'Meu filho também tem o direito de participar do carnaval de rua', diz mãe de criança paraplégica

Caio Nascimento* - O Estado de S.Paulo

Projetos sociais tentam driblar baixa inclusão; falta de banheiros químicos adaptados e calçadas sem acessibilidade prejudicam a folia de pessoas com deficiência

Heitor fantasiado de Mágico de Oz durante bloco de carnaval inclusivo. Ao fundo, outras crianças com deficiências vêm acompanhadas dos pais. 

Heitor fantasiado de Mágico de Oz durante bloco de carnaval inclusivo. Ao fundo, outras crianças com deficiências vêm acompanhadas dos pais.  Foto: Cristiano Azeredo

Aproveitar os blocos de carnaval de rua nem sempre é uma tarefa fácil. A multidão, a quantidade de objetos cortantes despejados nas ruas e a falta de acessibilidade nas calçadas dificultam a participação de pessoas com deficiências físicas, auditivas, visuais e cognitivas. No entanto, não são todos que se entregam às dificuldades e deixam de se divertir.

Heitor Azeredo, de seis anos, é um exemplo disso. O garoto é paraplégico e nasceu com mielomeningocele - condição em que parte da medula espinhal se desenvolve fora do corpo -, mas isso nunca foi motivo para o pequeno não frequentar a folia. Segundo sua mãe, Renata Azeredo, os dois vão aos blocos desde quando ele era um bebê, no Rio de Janeiro

"Sempre procuramos saber com antecedência os blocos que são mais fáceis de transitar. Faço questão de vê-lo nesses espaços", afirma. "É preciso que o Heitor seja visto para que entendam que ele também tem o direito de participar", completa.

A empatia gera inclusão, mas as dificuldades permanecem

Apesar dos obstáculos, Heitor e Renata Azeredo conheceram um evento do Rio voltado para a inclusão de pessoas com deficiência no carnaval, organizado pelo Instituto Novo Ser desde 2017.

A iniciativa promove o lazer adaptado nas praias cariocas e garante a folia de todos, por meio de concursos de fantasias. "Tivemos em torno de dez participantes por ano. A grande maioria é de cadeirantes, mas isso não exclui as outras pessoas", explica o organizador Ricardo Gonzalez.

Renata participa do evento com o filho desde a primeira edição, mas reitera que isso não isenta o fato de o poder público ainda não fornecer uma logística acessível às pessoas com deficiência. São raras as vezes em que um trio elétrico oferece acesso a cadeirantes, por exemplo, e os banheiros químicos não costumam ser adaptados.

Em São Paulo, o Bloco do Fico, localizado no bairro do Ipiranga, também incentiva a inclusão desse público. Segundo o organizador Jamil Jorge, o evento começou a ter essa responsabilidade social quando entidades da comunidade, como o Instituto de Cegos Padre Chico, começaram a levar seus membros ao desfile. "É um bloco onde não existe assédio sexual, consumo de bebida alcoólica e há o respeito aos portadores de deficiências. Essas características atraem famílias de toda a cidade", explica Jorge, que presidiu a Imperador do Ipiranga há nove anos.

Bloco do Fico ainda é o único inclusivo na cidade de São Paulo; evento enfrenta dificuldade com a falta de banheiros químicos adaptados.

Bloco do Fico ainda é o único inclusivo na cidade de São Paulo; evento enfrenta dificuldade com a falta de banheiros químicos adaptados. Foto: Facebook / Bloco do Fico Ipiranga

Além disso, os organizadores oferecem oficinas exclusivas de bateria e dança para portadores de deficiência cognitiva, física, auditiva e visual. A comunicação da Secretaria Municipal de Pessoa com Deficiência - órgão que ajudou na divulgação da festa pela primeira vez neste ano - afirma que essas pessoas participam das alas do desfile com os aprendizados que obtêm em aula.

Essa ajuda do poder público, no entanto, não resolveu os problemas de acessibilidade. Segundo estimativas da Polícia Militar, havia oito mil foliões no bloco, dos quais mil são portadores de deficiência. Mesmo assim, tinham apenas três banheiros químicos adaptados para a multidão, o que, segundo Jorge, demonstra falta de competência das autoridades em alocar essa estrutura nas ruas.

Hospital também é lugar de carnaval

O Graacc, hospital especializado em câncer infantil, realizou na sexta-feira, 1°, um bloco de carnaval em sua brinquedoteca. O evento existe há 19 anos com o intuito de humanizar o tratamento da doença.

"Tudo que existe lá fora queremos aqui dentro. Não é porque a criança está com câncer que ela deixa de ser como as outras. A brinquedoteca é o único área onde ela escolhe o que fazer dentro do hospital, porque nos demais ela fica aos mandos dos médicos", explica a coordenadora do espaço, Patrícia Pecoraro.

Criança com câncer se diverte durante 'bloquinho' dentro do hospital.

Criança com câncer se diverte durante 'bloquinho' dentro do hospital. Foto: Ana Mussalem / Graacc

O bloquinho consiste em músicas carnavalescas, confetes e fantasias, a fim de deixar os pequenos mais confortáveis diante dos problemas que encaram. "Muitas crianças sabem que estão enfrentando o câncer, um tratamento agressivo. Então isso é importante para deixá-las mais calmas e se sentirem incluídas", diz Patrícia.

Carnaval em Libras

Na onda dessas iniciativas, as escolas de samba dos sambódromos também estão se mobilizando em torno da acessibilidade há um tempo. O diretor de carnaval da Imperador do Ipiranga, Márcio Telles, conta que a agremiação vai inserir uma ala só de cadeirantes no próximo ano.

Além disso, a Secretaria Municipal de Pessoa com Deficiência oferece, desde 2016, vídeos com a tradução em Língua Brasileira de Sinais (Libras) dos 14 sambas de enredo das escolas do Grupo Especial. Intitulado Samba com as Mãos, o projeto já divulgou todos os vídeos deste ano. Veja abaixo um deles.

Esse protagonismo de pessoas com deficiência, ainda erguido com obstáculos, faz Renata Azeredo, mãe do Heitor, acreditar que a sociedade caminha para um olhar mais inclusivo. "Muitas pessoas ainda não se atentam para essas questões por não conviverem com portador de deficiência. [Assim], essa interação ajuda a gerar empatia", afirma.

*Estagiário sob a supervisão de Charlise Morais