Maria Flor relata como o racismo afetou o seu antigo namoro com Jonathan Haagensen

Redação - O Estado de S.Paulo

‘Nosso namoro terminou pela nossa incapacidade de perceber essa gigante distância social que existe na cor da nossa pele’, desabafou a atriz

Maria Flor e Jonathan Haagensen.

Maria Flor e Jonathan Haagensen. Foto: Instagram / @MariaFlor31

A atriz Maria Flor namorou com o ator Jonathan Haagensen por três anos e relembrou pelo Instagram, no domingo, 17, o racismo estrutural que envolveu o relacionamento.

Haagensen mora no Vidigal e a atriz lembrou de quando o ex-namorado foi parado por policiais na entrada da comunidade. "Eu, na minha jovem arrogância, desci do carro e gritei com o policial. Perguntei indignada o que ele estava fazendo. O Jonathan pediu para eu parar, mas eu gritei e perdi a mão", afirmou.

"Eu nunca vou esquecer o rosto do Jonathan indo para a delegacia. Tudo que ele tinha passado a vida evitando, eu tinha feito acontecer por um capricho meu", completou Maria, que reconheceu não entender aquela realidade por ser uma moradora branca da zona sul do Rio de Janeiro - região nobre da cidade.

Maria Flor acredita que o namoro com o rapaz terminou pela incapacidade de ambos perceberem a distância social que existe entre os dois, devido à cor da pele.

Além disso, a atriz usou o caso para contextualizar a falta de negros em alguns espaços sociais de maioria branca. “A não existência de um negro na escola do nosso filho não é normal, não ter um negro no ambiente de trabalho não é normal. E não pensamos nisso. Não percebemos nosso próprio descaso diário. E não percebemos o racismo estrutural que existe em nós”. Leia a declaração na íntegra:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Durante três anos eu namorei o ator @jonathanhaagensen O Jonathan morava e ainda mora no vidigal. Ele é negro, eu sou branca. A gente se conheceu em um filme e se apaixonou. Isso não tinha nada a ver com a nossa cor. E lá atrás, eu com 19 e ele com 20 anos, a gente não pensou sobre isso. Mas estava lá, o tempo todo estava lá. E a gente foi percebendo que não era normal a gente junto em um restaurante, que não era comum a gente fazendo compras no mercado, que não era tranquilo ele dirigir o carro porque seríamos parados na blitz se ele estivesse dirigindo e não eu. Eu lembro de um dia que fomos parados na entrada do Vidigal por policiais. Jonathan disse que era morador, mas os policiais mandaram ele descer do carro e começaram a revistá-lo. Aquilo era humilhante. Eu na minha jovem arrogância desci do carro e gritei com o policial. E perguntei indignada o que ele estava fazendo. O Jonathan pediu para eu parar, mas eu gritei e perdi a mão. E o policial nos levou para a delegacia por desacato. Eu nunca vou esquecer o rosto do Jonathan indo para a delegacia. Tudo que ele tinha passado a vida evitando eu tinha feito acontecer por um capricho meu, por não olhar para tudo a minha volta e perceber que a coisa era muito mais grave. Que abaixar a cabeça tinha sido a realidade dele e eu achei que poderia salvá-lo disso. Eu, branca, garota da zona sul do Rio de Janeiro, achei que podia fazer justiça. Mas não, eu não podia, e eu só fiz ele passar por uma humilhação que eu jamais entenderia. Jamais. E mesmo tendo visto e vivido a experiência de ser olhada nos lugares por estar de mãos dadas com um negro, eu jamais entenderei. E sim, temos que olhar para o lado e perceber que a não existência de um negro na escola do nosso filho não é normal, que não ter um negro no cinema ao nosso lado não é normal, não ter um negro num restaurante não é normal, não ter um negro no ambiente de trabalho não é normal. E não pensamos nisso. Não percebemos nosso próprio descaso diário. E não percebemos o racismo estrutural que existe em nós. Hoje eu acho que nosso namoro terminou pela nossa incapacidade de perceber essa gigante distância social que existe na cor da nossa pele.

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