Grupos nas redes sociais ajudam na construção da ideologia das jovens

Anita Efraim - Especial para O Estado de S. Paulo

Para muitas meninas, esses espaços são o primeiro contato com o feminismo

Há grupos com mais de 20 mil mulheres, nos quais os temas e as discussões são mais amplas com posts que variam de conselhos amorosos até denúncias de assédios

Há grupos com mais de 20 mil mulheres, nos quais os temas e as discussões são mais amplas com posts que variam de conselhos amorosos até denúncias de assédios Foto: Pixabay

As redes sociais pautam a vida de muitos jovens hoje em dia, mas nota-se que, para as mulheres, essa influência é ainda maior graças aos grupos do Facebook. Meninas de todos os lugares do Brasil estão nesses espaços online para debater temas como feminismo, sexualidade, preconceito e quebrar certos tabus sobre os quais não costumam falar em ambientes sociais. Para muitas, esse é o primeiro contato com o feminismo. 

Há grupos com mais de 20 mil mulheres, nos quais os temas e as discussões são mais amplas com posts que variam de conselhos amorosos até denúncias de assédios. Outros são mais restritos, definidos por posicionamento político, religião, orientação sexual e localização geográfica. O que todos têm em comum é que são espaços de empoderamento feminino e de desconstrução. 

A terapeuta Heloísa Capelas, especialista em autoconhecimento e inteligência comportamental, explica que o uso das redes sociais fortalece o diálogo entre jovens e facilita o relacionamento entre pessoas que, sem a internet, talvez nunca se conheceriam. “Essa troca tem tudo para ser muito positiva. Afinal, as informações estão ao alcance delas como nunca estiveram antes, assim como a possibilidade de conversar, de aprender, de ganhar conhecimento, de ganhar maior compreensão sobre os próprios deveres e direitos”, opina. 

A troca de ideias que acontece nesses espaços virtuais tem um forte poder de mudança nas jovens que participam dele. Thaís Valente, de 22 anos, foi uma das pessoas cuja visão de mundo se transformou quando conheceu o feminismo nesses grupos. “Antes de tudo eu vivia em uma bolha. Sou uma pessoa criada na elite, então, eu não conseguia enxergar muito bem o que era o mundo”, diz a estudante. 

Thaís opina que estar nestes ambientes é uma oportunidade de aprender, de reconhecer seus privilégios e entender o lado de outras pessoas. “Eu reproduzia ideias machistas, reconheço isso, e foi algo que mudou muito em mim. Na sociedade sempre tentam diminuir as mulheres de alguma forma, então, além de eu me empoderar, agora eu ajudo outras meninas a se empoderarem”. 

“Até o meu posicionamento político mudou depois do grupo. Eu era muito fechada, mas lá eu quis ouvir o outro lado, sair da bolha. Quando eu comecei a considerar as coisas que as pessoas me falavam, eu passei a moldar minha própria ideologia”, diz a estudante.  

Na visão de Heloísa, é inegável que a internet contribua para disseminar ideologias e fortalecer a luta feminista. “As redes são facilitadoras, na realidade, de um processo de longa data. A luta pelo empoderamento  da mulher não vem de hoje, mas está, sim, cada dia mais latente com a ajuda desse amplo debate que tem se aberto com a ajuda do Facebook, do Youtube, do Twitter etc. Essas ferramentas servem para que a mulher tenha a coragem de falar, de se expor, de conquistar o espaço que já lhe pertence e que lhe está sendo consistentemente negado pelo machismo”, explica a psiquiatra. 

Pontos negativos. Ao mesmo tempo que os grupos são espaços de debate e de adquirir conhecimentos, há os pontos negativos. Nos que há mais membros, existem casos de vazamentos de informações dos grupos. Exemplos comuns são relatos de meninas sobre ex namorados que chegam a pessoas que não estão no grupos. 

Além disso, Thais relata que, mesmo que o grupo seja de desconstrução, ainda há muita reprodução de machismo por parte de algumas participantes. “Elas acham que problematizar tudo não é válido nem necessário, o que atrapalha a dinâmica das discussões”. 

Moderação. Por trás desses grupos há as meninas que os criaram e têm o constante trabalho de moderar o grupo. São elas que aprovam a entrada de novas mulheres, estabelecem as regras, os assuntos que são pertinentes, isto é, se preocupam com o bom andamento do espaço virtual.  

Luiza Thomé é moderadora do Esquerdeusas, que surgiu depois de brigas em outro grupo de mulheres. “Eu e diversas outras meninas sentimos que havia uma sobrecarga de posts um tanto quanto maçantes. Além da possibilidade de diálogo baixa devido ao posicionamento político de outras integrantes do grupo. Com isso, pelo feminismo ser um movimento historicamente de esquerda e muito atrelado a política, resolvi criar um grupo em que os dois assuntos pudessem ser discutidos com mais fluidez”, explica. 

A jovem diz que, em apenas três meses, já são mais de 1,5 mil mulheres de 16 a 30 anos, todas com posicionamento político de esquerda. “O principal objetivo do grupo é criar um espaço de debate aberto, horizontal e livre. Um espaço no qual as discussões pudessem variar desde política até relacionamentos amorosos, prezando muito pela segurança das meninas”.

Capa do grupo Esquerdeusas no Facebook

Capa do grupo Esquerdeusas no Facebook Foto: Reprodução

Na opinião de Luiza, o que mais é construtivo no ambiente feminino construído por quem integra o grupo é a empatia e a sororidade que existe entre elas. “Além de compartilhar informações, notícias, textos e diversos materiais de leitura para enriquecimento do conhecimento das pautas, nós prezamos muito em ser um ambiente no qual as meninas se sintam seguras em estar e compartilhar de tudo, desde medos até conquistas pessoais. Nós somos uma grande família que tem se apoiado, tem buscado permanecer juntas e lutar juntas pelas ideias que acreditamos.” 

Heloísa explica que o processo de integrar um grupo como esse é enriquecedor do lado intelectual e também emocional, porque “descobrir que não somos as únicas a vivenciarem determinada situação pode ser um divisor de águas na vida de qualquer pessoa. E compartilhar essas histórias e sentir que estamos sendo ouvidas é igualmente transformador”. É esse aspecto que torna os espaços femininos poderosos. 

Além de moderar o Esquerdeusas, Luiza e outras de mulheres criaram o projeto Rede de Ajuda das Manas, um grupo de apoio de meninas que conta com a ajuda de uma psicologa. 

Amizades criadas nos grupos. Thaís afirma que, além de ter aprendido nestes espaços, fez novas amigas. “Uma coisa muito legal destes grupos é a união de que eles promovem entre as mulheres. Eles tiraram de mim a ideia de que as garotas têm de competir. Nós somos muito melhores juntas”, opina a estudante. 

Luiza conta que no Esquerdeusas já aconteceram até encontros para que as meninas se conhecessem além do ambiente virtual. “Nós evoluímos de integrantes do mesmo grupo para amigas. Nos juntamos uma tarde no Parque do Ibirapuera e fizemos um piquenique coletivo para nos conhecermos pessoalmente e conversar sobre diversos assuntos. Isso empodera. Estreitar laços com mulheres empodera”, diz a moderadora. 

O site Lado M listou sete grupos de empoderamento feminino no Facebook

Fernanda Frazão
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