Menina com atrofia muscular recebe visita de cachorro em hospital e se emociona; assista

Caio Nascimento - O Estado de S.Paulo

Criança de seis anos mora no centro médico desde os sete meses de vida e conhece o mundo pela tela de um celular: ‘Meu maior sonho é levar minha filha para casa’

Maria Nicole durante a visita de Thor, o cachorro do Corpo de Bombeiros que foi visitá-la em hospital. De vermelho, a jovem estudante de medicina, Mariana, observa o contato entre o pet e a criança.

Maria Nicole durante a visita de Thor, o cachorro do Corpo de Bombeiros que foi visitá-la em hospital. De vermelho, a jovem estudante de medicina, Mariana, observa o contato entre o pet e a criança. Foto: Shirlene Fernandes / Arquivo Pessoal

Maria Nicole, de seis anos, vive no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), em Uberaba, Minas Gerais, desde os sete meses de vida. A menina trata, na ala pediátrica da unidade, sua Atrofia Muscular Espinhal (AME) — uma doença degenerativa e sem cura que afeta a coluna vertebral, impossibilitando movimentos.

Ela respira com a ajuda de um ventilador mecânico, se alimenta com uma sonda gástrica e recebe a ajuda da mãe Shirlene Fernandes, de 46 anos, que parou de trabalhar para cuidar da filha em tempo integral. A mulher se mantém com um auxílio saúde do governo — no valor de um salário mínimo (R$ 998) — e com os ganhos do marido Humberto Antônio da Silva, de 53, que trabalha como vigilante.

Apesar do amor dos pais, a menina sentia falta de um afeto especial: ela sonhava em fazer carinho num cachorro pela primeira vez, pois, por viver em um leito hospitalar, nunca havia tocado num pet. “A Nicole só conhece o mundo através de um celular que dei para ela olhar como é a vida lá fora: vê gato, peixe, árvore”, conta.

Assim, no último fim de semana, a pequena recebeu a visita de um cão chamado Thor, da raça Golden Retriever. O animal pertence ao Corpo de Bombeiros da região e sua entrada no hospital foi organizada pela Liga de Cuidados Paliativos em Pediatria da UFTM, formada por alunos de Medicina que realizam trabalhos humanizados em saúde.

Shirlene e Humberto beijam o rosto de Nicole.

Shirlene e Humberto beijam o rosto de Nicole. Foto: Shirlene Fernandes / Acervo Pessoal

O primeiro contato da garota com o cachorro emocionou quem estava ao seu redor. Nicole não consegue falar, mas tem plena capacidade mental e demonstrou seus sentimentos com sorrisos e brilho nos olhos. “Foi um encontro mágico. Minha filha adorou e passou o dia com uma fisionomia serena. Eu chorei muito”, relata Shirlene.

Pais, equipe da Liga de Cuidados Paliativos da UFTM, pais e funcionários do hospital se reuniram para ver o encontro de Nicole com o cachorro.

Pais, equipe da Liga de Cuidados Paliativos da UFTM, pais e funcionários do hospital se reuniram para ver o encontro de Nicole com o cachorro. Foto: Shirlene Fernandes / Acervo Pessoal

O encontro durou meia hora e ocorreu na área aberta dos funcionários do hospital, onde há um jardim e um pequeno lago. Maria Nicole chorou ao voltar para o quarto, pois queria ficar mais tempo com o Thor. Mas logo a saudade deu espaço para risos e barulhos de euforia enquanto assistia à TV.

Confira o encontro de Nicole e o golden retriever:

‘Meu maior sonho é levar minha filha para casa’

De origem humilde, Shirlene e Vanderson desejam ter a criança em casa, mas a falta de dinheiro para manter os cuidados especiais da garota não permite. “Nossa família não tem condições para isso. Já tentamos uma vez, mas não tivemos ajuda de ninguém. Colocamos no papel e percebemos que não daríamos conta”, lamenta.

As dificuldades, no entanto, não desanimam o casal. Os dois conseguiram matricular a menina na escola municipal de Uberaba e uma professora vai ao centro médico dar aula para ela cinco vezes na semana.  “Vivo em função da minha filha. Vou todo dia para o hospital, a arrumo para as aulas, troco, cuido e faço os cuidados especiais”, afirma. “Meu maior sonho é levá-la para casa”, desabafa.

Diante disso, Shirlene diz que o mundo deveria conhecer a história de Nicole para saber que há crianças morando em hospitais - seja devido a um quadro de saúde debilitado ou por falta de condições financeiras da família para tirá-las de lá.

Maria Nicole e o cachorro Thor.

Maria Nicole e o cachorro Thor. Foto: Shirlene Fernandes / Acervo Pessoal

“Quero que as pessoas enxerguem esse sentimento e parem de reclamar da vida. Independentemente de tudo, eu não tenho motivos para reclamar. Tem gente que reclama por coisas muito pequenas”, analisa. “Se gastassem dez minutinhos do tempo delas para dar uma voltinha no hospital, tenho certeza que não iriam reclamar de mais nada”.