Filhos não vivem para sempre

Jayson Greene - The New York Times

Tendo um filho morto, decidi ser pai novamente. Não pode haver maior exemplo de estupidez ou coragem; insanidade ou lucidez; orgulho ou virtude

Filhos não vivem para sempre

Filhos não vivem para sempre Foto: Elisa Talentino / The New Yotk Times

Minha filha Greta tinha 2 anos quando morreu - ou antes, quando foi morta. Um bloco de alvenaria caiu do oitavo andar de um edifício mal conservado e atingiu-a na cabeça quando ela estava sentada com a avó num banco no Upper West Side de Manhattan. Ninguém mexera no bloco: não fora deslocado pela botina de um operário, nem escapara de mãos descuidadas. Uma negligência, somada a uma série de falhas burocráticas, fez com que ele simplesmente se soltasse, tornando-se um pedaço de calamidade impessoal enviado para rearranjar a estrutura e o significado de nosso universo.

Greta foi levada às pressas para o hospital e submetida a uma cirurgia cerebral. Não chegou a recuperar a consciência: teve morte cerebral. Minha mulher e eu doamos seus órgãos. Era nossa filha única.

O incidente foi improvável bastante para virar notícia. Pedidos de entrevista encheram nossos e-mails enquanto ainda estávamos ao lado do leito de nossa filha; caminhões de TVs vasculharam Manhattan a nossa procura. Quando deixamos o hospital, vi pelo canto do olho minha filha me acenando: uma sua foto, do Facebook de minha mulher, estampava a capa do jornal The Daily News.

Pelo ano seguinte, continuamos sendo exemplo dos caprichos do destino, do cruel absurdo da vida na cidade grande. "Ah, vocês são aquele casal", disse gravemente um pai quando nos apresentamos num grupo de apoio a pais enlutados. A atenção foi ao mesmo tempo desconcertante e confortadora. Conhecemos casais cujos filhos tinham morrido em casa, com apenas a abalada família para confortá-los. Aquelas preocupações e cuidados conosco traziam algum alívio, que aceitei e ao mesmo tempo repeli.

Sete semanas atrás, nasceu nosso segundo filho - um menino, irmãozinho de Greta. A diferença de idade entre os dois era de exatamente três anos e meio. Com o nascimento, tornei-me pai de um filho vivo e pai de um espírito - um, deste lado da vida; a outra, sussurrando do lado de lá. A confusão é constante. Tendo um filho morto, decidi ser pai novamente. Não pode haver maior exemplo de estupidez ou coragem; insanidade ou lucidez; orgulho ou virtude.

Deitado no tapete com meu filho, falando-lhe baixinho e mostrando-lhe coisas que pudessem captar seu interesse, como fazia com sua irmã, eu ansiava para que ele sentisse o toque dela. Aí me lembrei, de repente, que nós não íamos ter esse filho. Dizíamos sempre que Greta bastava - para que outro? Senti medo. Ele não existiria se a irmã não tivesse morrido. Tenho dois filhos. Onde está o outro?

Ser pai já é, em si, um processo assustador. Mas, após a morte violenta de um filho, os cálculos ficam ainda mais sombrios. Que significará meu trauma para esse ser feliz e descomplicado que vive sob meus cuidados? Afetará as escolhas que faço por ele? Será que vou dar a ele um mundo pior, mais assustador, que o que dei a Greta? Estará condenado a viver à sombra do que aconteceu com a irmã?

Quando Greta nasceu, minha mulher, Stacy, e eu vivíamos checando-a no berço, nos assegurando de que continuava respirando. Nessa época, fomos à casa de uma amiga, mãe de dois, e Stacy fez uma piada nervosa sobre o assunto. A mulher sorriu e garantiu: "Eles estão sempre respirando".

Imagino que seja assim com todos os pais. Você começa a se ajustar à realidade da contínua existência de seus filhos. O futuro deles toma forma em sua mente. Eles estão sempre respirando, você se repete.

A vida é precária, cheia de sustos que abalam toda a família. Bebês caem do berço, há cadeiras em seu caminho, brinquedos minúsculos que podem engolir, detergentes e remédios esquecidos que os intoxicam.

Mas você não vê a morte em cada canto, apenas desafios. A parte de você que ficava calculando as probabilidades contra e a favor de sua filha meio que adormece.

Com 2 anos, sua filha é uma pessoa - tem opiniões e crenças, preferências e tendências, amigos e comidas favoritas.

Que acontece quando de repente essa criança é morta por uma pedra desgarrada, no exato momento em que você havia parado de pensar que algo assim pudesse acontecer?

Quando daqui a anos eu estiver num playground, vendo meu filho cair de um dos brinquedos, talvez não entre em pânico. Mas uma parte de mim vai se lembrar: um coração pode parar. Ouvindo um coraçãozinho bater pela primeira vez durante uma ultrassonografia e, dois anos depois, vendo o médico examinar pupilas inertes, você deixa de pensar que o batimento do coração não para - ele está sujeito a muita coisa. A mais indesejada mensagem da história humana é: filhos - os seus, os meus - não vivem necessariamente.

Quando entendi que Greta não viveria, quis apenas morrer. Simples assim. Podia sentir meu coração me perguntando, entre uma batida e outra: "Tem certeza de que quer que eu continue?". Mas descobri que não podia dar a ordem de parar.

Desde que meu filho nasceu, me vejo fazendo planos concretos de me suicidar no caso de ele morrer. Rabiscaria uma carta para meus pais, ou lhes diria pessoalmente: "Vou me encontrar com meus filhos". Se o mundo levar este segundo, não pretendo continuar por aqui. É um pensamento aterrador, por ser tão lógico. Como poderia alguém me contestar? Quem mesmo tentaria?

Não acredito que algo de ruim vá acontecer com ele até os 2 anos. Faz algum sentido: nada de mau aconteceu com Greta durante essa fase. Não acordo no meio da noite para ver se está tudo bem com ele. Nem mesmo me contraio, preocupado com seu frágil pescocinho, quando alguém o pega desajeitadamente no colo.

No entanto, uma parte de mim está sombriamente certa de que ele, sem dúvida, vai morrer aos 2 anos. A evidência está comigo: 100% de meus filhos tiveram esse destino. Enquanto carrego meu bebê pelo mundo - esse mundo congestionado, barulhento, infectado - seguro um alento. Só vou relaxar quando ele for exatamente um dia mais velho que Greta.

Durante o parto de meu filho, debrucei-me sobre minha mulher enquanto ela fazia força, como quando Greta nascera. Então, por um momento, fechei os olhos e senti o cheiro da gaze no leito de morte de minha filha.

Meu filho nasceu com uma brancura doentia, com o cordão umbilical enrolado no pescoço, e ficou em silêncio por um segundo que durou uma eternidade, até chorar e minha mulher abraçá-lo e chorar também. "É um bebê milagroso, espero que vocês entendam isso", disse a parteira. Era a mesma mulher que entregara Greta à mãe. Greta fez logo seu primeiro cocô na barriga de Stacy e chorou, agitando os pezinhos como um pássaro preso em petróleo.

Filhos, hospitais, sangue: é tudo um redemoinho confuso de alegria e agonia. Em algum lugar de meu subconsciente vejo minha filha numa balança, sendo pesada após nascer. Mas no mesmo momento ela é levada, azulada e fria. Sou só um espectador. Não posso proteger seu corpo, salvá-la.

Minha mulher e eu ainda somos jovens. Com o nascimento de meu filho, assumimos um novo compromisso aqui na Terra. Meu filho sempre terá uma irmã morta. Quando eu chegar aos 50, meu coração continuará a doer como dói agora. Filhos permanecem mortos de um modo diferente dos adultos. Em manhãs sombrias, na luz errada, continuarei vendo tudo cinza.

Felizmente, não é sempre assim que vejo o mundo. Um dia de brisa suave, um bom trago, o riso de minha mulher, a cabeça de meu filho em meu peito - tudo isso ajuda a dispersar a tristeza. Olho para meu garoto, um bebê já ficando gordinho, e o mundo, o mesmo que matou estupidamente minha filha, volta a ser bom.

Tradução de Roberto Muniz