Jovem com autismo lança livro sobre carreira

Camila Tuchlinski - O Estado de S.Paulo

Em ‘Imperfeitos’, Julie Goldchmit, diagnosticada com TEA, relata como a inclusão no mercado de trabalho transforma vidas

A jovem Julie Goldchmit, de 25 anos, que tem autismo, é assistente de marketing na Unilever e pretende ser embaixadora da diversidade na empresa. 

A jovem Julie Goldchmit, de 25 anos, que tem autismo, é assistente de marketing na Unilever e pretende ser embaixadora da diversidade na empresa.  Foto: Taba Benedicto

Há mais de 20 anos, os pais de Julie Goldchmit ouviram dos médicos que a filha jamais iria andar ou falar. “Aos dois meses, meus pais notaram um movimento estranho nos meus olhos. Fui examinada por um neuropediatra, que suspeitou de convulsão. Fui internada e fiz uma ressonância magnética de crânio. Durante o exame, tive uma parada cardiorrespiratória que conseguiram reverter imediatamente. O radiologista viu as imagens e disse que provavelmente eu não conseguiria andar nem falar. Meu pai me contou que naquele momento começou a chorar”, diz a jovem no livro que acabou de lançar, Imperfeitos, pela Maquinaria Editorial. 

Os pais foram os primeiros a acreditar no potencial da filha, oferecendo a assistência necessária para que ela se desenvolvesse. “A Julie sempre teve pequenas questões que os psicólogos e neuropediatras da época não conseguiam reunir e enquadrar dentro do diagnóstico do Transtorno de Espectro Autista. Até que, aos 15 anos, um psiquiatra pediu uma avaliação específica com uma neuropsiquiatra e foi através desse teste que foi possível verificar que alguns pontos se encaixavam”, afirma o pai, Mauro Goldchmit. 

Com o diagnóstico correto, os pais passaram a adaptar a rotina dela. “Antes, ela tinha muitas aulas extras para desenvolver o pedagógico que não conseguia acompanhar na escola. Nós adaptamos essas aulas ao que realmente tinha necessidade e, assim, a vida passou a ser mais tranquila”, lembra a mãe, Dafne Goldchmit.

Mas a fase escolar não foi fácil também por outros motivos, como declara Julie: “Na escola, ninguém queria brincar ou conversar comigo. Eu me sentia invisível. Tive uma infância solitária, assim como uma outra aluna que também tinha deficiência. Ela mal sabia ler e escrever. Eu lanchava sozinha no recreio. Ninguém parecia reparar na minha presença”. 

Para ela, as bonecas e os livros eram os melhores amigos. “Para a Julie, esse diagnóstico não mexeu com seu emocional. Para nós, os pais, descobrir foi um alívio. Tivemos, então, uma compreensão da nossa realidade. Isso nos ajudou a buscar formas para lidar com essas questões, trouxe um norte para adaptar as necessidades da Julie ao que ela realmente precisava, tanto em questões de currículo pedagógico quanto pessoais”, ressaltam Dafne e Mauro Goldchmit. 

A filha estudou na escola regular, aprendeu duas línguas e se desenvolveu. No livro Imperfeitos, Julie fala de sua trajetória e lembra os desafios para se inserir no mercado de trabalho. Certa vez, a jovem havia passado por duas entrevistas em uma empresa: “Aí, o diretor me disse que ia ver se tinha vaga. Fiquei muito brava e fui chorar no carro”, relata. A mãe a consolou: “Eu falei: ‘Julie, isso é a vida real’. A gente sempre tentou mostrar para ela o que é a vida real e não a proteger tanto”. 

Pensar grande

Vendo o sofrimento da filha, o pai ofereceu trabalho, mas ela queria estar em uma empresa grande. E, no dia 13 de maio de 2019, Julie começou a atuar na multinacional Unilever. “As pessoas me cumprimentavam, sorriam, conversavam comigo e se colocavam à disposição para me ajudar no que eu precisasse. A primeira semana foi de integração. Conheci pessoas novas, passei a tomar café e até almoçar com elas. Pela primeira vez, eu tive a oportunidade de levar marmita e almoçar com duas amigas que fiz nos meus primeiros dias na empresa”, afirma a assistente de marketing. 

Mas teve um bastidor antes dessa chegada: Julie fez uma espécie de guia para os colegas de empresa. “Eu tinha feito um ‘mapa’ de como eu funciono: trabalhar 4 horas, café e que necessito que as coisas sejam explícitas”, diz.

Assim como algumas pessoas que têm TEA, Julie apresenta dificuldade em lidar com situações que mudam a rotina de maneira abrupta, como o adiamento de reuniões ou esperar muito algo ocorrer. “Outro dia, fiquei muito chateada quando uma reunião atrasou.”

 

Antes de começar a trabalhar na Unilever, Julie Goldchmit, autora do livro 'Imperfeitos', criou uma espécie de guia, com dicas para colegas e outros funcionários saberem como lidar com ela. 

Antes de começar a trabalhar na Unilever, Julie Goldchmit, autora do livro 'Imperfeitos', criou uma espécie de guia, com dicas para colegas e outros funcionários saberem como lidar com ela.  Foto: Taba Benedicto

Em 2019, a Unilever lançou um compromisso em escala global de, até 2025, se tornar referência dos profissionais com deficiência. Planejado para ser totalmente acessível, o Programa de Estágio 2021 conseguiu alcançar pela primeira vez 5% de pessoas com deficiência na turma contratada. De acordo com o IBGE, mais de 17 milhões de pessoas com mais de 2 anos de idade vivem com alguma deficiência no Brasil. 

Em outubro de 2021, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) lançaram um guia de inclusão no mercado de trabalho. Julie pretende virar analista e ser embaixadora da causa na Unilever. “Para pessoas com deficiência, digo que também vão achar uma vaga, independentemente de tudo. Pode ser mais demorado, mas a gente encontra o nosso lugar.” A jovem quer mostrar que a inclusão de profissionais que têm autismo é um ganho para empresas e sociedade. 

Capa do livro 'Imperfeitos', de Julie Goldchmit; publicação conta trajetória de garota que descobriu diagnóstico de autismo aos 15 anos e hoje trabalha na Unilever. 

Capa do livro 'Imperfeitos', de Julie Goldchmit; publicação conta trajetória de garota que descobriu diagnóstico de autismo aos 15 anos e hoje trabalha na Unilever.  Foto: Maquinaria Editorial