Menino de 6 anos é barrado em seu primeiro dia de aula por usar dreadlocks

Avi Selk - The Washington Post

C.J. Stanley estava animado para começar a estudar em uma escola religiosa em Orlando, na Flórida – mas as coisas não saíram como o planejado

C.J. Stanley, menino de 6 anos que aparece ao lado do pai na foto, foi barrado na escola por causa de seu cabelo, mas instituição alega que os pais sabiam das regras.

C.J. Stanley, menino de 6 anos que aparece ao lado do pai na foto, foi barrado na escola por causa de seu cabelo, mas instituição alega que os pais sabiam das regras. Foto: Facebook/theoriginaltk0

A ira da internet veio a tona em uma pequena escola cristã da Flórida nesta semana, após um vídeo de um menino de seis anos sendo barrado no primeiro dia de aula por causa de seus dreadlocks ser publicado nas redes sociais.

É uma dessas histórias onde, surpreendentemente, são fatos pequenos que estão sendo alvo de controvérsia entre a família e a escola de C.J. Stanley, e, de alguma forma, acaba virando caso de polícia, acusações de racismo e ameaças de morte.

Não se preocupem: C.J. está bem, apesar de perplexo sobre como seu estilo de cabelo virou motivo de atenção nacional. De qualquer maneira, essa é a história de como sua primeira semana de aula deu muito errado. A Book Christian Academy está educando crianças nos subúrbios de Orlando, na Flórida, desde 1971, a administradora da Sue Book disse ao The Washington Post.

E em nenhum momento, nesses 47 anos, nenhum menino foi autorizado a ter cabelos longos.

"Eu ainda tenho as mesmas regras que sempre tive", Book disse. "As meninas usam saias, os meninos usam calças, cabelo acima das orelhas e longe da altura do pescoço".

Isso soa extremamente plausível. A escola foi fundada pelo marido de Book, o reverendo John Butler Book, sobre quem o Orlando Sentinel já escreveu: "Tentando salvar a Flórida Central do mesmo destino de Sodoma, dentro e fora de sua escola".

Em um antigo sermão que ele deu na TV e que pode ser visto no YouTube, você pode ouvir o reverendo fundamentalista clamar por dias em que as mulheres usavam vestidos – antes de elas "começarem a ouvir artistas da moda, muitas das quais eram homossexuais, e tentarem se parecer com homens".

O senhor Clinton Stanley também é religioso, à sua maneira. "Nós acreditamos em Deus, eu acredito no ser superior, acredito na Bíblia", ele disse de sua casa em Apopka, norte de Orlando – a mesma cidade onde o reverendo construiu sua escola.

Agora um fornecedor de churrasco de 36 anos, Stanley não era mais do que um bebê nos dias de sucesso do reverendo. Ele teve seu filho há seis anos. Esse é Clinton Jr, mais conhecido como C.J.

Quando C.J. tinha quatro anos, Stanley disse, o menino começou a pedir para ter dreadlocks. Seu avô tinha, então ele quis também. "Quando ele quer algo, ele tem que obdecer a certas condições", Stanley disse. "Suas condições eram que ele tinha de aprender a soletrar. Eu disse: 'Você aprende essas palavras, você terá tranças em seu cabelo'. Ele adorou".

C.J. usou os dreads durante a pré-escola, e ainda estava adorando o cabelo até esse verão [nos Estados Unidos, o verão é de junho a setembro], quando Stanley e sua mulher decidiram matriculá-lo em uma escola menor e mais rígida.

Então eles conseguiram uma bolsa por meio de um programa público para ajudar com a mensalidade, e o matricularam em Book Christian: 48 alunos, meia dúzia de professores – contando a professora de piano e Sue Book.

Com isso vem a controvérsia, como está agora.

Book disse que a família recebeu uma cópia do caderno dos pais quando eles matricularam o filho, que explica claramente: "Todos os meninos devem ter um corte rente, que não cubram o pescoço e as orelhas. Não podem ter dreads, moicanos, desenhos ou cor não natural".

Stanley disse que nunca viu esse livro antes de segunda-feira, 13, que deveria ser o primeiro dia de aula de C.J. "Ou eu nunca teria submetido meu filho a essa vergonha", ele disse.

C.J. acordou muito animado naquela manhã, ele lembra. "Você está falando de uma criança que adora estar perto de outras crianças", ele falou.

Eles foram até a Book Christian pouco depois de o sol nascer. C.J. estava com a mochila nas costas e carregando uma pequena lancheira. Ele vestiu a gravata e a camisa de botão que seu pai comprou da escola. Seus dreadlocks balaçavam nos dois lados do colarinho.

"Eu coloquei a camisa dele para dentro", Stanley disse. "Nós fomos até a porta para que pudéssemos conhecer a professora".

Como ele relembra, foi o reverendo que parou-os em frente à secretaria. "Ele disse: 'Leve-o para casa e corte o cabelo dele'", Stanley disse.

Sua Book disse que, na verdade, foi ela quem explicou que os dreads de C.J. não eram permitidos. "Eles sabiam as regras quando entraram", ela alegou.

Em nenhum momento da vida do filho, Stanley falou, ele havia conversado com o menino sobre raça. "Nós somos um só povo. Eu sempre falo para ele tratar as pessoas bem".

Acontece que Sue Book tem a mesma filosofia. Ela disse que a vasta maioria de seus alunos é negra, mas ela nunca tinha feito essa conta até essa semana. "Mesmo quando as pessoas do censo vieram a Atlanta. Eu não ligo para a cor deles", ela falou.

Mas enquanto ele estava na sala de Book ouvindo seus empregados citarem um parágrafo do livro sobre cabelo "não natural", ele pensou como explicaria a C.J. que seus cabelos crespos eram probidos. "Você é natural!", ele lembra de ter pensado. "É natural".

E aí, quando ele estava prestes a andar com seu filho de volta ao carro com os papéis de cancelamento da matrícula, ele virou, abriu o aplicativo do Facebook e iniciou um vídeo ao vivo e deu um suspiro profundo. "Se isso não é preconceito, eu não sei o que é", ele disse para a câmera.

C.J. ficou parado, em silêncio e com os olhos arregalados em frente a uma placa que dizia "sem propagandas" enquanto seu pai falava por oito minutos – aos funcionários que estavam tensos, e Sua Book no fundo da sala na qual ele não podia entrar, e quem mais no mundo estivesse ouvindo.

"Eu posso fazer tranças? Isso é permitido?", Stanely perguntou a uma mulher na mesa. "Eu acho que não", ela disse. "Está no seu livro. Tem de ser acima da orelha".

"Livros!", Stanley disse, suas palavras soando vagarosas e tranquilas com espanto aparente.

"Uau, uau, uau". Houve mais desse papo de papelada. Stanley disse que entendia as regras, mas as regras estavam erradas. Um corte de cabelo estava fora de questão, de qualquer maneira. Ele pediu para cancelar a matrícula de seu filho. "Eu não quero ele aqui mais", ele disse. "Ok", disse a mulher na mesa.

"Vamos lá, cara", Stanley disse, e andou com C.J. de volta ao carro para contar a sua mulher o que havia acontecido. "Eu posso fazer um rabo de cavalo?", perguntou C.J. quando eles estavam no outro lado do estacionamento. "Não pode, sem dreadlocks, filho. Sem dreads".

Só no fim do vídeo Stanley mostra alguma raiva. "E eles deveriam ser cristãos!", ele diz, virando a câmera para seu rosto. "No livro dele, diz que Deus tinha cabelo 'como lã'. Eles deveriam ser cristãos!".

Stanley diz que ele não viu nenhum policial, mas Sue Book disse que ligou para a polícia porque ele estava na propriedade da escola, reclamando com outros pais.

Infelizmente, a administradora disse, ela sentiria a necessidade de chamar a polícia novamente nos dias seguintes – quando as ameaças de morte começaram. Stanley não tinha ideia de que centenas de pessoas assistiriam ao seu vídeo no Facebook, mas assistiram: pais furiosos e ativistas inconformados.

A página da escola no Facebook foi bombardeada por avaliações ruins. Depois veio a imprensa. "Obviamente, eu não sou racista", disse o reverendo Book à NBC-2 Wesh na terça-feira, 14.

"Em nossa escola, nossa música é: 'Jesus ama as criancinhas do mundo, vermelhas, amarelas e brancas, elas são preciosas em seu olhar'". Na quarta-feira, a história havia ganhado força nos Estados Unidos inteiro, e Sua Book teve de encontrar uma voluntária para dar aula em seu lugar para que ela pudesse passar o dia atendendo ligações.

"Eles estão me chamando de tudo quanto é nome", ela disse quando o Washington Post ligou. "Eu estou recebendo xingamentos de todas as partes do país. Muitas nem falam de forma inteligente. Eu falo com eles até que eles usam a palavra de quatro letras. Então eu abaixo o telefone e toco música cristã".

Cinco agentes da polícia tiveram de ficar na escola no segundo dia de aula para vigiar o loca, Sua Book disse. Ela esperava um protesto em frente a escola a qualquer momento.

Questionada sobre como os 48 alunos estão lidando com a crise, ela entrou na sala com seu celular e perguntou: "Vocês estão felizes?". "Sim, senhora", as crianças gritaram em uníssono. "A cor de vocês importa para mim?", Book perguntou aos alunos. "Não, senhora!", eles disseram. "Qual é a minha regra sobre cor?", ela perguntou. As crianças responderam após alguns segundos em silêncio: "Não importa!".

Mas importa para Stanley, agora. Entre trabalhos de distribuição, ele está agora organizando um encontro da comunidade "para discutir as políticas de discriminação que as crianças negras enfrentam nas escolas". E seus apoiadores estão tentando iniciar uma petição para mudar as políticas de cabelo das regras de meio século das escolas.

Mas isso é para os mais velhos. Quanto a C.J., Stanley disse que ele e sua mulher o matricularam na escola pública assim que saíram da Book Christian. Então ele não perdeu nada da escola. As salas agora são mais cheias do que Stanley gostaria, e não haverá lições bíblicas neste ano. Mas está tudo bem. Ele pode manter seu corte de cabelo e qualquer coisa que ele tirou de uma escola que ele nunca mais verá.

"Está acabado para ele", Stanley disse. "Ele disse: 'Pai, isso aconteceu hoje de manhã. Por que ainda estamos falando sobre isso?'. Foi difícil de explicar", o pai lembra. "Eu disse: 'É algo que precisa ser conversado. Você não entende agora, mas vai entender em breve'".