Grupo de dança revitaliza suas apresentações com dançarinas idosas

Siobhan Burke - The New York Times

'É assustador estar no palco – nunca tinha feito isso. (...) Pensei que havia chegado a hora de fazer algo que me desse medo', conta Pearl Frisch, de 76 anos

Larissa Velez-Jackson, no centro, com o microfone, e outros membros do elenco

Larissa Velez-Jackson, no centro, com o microfone, e outros membros do elenco Foto: Sasha Arutyunova para The New York Times

Nova York – “Mantenha os braços pesados, sinta o peso do passo”, avisou a coreógrafa Larissa Velez-Jackson às artistas, um grupo de mulheres de 66 a 87 anos, enquanto elas tentavam andar como modelos de passarela em um estúdio do New York Live Arts. Depois de alguns passos, elas paravam como se estivessem posando para uma câmera e lançavam olhares sedutores.

“Acho que estamos gostando que tirem nossa foto”, aprovou Velez-Jackson enquanto passeava entre elas.

Ela dirigia um ensaio de Give It To You Stage, uma extravagância em dois atos com canções e danças que estreou recentemente no Live Arts. O espetáculo é um projeto do Yackez, o duo artístico de Larissa, de 40 anos, e seu marido Jon Velez-Jackson, de 39. Ele tem experiência em composição musical – os dois escrevem e produzem todas as suas canções – enquanto ela é responsável pela parte coreográfica.

Stage, sua maior produção até hoje, compila números antigos e novos em um musical semiautobiográfico que fala de tópicos que vão de terapia de casal e noite do primeiro encontro às dificuldades de se viver como artista em Nova York. Os Velez-Jackson interpretam Twitta e Papi Jon, um par de aspirantes a estrelas parecido com eles mesmos.

Bonnie Yarry, uma das alunas de aeróbica de Velez-Jackson, mostrando a estética Yackez 

Bonnie Yarry, uma das alunas de aeróbica de Velez-Jackson, mostrando a estética Yackez  Foto: Sasha Arutyunova para The New York Times

Desde o primeiro espetáculo em 2011, o Yackez trouxe um elenco de personagens de vaudeville a seu espaço, com uma comitiva crescente de dançarinos de apoio – chamado de 'conjunto de dança das bichas lutadoras profissionais' – que reforçam as performances estridentes do par. “Há uma fluidez na maneira como eles permitem que as pessoas habitem o trabalho, e também uma especificidade”, diz Laurie Berg, que representa a personagem Coach, guarda-costas mascarada de Twitta.

Para Stage, a trupe cresceu ainda mais ao incluir 11 mulheres da vida paralela de Larissa como instrutora de aeróbica de idosos, uma carreira que veio antes da fundação do Yackez. Muitas delas nunca dançaram em um contexto profissional.

“É assustador estar no palco – nunca tinha feito isso”, conta Pearl Frisch, de 76 anos. “Mas você entra em uma rotina quando fica mais velho, e pensei que havia chegado a hora de fazer algo que me desse medo.”

Larissa Velez-Jackson planejava há tempos integrar suas aulas de ginástica e o trabalho com as performances. “O Yackez é um projeto familiar – se você pensar de onde ele veio, marido e mulher – e eles são minha família de dança”, explicou ela recentemente em um café acompanhada de Jon, referindo-se a seus alunos de aeróbica da YMCA do West Side, da Rua 92 Y e do Centro Comunitário Goddard Riverside. “É a dança que faço todos os dias, a comunidade com quem trabalho diariamente.”

  

   Foto: Sasha Arutyunova para The New York Times

Trazer os alunos para o Stage significou introduzi-los à estética do Yackez, no qual influências como hip-hop, comédia física, tango, luta livre, rap, performances de drags, improvisação e aeróbica se unem para produzir um tipo de caos premeditado. Apesar de Larissa ter tentado manter o material simples, não muito diferente do que os alunos fazem nas aulas de aeróbica, a transição da sala de exercícios para o palco levou tempo.

“As tarefas variam dependendo da música”, contou Larissa Velez-Jackson. “Para alguns é uma linha tonta de conga, outras vezes só quero uma presença austera. Para mim, isso é o mais difícil: Como você mantém, especialmente alguém que nunca desempenhou um papel antes, uma presença austera, confiante em um palco grande com toda essa bagunça acontecendo ao redor?”

Para Frisch, um dos desafios foi aprender a conduzir no tango. Mas mesmo para aqueles com mais experiência, como Sharon Flanagan, que esteve em competições de dança de salão, houve uma curva de aprendizado.

“Larissa ensina a arte da performance”, conta Flanagan, de 75 anos. “Por isso não é só se levantar e fazer os passos, coisa que fazia no passado. A ideia é onde está seu foco, é estar atenta e presente da maneira certa.”

Jon e Larissa Velez-Jackson, a dupla conhecida como Yackez

Jon e Larissa Velez-Jackson, a dupla conhecida como Yackez Foto: Sasha Arutyunova paraThe New York Times

Larissa Velez-Jackson se preocupava com a possibilidade das alunas não gostarem da música do Yackez, que tende a ser mais abrasiva, com letras mais explícitas, do que a salsa e o soul que toca nas aulas, mas segundo ela as dançarinas foram muito receptivas.

“Acho que talvez haja um estereótipo de que as pessoas mais velhas vão ficar ofendidas com o uso de algumas palavras ou conceitos, mas isso não é necessariamente verdadeiro”, diz Frisch.

Jon Velez-Jackson – que é jornalista quando não está produzindo músicas digitais – vem trabalhando cada vez mais perto de dançarinos de apoio mais novos, fazendo música para lutas livres inspiradas pela teatralidade da World Wrestling Entertainment, uma obsessão que compartilha com Larissa.

“Gostamos do entretenimento, não?”, perguntou ele, olhando para ela. “Como se disséssemos: tudo bem se divertir em uma apresentação de dança. Pode ser surreal e estranho e ainda assim engraçado.”

Apesar de todas as piadas sobre a fama e o fracasso que as letras do Yackez cantam, eles conseguiram fãs devotados. Como uma dançarina nova disse a Larissa durante o ensaio: “Somos seus seguidores, somos suas fãs. É isso que estamos fazendo aqui”.