Luto coletivo: Como lidar com a morte de uma figura pública?

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Lembranças pessoais dos indivíduos podem consolidar relação de intimidade

A morte de Gugu Liberato comoveu milhares de pessoas.

A morte de Gugu Liberato comoveu milhares de pessoas. Foto: Werther Santana/Estadão

Quando uma figura pública como o apresentador Gugu Liberato morre, o sentimento é de luto coletivo. É difícil de acreditar que a pessoa não está mais entre nós.

Neste caso, mesmo sem conhecer Gugu pessoalmente, os telespectadores tiveram contato com o apresentador ao longo de décadas por meio da TV, como ressalta o psicólogo Leonardo Goldberg, doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (SP).

“Pessoas como o Gugu, com tanto tempo de televisão, mobilizam nos espectadores uma sensação de intimidade, sobretudo porque quando pensam em momentos da própria vida, em histórias passadas, evocam lembranças atreladas aos programas televisivos: ‘Quando eu era criança, assistia o Gugu com meus avós’. Essa lembrança afetiva consolida uma relação de intimidade entre espectador e apresentador que faz com que a perda seja tão intensa quanto a de amigos próximos”, explica.

Augusto Liberato sofreu um acidente doméstico na residência dele em Orlando, nos Estados Unidos, no dia 20 de novembro. Ele caiu de uma altura de quatro metros e foi levado imediatamente ao hospital. A possibilidade de morte do apresentador gerou angústia e ansiedade. A notícia oficial só foi confirmada dois dias depois.

O corpo do apresentador chegou ao Brasil nesta quinta-feira, 28, e seguiu para a Assembleia Legislativa de São Paulo. 

No velório, além de familiares e amigos de Gugu, uma multidão de fãs, de várias partes do País, se aglomerou do lado de fora da Alesp na esperança de dar um último adeus para o apresentador. Pessoas com fotos, cartazes, faixas e elementos que representam a atuação de Gugu no palco, como o ‘pintinho amarelinho’.

Fãs se aglomeraram ao lado da Assembleia Legislativa de São Paulo para acompanhar o velório de Gugu Liberato.

Fãs se aglomeraram ao lado da Assembleia Legislativa de São Paulo para acompanhar o velório de Gugu Liberato. Foto: Felipe Rau/Estadão

O que falar (ou não) para uma pessoa que enfrenta o luto?

Como lidar melhor com a questão do luto que, neste caso, é coletivo? O psicólogo Leonardo Goldberg faz uma avaliação: “A única possibilidade é através do rito fúnebre, sobretudo aberto ao público. A importância do rito demarca bem um momento de despedida, um antes e um depois”, explica. 

O luto nas redes sociais

O luto coletivo pode ser observado também na internet. Nas redes sociais, os perfis de Gugu Liberato estão ativos. E os fãs seguem escrevendo homenagens ao apresentador. “Descanse em paz, ícone!”, escreveu um seguidor no Twitter.

Na avaliação de Leonardo Goldberg, autor do livro Das Tumbas às Redes Sociais - Um Estudo sobre a Morte e o Luto na Contemporaneidade, vai demorar um tempo para que a população tenha um sentimento de ‘cair a ficha’ em relação à morte de Gugu Liberato

“Conceber a morte de alguém se trata mais de uma questão lógica que cronológica. Apesar de seu anúncio fúnebre, ainda demorará um tempo para que os espectadores percebam que aquele que respondia, interagia, já não responde mais. Por isso a importância do rito fúnebre, e a partir disso cada um lidará com a realização do luto de uma forma particular”, conclui o psicólogo.