Fama e infância podem andar juntos sem prejudicar a criança?

Anita Efraim - Especial para o Estado de S. Paulo

Especialistas recomendam que, ao longo da carreira, seja feito um acompanhamento psicológico para enfrentar as dificuldades

Isabelle Drummond e Bruna Marquezine são exemplos de atrizes que começaram cedo na televisão

Isabelle Drummond e Bruna Marquezine são exemplos de atrizes que começaram cedo na televisão Foto: Reprodução

Há vários artistas que o público viu crescer na televisão. Bruna Marquezine, Isabelle Drumond, Fernanda Souza, David Lucas e Sérgio Malheiros são alguns exemplos. Mas será que a fama e a infância combinam? 

De acordo com a psicóloga Ana Beatriz Chamati, especialista em terapia infantil e orientação parental do Núcleo Paradigma, a exposição tem lados positivos e negativos. "A exposição da imagem em razão da fama pode proporcionar mais oportunidades de educação, cursos, viagens, acesso a oportunidades que podem preparar a criança para o mundo melhor do que a estrutura que a família possuía antes da fama do filho", opina. 

Por outro lado, Ana Beatriz ressalta que as relações por interesse podem ser consequências negativas da fama nesta fase da vida. Às vezes, 'amigos' se aproximam com a intenção de ficarem famosos ou de se aproveitarem dos benefícios que a exposição trás. "Colocar os aspectos positivos e negativos na balança e encontrar esse equilíbrio é sempre a melhor opção", opina. 

Lia Pitliuk, psicóloga, psicanalista, professora e supervisora do curso Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, por outro lado, acha difícil encontrar maneiras de a fama ajudar a infância. "Em termos psíquicos não consigo enxergar coisas boas trazidas pela fama, ao menos tal como ela é produzida hoje em dia pelos meios de comunicação", opina.

Fama dos filhos. Os pais têm relação direta com a fama dos pequenos, já que alguns atuam como empresários dos próprios filhos. A presença deles é importante para não deixar que a carreira afete a vida da criança de forma negativa. 

No entanto, há casos em que os próprios pais pressionam os filhos e depositam expectativas demais neles. É o que explicam os psicanalistas Ana Karlik e Lucas Simões Sessa: eles podem usar seus filhos como meio de satisfazer os ideais que não conseguiram concretizar sozinhos. "Ou ainda que identifiquem em seus filhos potenciais e aptidões nos quais se esforçam em investir a despeito do desejo e do interesse do próprio filho, que acaba por ficar encarregado de sustentar em sua vida a realização de um ofício que não partiu dele e que, se pudesse escolher, não seguiria aquele caminho", apontam. 

A psicóloga Lia Pitliuk concorda e diz que as situações mais saudáveis são aquelas em que os pais não se deslumbram "e consigam enxergar a criança como ela é, com seus talentos, pontos fracos, necessidades, características, etc". 

Para que os pais consigam ajudar os filhos a lidarem bem com a fama é preciso conversar com as crianças e saber tudo que acontece ao redor deles. "Mas, mais que tudo, acho que a melhor blindagem ou preparo que podem dar é o fato de amarem e quererem mais a criança propriamente dita do que a fama dela", conclui Lia.

Redes sociais. A internet mudou a maneira como as pessoas interagem com aqueles que se expõe na mídia. Um caso recente que chamou atenção foi a da cozinheira mirim Valentina, participante do MasterChef Júnior. A menina de 12 anos sofreu diversos assédios nas redes sociais por ser considerada "a mais bonita do programa". 

Para Ana Beatriz, no geral, já há pouco senso crítico ao fazer um comentários nas redes e não pensam nas consequências do que escrevem. "Esses comentários podem gerar ou influenciar, por exemplo, bullying, sentimentos de ansiedade, depressão e, em alguns casos, junto a outros malefícios que a fama pode trazer dentre outros aspectos envolvidos, acarretar no desenvolvimento de algum transtorno psiquiátrico, por exemplo." 

A psicóloga, especializada em terapia infantil, recomenda que, ao longo da carreira, seja feito um acompanhamento psicológico ou uma orientação parental para ajudar na evolução da fama e nos momentos difíceis que aparecerem pelo caminho. 

Para Ana e Lucas, é importante reforçar que quem produz o conteúdo das redes sociais é o usuário, ou seja, a criança. Dessa forma, elas mesmas são uma maneira de alcançar o status de 'ser famoso'.  "Essa singularidade acarreta em um aspecto fundamental que diz respeito à sedução que ofertam de tornar repentinamente famosas, pessoas até então completamente anônimas, o que muitas vezes implica na possibilidade de fazer da própria intimidade um espetáculo", explicam os psicanalistas. 

Acompanhamento. Os quatro especialistas que conversaram com o E+ aconselham que, para que a combinação entre infância e fama dê certo, é aconselhável ter um acompanhamento psicológico. 

"Um trabalho analítico paralelo à experiência da fama tende a ser um aliado muito especial na produção e manutenção da saúde psíquica das crianças", explica Lia.

Além disso, os profissionais concordam que, durante a infância, a criança deve brincar, explorar, se divertir. Às vezes, ter uma rotina tão regrada prejudica este momento da vida. "A criança precisa brincar e precisa ser criança. Nesse sentido a fama pode tomar um espaço e exigir uma rotina da criança não saudável, algo que ela não pode dar, e aí podemos pensar como afetaria negativamente", avaliam os psicanalistas Ana e Lucas.