Mais uma vez, obra tem restauração malsucedida e causa revolta na Espanha

- EFE

Escultura do século 16 estava na igreja de São Miguel na região de Navarra e padre pediu para que mulher apenas limpasse a obra, mas a intervenção foi excessiva

A restauração malfeita de uma estátua do século 16 representando Sâo Jorge viralizou nas redes sociais

A restauração malfeita de uma estátua do século 16 representando Sâo Jorge viralizou nas redes sociais Foto: Pixabay/Blass_werden

Assim como ocorreu em 2012, uma restauração que ficou a cargo de mãos não experientes de uma peça antiga causou revolta mais uma vez na Espanha, onde uma mulher realizou uma "intervenção infeliz" em uma obra do século 16 cujo resultado lembra o famoso Ecce Homo de Borja.

Neste novo caso, a obra danificada é uma escultura de São Jorge do século 16 que estava exposta na igreja São Miguel em Estella (no norte da Espanha, em Navarra) e a restauradora foi uma professora de trabalhos manuais que havia recebido o encargo do padre da paróquia.

A nova restauração tem muitas semelhanças com o famoso Ecce Homo de Borja, um quadro de mais de um século que também ficava em um santuário, cuja restauração por parte de uma octagenária ficou famosa no mundo inteiro e acabou sendo motivo de atração turística, protagonizou documentários e inspirou óperas.

Neste segundo caso, a escultura em madeira mostra a imagem de São Jorge com armadura, montado a cavalo lutando contra um dragão, e suas cores haviam se deteriorado com a passagem do tempo. Já na restauração, foram usadas cores uniformes, principalmente no rosto, o que dá ao santo uma aparência de boneca, sem nuances.

Para os especialistas da Associação de Conservadores e Restauradores da Espanha (ACRE), se trata de uma intervenção infeliz que resultou numa "destruição do patrimônico cultural da Navarra", e anunciaram que vão abrir uma ação judicial contra os responsáveis.

A escultura em madeira policromada do século 16 era uma obra "de grande interesse e relevância patrimonial", explicou o presidente do ACRE, Fernando Carrera, para a Efe, e disse que se trata de "um erro muito sério" e considerou que essa destruição do patrimônio "deveria horrorizar a todos".

Os arcebispos de Pamplona, capital de Navarra, asseguraram que o padre da igreja de São Miguel de Estella não pretendia restaurar a escultura, o que exige uma autorização, e sim "limpar" o espaço em que a escultura estava, que se encontrava "suja". Os arcebispos tiveram conhecimento dos feitos na semana passada e estão em contato com a Instituição Príncipe de Viana, orgão cultural do governo regional de Navarra, encarregada de restaurar, manter e custodiar o patrimônio artístico, cujos técnicos estão analisando o estado da obra e se ela pode ser recuperada.

As autoridades regionais investigam as circunstâncias em que foi feita a restauração da tela, disse à Efe o diretor do Serviço de Patrimônio Carlos Martínez Álava, que assegurou que a restauradora não tinha conhecimento prévio das atuações que iria fazer, o que é perceptível. "Todas essas ações são sobre bens que estão no Registro Cultural e do Patrimônio de Navarra, e portanto têm que ter um projeto, e nós devemos dar o visto de autorização antes de serem realizadas, o que não foi feito neste caso", disse Álava.

Para Álava, o aspecto da tela "poderia indicar que estava precisando de uma limpeza, mas a impressão é que a intervenção foi um tanto excessiva". O novo episódio de restauração com resultados negativas leva aos restauradores a pedir "mais fiscalização" e "mais atenção das responsabilidades dos profissionais", adverteu o presidente do ACRE, que lamentou, "sobretudo, um atentado a um patrimônio que é de toda a sociedade navarra e espanhola".

Veja o antes e depois da obra abaixo:

 

* Da EFE