Mulheres do movimento ‘Vai Ter Gorda’ protestam contra a gordofobia, em Salvador

Caio Nascimento - O Estado de S.Paulo

Coordenadora do grupo afirma que discussões sobre o tema ajudam público feminino acima do peso a valorizar o corpo e as próprias curvas 

Integrantes do movimento Vai Ter Gorda nas ruas de Salvador, capital da Bahia.

Integrantes do movimento Vai Ter Gorda nas ruas de Salvador, capital da Bahia. Foto: Guel de Lima

Integrantes do movimento baiano Vai Ter Gorda se reuniram em Salvador no último domingo, 8, durante o Dia Internacional da Mulher, para protestar contra a gordofobia sofrida pelo público feminino.

O evento contou com rodas de conversa para falar sobre empoderamento, preconceito e os direitos das mulheres. Segundo a coordenadora nacional do coletivo, Adriana Santos, o Vai Ter Gorda, criado em 2016, vem ajudando pessoas a melhorarem a autoestima. "Nós nos sentimos representadas em ações que valorizam a estética da mulher gorda", explica.

"O grupo vem trazendo discussões relevantes dentro de ambientes acadêmicos, jurídicos e políticos como forma de garantir o acesso e dignidade da pessoa gorda", diz ela, com base na discriminação e constrangimentos que pessoas acima do peso podem sofrer em vagas de trabalho, na indústria da moda, em relacionamentos ou locais públicos.

Mulheres posaram de biquíni como sinal de valorização do próprio corpo.

Mulheres posaram de biquíni como sinal de valorização do próprio corpo. Foto: Guel de Lima

Um reflexo da opinião de Adriana é a diversidade de estudos sobre a autoimagem de mulheres gordas. Conforme apurou o E+ numa busca no Google Acadêmico sobre o tema, centenas de artigos científicos foram publicados nos últimos cinco anos analisando como elas são expostas na mídia e a construção cultural e psicológica por trás da forma como a sociedade as enxerga.

Angústias e empoderamento

Em agosto de 2019, o movimento Vai Ter Gorda protestou contra um caso de gordofobia envolvendo um motorista do aplicativo de carros 99 Pop, que negou uma viagem a uma cliente, Joyce Santos, por causa do seu peso, em julho do mesmo ano. “Como é que você passa por mim? Chamo e você não para”, escreveu ela, na plataforma da empresa. “Vai andando, querida, para emagrecer”, respondeu o motorista. 

"Existem pessoas que não sabem de nossas angústias. Não sabem da dor de ficar presa numa catraca, numa cadeira; quando um cinto de segurança não fecha direito, um aparelho de medir pressão não cabe no braço, de fazer exames de imagens onde animais são colocados ou de ser desclassificada em uma seleção de emprego porque não atende ao padrão de beleza que a empresa quer", desabafa.

Adriana destaca, porém, que o empoderamento de mulheres gordas aumentou com o tempo. Segundo ela, esse público está aprendendo, cada vez mais, a valorizar o próprio corpo e as curvas — mesmo diante do preconceito. "Hoje temos muito mais opções de roupas, eventos e concursos de beleza. A estrutura da sociedade vem mudando para atender ao nosso perfil e biótipo. As discussões sobre mulheres gordas vem tendo mais notoriedade e seriedade", analisa ela, que foi eleita a primeira Miss Plus Size da Bahia, em 2013.