Fotógrafo turco boicota casamento com menor e vira herói

Agência Ansa - ANSA

Onur Albayrak chegou a brigar com o noivo quando descobriu que menina com quem ele ia casar tinha 15 anos

Um fotógrafo turco se recusou a trabalhar em um casamento envolvendo uma menor de idade e virou símbolo de resistência no país sobre o assunto

Um fotógrafo turco se recusou a trabalhar em um casamento envolvendo uma menor de idade e virou símbolo de resistência no país sobre o assunto Foto: Pixabay/JESHOOTScom

O fotógrafo de casamentos Onur Albayrak chegou a uma festa em Malatya, no sudeste da Turquia, na semana passada, imaginando um dia de trabalho comum, entre retratos românticos e imagens de celebração.

Mas, quando viu a esposa, percebeu imediatamente que algo estava errado. "Percebi que ela tremia e perguntei quantos anos tinha. Primeiro disse 15, depois, 16. Então me virei e me preparei para ir embora", contou Albayrak à imprensa local, em mais um exemplo do fenômeno das 'esposas meninas' na Turquia. 

A reação do fotógrafo enfureceu o noivo, que queria obrigá-lo a fazer o trabalho. Albayrak se recusou, e iniciou-se uma briga com o esposo, que acabou até com o nariz quebrado. "Ouvi que queriam me denunciar. Que o façam. Eu só fotografei uma realidade deste país", disse. 

Desde então, o fotógrafo virou uma celebridade nas redes sociais na Turquia, onde muitos o consideram um herói. Ele contou que já recebeu mensagens de mais de cem cerimonialistas prometendo boicotar casamentos que envolvam menores de idade.

"Estou feliz por ter contribuído para sensibilizar sobre o problema. Nos últimos dois dias, meu telefone não parou de tocar", revelou ele. Segundo a lei turca, a idade mínima para o matrimônio é de 18 anos, que pode cair para 17 em situações excepcionais e com autorização judicial.  

Ainda assim, casamentos com adolescentes continuam sendo comuns no país, especialmente em áreas mais conservadores do sudeste. De acordo com o Instituto Nacional de Estatística, cinco por cento dos matrimônios na Turquia têm noivas menores de idade, mas organizações não-governamentais garantem que o número é maior, já que muitos casamentos religiosos não são registrados imediatamente.

No ano passado, o governo aprovou uma contestada lei que permite aos muftis, autoridades muçulmanas reconhecidas como funcionários públicos, celebrarem casamentos com valor legal. A medida foi apoiada pelo presidente Recep Tayyip Erdogan, para "facilitar os procedimentos", porém, para a oposição, reduz o controle do Estado sobre as 'esposas meninas'.