Luto: O que não dizer para uma mulher que perdeu o bebê?

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

‘Você é jovem e pode engravidar novamente’ ou ‘Você já tem outro filho’ são frases inadequadas

Opiniões não solicitadas podem causar ainda mais sofrimento para a mãe que enfrenta o luto.

Opiniões não solicitadas podem causar ainda mais sofrimento para a mãe que enfrenta o luto. Foto: Pixabay

“A mãe que perdeu seu filho depois de conviver com ele por mais de 20 anos fica sufocada na saudade. A nossa dor, mães de bebês, não é carregada de saudade do que vivemos, mas saudade do que não vivemos! Choramos pelas fraldas que não trocamos, pelos beijos que não demos. Choramos pelas noites que não passamos acordadas”. Esse é um trecho do livro de Camila Goytacaz, que estava com 33 anos de idade quando o filho, José Luis, morreu com apenas onze dias de vida.

Logo ao nascer, o menino foi internado na UTI neonatal por questões respiratórias. O quadro foi se agravando e ele nunca mais saiu. 

Em Até breve, José, a escritora e professora de Comunicação Não Violenta conta, com um texto sensível e em formato de diário, sobre o amor que crescia dentro dela desde quando soube da gravidez tão desejada. “Durante a gravidez eu mantinha um diário, escrevia sobre a vida e sobre a gestação. Durante sua estada na UTI, continuei a escrever para ele, relatando o que estávamos vivendo e assim também segui fazendo depois que ele se foi”, afirma.

Nos primeiros dias de vida de José, Camila e o marido estavam esperançosos. Porém, a cada dia, o quadro do bebê foi se agravando, surgiram complicações. A notícia da morte do filho foi um baque. “No primeiro momento eu chorei desolada, sentada no chão do banheiro do hospital. Senti como uma facada no peito. Doía agudo e eu queria morrer ali mesmo”, lembra. 

A psicóloga Juliana Guimarães analisa que o luto da mãe durante a gestação ou quando o filho é recém-nascido tem peculiaridades. “Percebo que, quando a perda acontece em um momento mais avançado da gestação ou com alguns dias/meses de vida do neném, essa dor tende a ser um pouco mais legitimada. No entanto, quando a perda gestacional acontece nos primeiros meses, na maior parte dos casos, é uma dor vivida de maneira muito solitária pela falta de reconhecimento dessa dor, é o que chamamos de luto não reconhecido”, avalia. 

O luto é um processo doloroso e solitário para a mãe, que pode sofrer ainda mais com o afastamento de familiares e amigos.

O luto é um processo doloroso e solitário para a mãe, que pode sofrer ainda mais com o afastamento de familiares e amigos. Foto: Pixabay

Como lidar com a mulher em processo de luto?

Após saber da notícia da morte do pequeno José, Camila e o marido conseguiram se despedir. “Nós o beijamos muito, nos despedimos, o batizamos ali mesmo, rezamos, conversamos, enfim, fizemos um ritual singelo e íntimo. Ele morreu no meu colo, embalado por todo o amor de sua mãe e de seu pai. Nós tivemos um breve tempo com privacidade para essa despedida, para vesti-lo e para estar ali um pouquinho, antes de nos separarmos em definitivo. Considero essa oportunidade de despedir, com respeito e cuidado, um grande privilégio, que infelizmente nem todas as famílias podem ter na partida de seus bebês”, diz.

A especialista em luto Juliana Guimarães explica a dinâmica psíquica da mãe e do pai que perderam o filho nessas condições. “Tanto para as perdas gestacionais quanto para as perdas neonatais é importante lembrar que junto com esse bebê vão sonhos, expectativas, projeções pessoais e familiares. Em gestações mais avançadas ou em perdas neonatais ainda podemos pensar em um corpo que está transformado para um bebê que não chega, no enxoval pensado para ele, em uma casa que mudou para receber uma criança. Não é fácil lidar com essa situação”, afirma a psicóloga. 

Para Camila Goytacaz, escrever o diário, que futuramente se transformou em livro, foi um processo que se mostrou eficiente na elaboração do sofrimento. “Acredito de verdade que o luto não precisa ser tão pesado e nem tão silencioso. Podemos aprender a lidar com mais leveza, inclusive enxergando a beleza do processo, o quanto aprendemos por meio dessa experiência, como recomeçamos, o quanto crescemos, e todo o legado de amor que esses nossos entes queridos nos deixaram, mesmo que com uma breve passagem por aqui”, reflete.

A escritora Camila Goytacaz, mãe de José, que morreu com onze dias de vida.

A escritora Camila Goytacaz, mãe de José, que morreu com onze dias de vida. Foto: Arquivo pessoal

O que dizer (ou não) para uma pessoa que enfrenta o luto?

Frases que não devem ser ditas para a mãe que perdeu o bebê

Em momentos em que o outro está em sofrimento, temos o costume de verbalizar frases de consolo com o objetivo de confortar a pessoa. Porém, a verdade é que tais comentários são extremamente danosos para a saúde emocional da mulher que perdeu o bebê.

Como em outras situações de luto, ficar quieto e acolher a mãe em sofrimento é o mais adequado a se fazer. Oferecer um ‘ombro amigo’ que vai escutá-la, sem restrição. Na dúvida, só ouça o que ela tem a dizer.

Confira alguns exemplos do que não falar nesses casos:

“Ah, não fica assim...você é nova e pode engravidar novamente”: Existe muita coisa envolvida aqui. Não se sabe há quanto tempo essa mulher está tentando engravidar, se pretende tentar novamente ou se tem a possibilidade orgânica para isso. Muitas têm perdas gestacionais por complicações de saúde ou simplesmente podem não conseguir mais.  

“Pelo menos você já tem outro filho”: Quem está passando pelo problema e escuta essa frase não consegue simplesmente substituir uma vida por outra. Sobretudo se essa vida é a dos próprios filhos. Apenas não diga isso.

“Nossa, mas o que aconteceu? Conta detalhes!”: Agir como se fosse um investigador das causas da morte do bebê definitivamente não fará com que essa mãe seja consolada. Na contramão, alimentará ainda mais angústia e melancolia pela perda.

“Você vai superar”: Aqui, a impressão que a mãe enlutada tem é a de que não pode demonstrar fraqueza ou sofrer. O choro tem de ser livre.

Há inúmeras outras, mas Camila Goytacaz, que perdeu José com 11 dias de vida, enfatiza: “Evitar tudo que está na ordem dos conselhos, dos pontos de vista, das crenças. Nem todas as mulheres acreditam no mesmo Deus, nem todas querem tentar engravidar de novo ou voltar logo a trabalhar e nem sempre estão abertas para ouvir opiniões pessoais ou contar detalhes, ou procurar culpados ou causas. Que as pessoas possam enxergar a mãe que acaba de perder um filho com respeito, com dignidade, com reverência, mas não com pena. Ela não precisa de pena. Ela precisa de acolhimento, é diferente. Isso significa receber menos palavras vazias e mais gestos de compreensão, de carinho, de afeto, mais presença”. 

Visitar a pessoa, se oferecer para sair com ela ou ajudá-la nas funções domésticas são boas dicas, caso você queira realmente ajudar. 

Fazer algumas coisas do cotidiano, como ir ao supermercado ou preparar uma comida, pode ser desafiador para quem está no processo do luto

A psicóloga Juliana Guimarães pondera que é necessário avaliar o sofrimento da mãe enlutada, diminuindo o risco de julgamento da dor pela nossa perspectiva. “Que a gente possa reconhecer que ali existe dor e sofrimento. E nunca perder de vista que cada perda é única e insubstituível. Portanto, frases como ‘Pelo menos você tem outro filho’, ‘Pelo menos estava no comecinho’ ou ‘Logo você terá outro’ devem ser evitadas. Comparações com outras mulheres também não costumam ajudar a mãe em sofrimento”, ressalta.

Abraços, olhares, gestos, mimos, cuidados, presença amorosa: são as fontes de um verdadeiro conforto para essa dor que é inconsolável. 

Perdi meu bebê. E agora?

É muito difícil ignorar comentários ou opiniões não solicitadas quando se perde um filho, especialmente durante a gestação ou quando é recém-nascido.

Para além disso, algumas dicas podem ser valiosas para te ajudar nesse momento de extremo sofrimento: 

- Se permita chorar e sentir a dor do luto da maneira como achar melhor;

- Evite dar detalhes do que aconteceu à todos, caso contrário, corre-se o risco de receber perguntas em tom de interrogatório e que podem aumentar a angústia;

- Encontre grupo de mães que passaram pela mesma situação. Embora a dor seja única para cada um de nós, compartilhar experiências semelhantes fará com que perceba que não está sozinha. 

- Respeite o bebê, seu nome e lugar na família. Não importa se viveu apenas algumas semanas na sua barriga ou fora dela por alguns meses: ele existiu em sua história.

‘O luto é um deserto solitário demais para se atravessar sozinho’

O luto ainda é um tabu na sociedade brasileira, que não foi preparada para falar sobre a morte e não aprendeu a lidar com o assunto com naturalidade. “A morte faz parte da vida, porém, em nossas instituições, na família e nos ambientes sociais nos comportamos como se todos os bebês nascessem bem e saudáveis e nenhum morresse. A festa na maternidade acontece, muitas vezes, no mesmo andar em que mães estão chorando a morte de seus filhos”, afirma Camila Goytacaz. 

Os hospitais e os profissionais de saúde estão preparados para receber visitas, fazer filmagens do parto, celebrar, mas não para acolher as famílias quando o final não é o esperado. “Em minha experiência, as pessoas, salvo raras exceções, se dividiam em dois grupos: os que falam demais, dando conselhos e opiniões, com frases prontas ou impensadas como ‘ah, mas ao menos você já tem um filho’, e outro grupo de pessoas que, por não saberem o que dizer ou como agir, se afastam. Consideram essa situação inconveniente, difícil de lidar”, relata a escritora. 

O afastamento dos parentes e amigos representa uma nova perda para a mulher. “Eu costumo dizer que o luto é um deserto solitário demais para se atravessar sozinho”, conclui Camila.

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A psicoterapia como aliada contra o sofrimento

Na psicoterapia, a pessoa que enfrenta o luto encontra o acolhimento que muitas vezes não é feito de maneira adequada pela sociedade. No consultório, o enlutado fala sobre o sofrimento, expectativas frustradas, planos que foram interrompidos e outras questões sem ser vetado. 

Camila Goytacaz fez uso do recurso: “A terapia sempre me ajudou muito e faço até hoje. Além do apoio terapêutico, também fui acolhida por uma grande rede de solidariedade, formada por mães e mulheres dos grupos virtuais e presenciais de que fazia parte à época. Esse suporte foi fundamental para que eu me sentisse mais segura e menos sozinha. Procurei também um grupo de apoio ao luto - hoje já são muitos - e reforço o quão importante são os grupos de apoio, que dão eco à nossa dor”. 

Hoje, aos 41 anos, Camila é mãe de Pedro Luis, de 11 anos, Joana, de sete, e José Luis, para sempre.