Freira rapper se apresentará para o papa Francisco na Colômbia

Luis Robayo e Rodrigo Almonacid - AFP

María Valentina está animada para cantar para o pontífice durante sua passagem pelo país

María Valentina, a 'freira rapper', canta durante um show junto ao grupo de Músicos Católicos Unidos, em Cali, na Colômbia

María Valentina, a 'freira rapper', canta durante um show junto ao grupo de Músicos Católicos Unidos, em Cali, na Colômbia Foto: Luis Robayo / AFP

Ela usa sapatos esportivos, canta rap e já participou de um reality show. Agora, a freira María Valentina de los Ángeles realizará seu sonho de cantar para o papa Francisco em sua visita à Colômbia.

Conhecida por sua alegria e carisma, esta jovem de Bogotá de pele morena e baixa estatura colabora com o conjunto musical ganhador de um concurso local que elegeu o hino que embalará a passagem do papa.

O 'prêmio' é interpretar a canção ganhadora, Demos el primer paso, um pop de pouco mais que quatro minutos e que inclue uma estrofe em rap, enquanto o pontífice argentino se movimenta entre a multidão de fiéis colombianos.

Francisco, um dos apoiadores do acordo que selou a paz com a maior guerrilha da Colômbia, depois de meio século de conflito, estará em Bogotá, Medellín, Villavicencio e Cartagena, entre os dias 6 e 10 de setembro.

Freiras da congregação das Comunicadoras Eucarísticas do Pai Celestial

Freiras da congregação das Comunicadoras Eucarísticas do Pai Celestial Foto: Luis Robayo / AFP

Será "uma oportunidade para mostrar-lhe nosso carinho através do que sabemos fazer, que é a música", disse María Valentina, 28, à AFP, que cantará uma canção junto a duas dezenas de músicos da fraternidade Músicos Católicos Unidos (MCU).

A religiosa se tornou conhecida no país após participar, no ano passado, do reality A otro nivel, em que cantou rap com tamanha naturalidade que o MCU a convidaram para compor e cantar uma estrofe do tema que, no começo de agosto, foi escolhido como o ritmo oficial de Francisco em terras colombianas.

"Colômbia te recebe com os braços abertos / a uma só voz te dizemos muito contentes / bendito seja Deus, que, em sua sabedoria, te trouxe a nossas terras para ser seu guia", canta a freira.

"Amante de todos os gêneros musicais, se tiverem "um conteúdo bonito e profundo", destaca o espírito de protesto do rap, ritmo com raízes negras surgido nos Estados Unidos, na década de 1960.

"O legal do rap é que fica fácil na cabeça, e quando tem a profundidade de uma verdade, como é Cristo, fica ainda mais marcante", afirma.

Ela considera que esse gênero reivindicativo se ajusta à consignação papal aos jovens: "Fazer bagunça". "Bagunça, no contexto e na linguagem do santo padre é serem diferentes, serem atrevidos, levando uma mensagem de alegria, esperança e caridade", explicou.

Maria Valentina de los Angeles, a 'freira rapper'

Maria Valentina de los Angeles, a 'freira rapper' Foto: Luis Robayo / AFP

Ela crê que agradará ao papa com uma mescla de sons de Demos el primer paso. Francisco "é latino, porém, nossa intenção, mais que agradar ao santo padre, é ser igreja, e que toda gente possa cantar conosco", acrescentou.

María Valentina não é uma freira tradicional. Disse que, por "comodidade", prefere usar tênis em vez de sandálias. Toca uquelelê e, em sua adolescência, foi guitarrista de rock.

Além disso, superou o mal de Nash, uma doença hepática que lhe foi diagnosticada quando menina, e que a obrigava a fazer um transplante de fígado quando se tornasse maior de idade.

Aos 16 anos, conta, os médicos se surpreenderam, porque, em um exame de rotina, não havia rastro do problema. Ela atribuiu sua cura a Deus, e um ano depois se converteu à vida consagrada, sem abandonar sua paixão pela música.

"Meu sonho como música é ser uma boa religiosa e fazer músicas, e fazer música é o segundo [sonho]. Quero gravar mais, e que as pessoas, mais que se apaixonarem pela minha voz, se encantem com Jesus", apontou.

Congregação de freiras joga uma partida de futebol em Cali, na Colômbia

Congregação de freiras joga uma partida de futebol em Cali, na Colômbia Foto: Luis Robayo / AFP

Além de seu reconhecimento como solista, que lhe permitiu gravar um disco intitulado Dime y dame, a religiosa faz parte da Comunidade das Comunicadores Eucarísticas do Padre Celestial, da Arquidiocése de Cali.

Essa comunidade surgiu através do pedido de Juan Pablo II aos artistas, para que evangelizassem através de suas criações.

"Na igreja há vários ritmos, várias pessoas que têm diferentes formas de amar e de louvar a Deus", assinalou a madre superiora, Gabriela del Amor Crucificado, à AFP.

Na congregação há uma produtora de televisão e um grupo musical, do qual faz parte María Valentina, que gravou duas produções de discografia.

"[Deus] quer ser conhecido através de todos os meios e [...] temos que fazê-lo ser conhecido com o que é tendência", afirma María Valentina.

*Tradução de André Carlos Zorzi

Ouça à música Demos el primer paso (a participação de María se inicia em 2m20s):

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