Festival promove integração entre ritmos musicais e agrada ao público

Charlise Morais - O Estado de S.Paulo

O Música em Trancoso não se restringiu aos palcos. Foi às ruas, escolas, praças, bosques e até à praia, para aproximar a música da população

Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro se apresenta na abertura do festival Música em Trancoso, no Teatro L'Occitane

Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro se apresenta na abertura do festival Música em Trancoso, no Teatro L'Occitane Foto: Marcos Hermes/ Mozarteum Brasileiro

TRANCOSO - A cidade de Trancoso, no sul da Bahia, tradicionalmente conhecida por suas casinhas coloridas e por suas praias de tonalidade azul turquesa, ficou ainda mais atrativa no mês de março. Entre os das 3 e 10, o festival Música em Trancoso deixou a cidade mais alegre, proporcionou uma integração curiosa entre ritmos diferentes, intercâmbio entre profissionais da música brasileiros e extrangeiros, iniciantes e renomados, e aproximou a música clássica da população local.

Essa foi a sétima edição do evento, idealizado e produzido pelo Mozarteum Brasileiro, cujo objetivo é valorizar e difundir a cultura musical, além de colaborar para promover as belezas naturais e estimular o desenvolvimento econômico local.

"O evento consolidou-se também como uma alternativa econômica para a região, gerando negócios e oportunidades de empregos para a população local na baixa temporada, além de ter um inestimável valor sociocultural. Nada mais justo que seus moradores possam usufruir de espetáculos exclusivos e de altíssima qualidade", argumenta Sabine Lovatelli, presidente do Mozarteum.

A mezzo-soprano austríaca Angelika Kirchschlager, a cantora de jazz americana Brenda Boykin e a de rock marroquina Mennana Ennaoui misturaram suas vozes e estilos na noite Divas, no Teatro L'Occitane

A mezzo-soprano austríaca Angelika Kirchschlager, a cantora de jazz americana Brenda Boykin e a de rock marroquina Mennana Ennaoui misturaram suas vozes e estilos na noite Divas, no Teatro L'Occitane Foto: Marcos Hermes/ Estadão

Durante as oito noites do festival, o público pôde apreciar apresentações de música clássica, ópera, breakdance, jazz & soul, rock e até canções dos musicais da Broadway. Teve música para diversos gostos, mas também foi possível presenciar misturas inusitadas entre todos - ou a maioria - dos ritmos citados. Canções conhecidas e a mistura do clássico com o popular atraiu públicos de todas as idades e classes sociais.

O grupo Red Bull Flying Bach levou o breakdance para a Praia dos Nativos

O grupo Red Bull Flying Bach levou o breakdance para a Praia dos Nativos Foto: Marcos Hermes/ Mozarteum Brasileiro

O Teatro L'Occitane, especialmente construído para abrigar o evento, recebeu cerca de 9 mil pessoas no período. Mas, quem não pôde comparecer às apresentações, já que todas as entradas foram vendidas antecipadamente - não ficou de fora. O Música em Trancoso não se restringiu aos palcos. Foi às ruas, escolas, praças, bosques e até à praia, para aproximar a música da população e dos turistas. 

O maestro Carlos Moreno e a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro apresentam a peça 'Pedro e o Lobo' no Bosque do Quadrado

O maestro Carlos Moreno e a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro apresentam a peça 'Pedro e o Lobo' no Bosque do Quadrado Foto: Marcos Hermes/ Estadão

As atrações gratuitas e ao ar livre proporcionam o acesso à cultura e estimulam a descoberta de ritmos, de instrumentos e, sobretudo, de possibilidades, para as crianças da região. Prova disso foi a criação da Orquestra Jovem de Verão Trancoso, formada por 12 jovens músicos nascidos na Vila de Trancoso, que recebem incentivo e patrocínio para estudar música e se desenvolver profissionalmente. Além disso, esses jovens têm espaço reservado na programação do festival - e alguns deles também integram a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro - e podem aproveitar a ocasião para mostrar seus talentos para a comunidade e para os profissionais presentes. "Acerteza de que estamos ajudando na evolução dessa garotada, tanto pessoal como profissionalmente, é extremamente gratificante", afirma o maestro Carlos Moreno.

O violoncelista Gabriel Magalhães, 14 anos, é o mais jovem integrante da orquestra do maestro Carlos Moreno

O violoncelista Gabriel Magalhães, 14 anos, é o mais jovem integrante da orquestra do maestro Carlos Moreno Foto: Marcos Hermes/ Mozarteum Brasileiro

Descobrindo talentos. Gabriel Magalhães, 14 anos, é o integrante mais jovem da orquestra. O violoncelista, filho de um mecânico e de uma cozinheira, se interessou pela música ao ver os irmãos mais velhos e o primo tocando instrumentos de corda. Bolsista em um colégio particular e também em uma escola de música em Trancoso, foi selecionado pelo maestro para integrar a orquestra local. Estreou este ano, após um treinamento intensivo com  Moreno.

"A experiência que eu mais gostei foi a comunicação entre os músicos, a troca de olhares, e a [Orquestra Acadêmica] Mozarteum tem muito isso. Tinha umas partes muito difíceis e eu tava me sentindo um pouco inseguro, mas olhava para o colega da frente, para o de trás, e ele me passava um sinal e eu conseguia tocar", disse o violoncelista. 

Seu sonho agora, confome revelou ao E+ é terminar a escola, seguir estudando violoncelo sozinho e conseguir apoio para estudar com um professor de renome uma vez por mês em outra cidade. "O problema é que não tem uma orquestra profissional aqui na região, então temos de sair para estudar e esperar a época do festival e os eventos que são promovidos ao longo do ano por aqui para ter mais aulas e contato com outros músicos", explica Gabriel.

O Música em Trancoso é realizado todos os anos entre os feriados de carnaval e Páscoa. Ficou curioso? Ou gostou da experiência e quer

repetir? Fique atento: em 2019, o festival vai ocorrer entre os dias 23 e 30 de março. 

O E+ viajou a convite do Mozarteum Brasileiro