aos restaurantes que servem comidas paquistanesas típicas à beira da estrada. 

O coletivo busca promover a participação feminina em eventos públicos e aumentar a consciência da população a respeito das dificuldades vividas pelas paquistanesas. 

"Dirijo nessas rodovias o tempo todo, mas esta é a primeira vez em que ando nelas de bicicleta", diz Humay Waseem, uma das participantes do trajeto que se estendeu por cinco quilômetros ao redor da capital do Paquistão, Islamabad. "Adorei a sensação de liberdade com a brisa no cabelo", acresceu Humay. 

As Garotas em Dhabas afirmam fazer parte de uma nova geração de feministas paquistanesas que tentam continuar o progresso iniciado por suas antecessoras. "O movimento das mulheres é tão velho quanto o próprio Paquistão, mas não é algo que esteja falado ou escrito", afirmou Meher Bano. 

Mais de 60% dos quase 200 milhões de paquistaneses têm menos de 30 anos. Apesar disso, mulheres jovens continuam a enfrentar barreiras no mercado de trabalho e frequentemente passam por situações constrangedoras em lugares públicos, diz Meher. "Faz parte de uma narrativa muito maior que leva ao assédio e à violência", afirma.

Mulher anda de bicicleta com a filha na passeata, que busca promover a ocupação das mulheres no espaço público

Mulher anda de bicicleta com a filha na passeata, que busca promover a ocupação das mulheres no espaço público Foto: REUTERS/Faisal Mahmood

Em setembro de 2016, uma marca de moda paquistanesa chamada Do Your Own Thing precisou remover uma campanha postada em suas redes sociais que mostrava mulheres participando de um flash mob. As participantes sofrerem forte assédio online. 

Em julho, a atriz, modelo e ativista Qandeel Baloch foi morta pelo irmão por "trazer desonra à família". Ela se tornou um ícone do movimento feminista após sua morte chocar o Paquistão. 

Apesar de haver alguns bolsões liberais no país, sobretudo na mídia, as paquistanesas feministas frequentemente enfrentam abusos e são retratadas como pessoas "infectadas pelos valores ocidentais anti-islâmicos". 

Após o fim do passeio promovido pelas Garotas em Dhabas, muitas participantes relataram ter sofrido assédio ao ir para casa. Elas também falaram sobre a necessidade de combater o conservadorismo nas ruas, alegando que há menos mulheres frequentando as ruas hoje do que há 20 anos. "Estamos perdendo esse espaço e a sociedade está ficando cada vez mais fechada", disse uma das ciclistas.

* Com informações da Reuters